De quatro em quatro anos (agora em Tóquio a pandemia deu uma mudada nesse número), a mesma cena se repete. A maratona fecha a Olimpíada, viajando de país para país a cada ciclo olímpico. E não tem como pensar nesse encerramento sem voltarmos 17 anos no tempo: mais especificamente para Atenas, no ano de 2004. O lugar não poderia ser mais propício para um brasileiro deixar seu nome na história. Vanderlei Cordeiro de Lima protagonizou uma das cenas mais comoventes do esporte na Grécia. Berço tanto dos Jogos Olímpicos quanto da própria origem dos 42,195 quilômetros de corrida que depois ficaram conhecidos como “maratona”. Liderou a prova até os quilômetros finais, quando um ataque de alguém de fora interrompeu para sempre o sonho dourado do brasileiro. Vanderlei fechou com o bronze, e se tornou um verdadeiro ícone mundial a partir de então.
Relembrar Vanderlei é inevitável quando pensamos em Brasil na maratona olímpica. Ele deixou um legado para todos os brasileiros. E essa herança bate mais forte ainda no coração dos atletas que irão largar representando o Brasil neste fim de semana em mais uma maratona que fechará outro ciclo olímpico, dessa vez no Japão. Teremos 3 maratonistas em ação, e muita garra para dar sequência ao caminho que Vanderlei começou 17 anos atrás. A maratona destes Jogos Olímpicos acontece neste sábado (06 de agosto), às 19h – horário de Brasília. Dê uma olhada no time de feras que buscarão o ouro pelo Brasil:
Daniel Chaves (2h11’10”) 
Dani Chaves é um exemplo quando o assunto é guinada de vida. Ficou perto de conseguir índice para correr em Londres, mas se lesionou. No Rio, em 2016, apenas 18 segundos separaram Dani do sonho olímpico. Não conseguir a classificação naquele ano significou muita coisa, inclusive o desamparo de seus patrocinadores da época e uma depressão que quase o levou ao suicídio. Se em 2017 ele quase abandonou de vez a carreira, no fim de 2018 ele estreou com o pé direito na maratona (fechando em 18º lugar), e começou a flertar de vez com a distância. Não demorou para conseguir uma belíssima performance em Londres no ano seguinte, completando os 42,195 metros da maratona em 2h11’10”, 20 segundos abaixo do índice nacional para representar o Brasil nas Olimpíadas.
Dani Chaves vem forte e confiante para essa que será apenas sua 3ª maratona como profissional. Nascido em Petrópolis (RJ), Dani desenvolveu uma base de treinamento bastante sólida para esse ciclo olímpico, com passagem recente pelo Quênia antes de desembarcar no Japão. Estreará em Olimpíadas na melhor fase de sua carreira, e tem ritmo para acompanhar os melhores do mundo até o fim.
Paulo Roberto de Almeida Paula (2h10’08”) 
Paulo é o veterano do time. Com 42 anos e duas participações olímpicas (8ª colocação em Londres e 15º lugar no Rio), ele conquistou o índice na Maratona de Sevilla, melhorando em 15 segundos sua melhor marca na distância.
Essa performance mostrou que ele chega no Japão em sua melhor forma física, e que as mudanças recentes em sua metodologia de treinamento desenvolvidas por seu técnico e irmão gêmeo (Luís Fernando Almeida Paula) estão surtindo efeitos positivos.
Desde 2019, Paulo é atleta do São Paulo Futebol Clube. Tem como melhores tempos as marcas de 28’34” nos 10km e 1h02’30” na meia maratona.
Daniel Nascimento (2h09’06”) 
Daniel Nascimento já pode ser considerado um fenômeno. Com apenas 22 anos, o jovem atleta de Paraguaçu Paulista fez logo uma estreia estrondosa na maratona. Na primeira prova da sua vida na distância, ele não só venceu, como fez o melhor tempo de um brasileiro na maratona dos últimos 9 anos. Como se não bastasse, sua estreia foi a melhor de um sul-americano em toda a história. Antes dele, Ronaldo Costa tinha o posto de melhor estreante, com 2h09’07” em Berlin. Ronaldo que foi recordista mundial da distância com o tempo de 2h06’05”, sendo a primeira pessoa a correr os 42,195 quilômetros em um pace médio abaixo de 3’/km.
Ainda neste ano de 2021, Daniel Nascimento foi também campeão sul-americano nos 10.000 metros, com o tempo de 29’18”.
Daniel passou boa parte deste ano treinando no Quênia, ao lado dos melhores do mundo e inclusive do respeitadíssimo Eliud Kipchoge – primeiro homem a correr uma maratona abaixo de 2 horas, em evento realizado pela marca INEOS, e atual recordista mundial. Tanto tempo treinando com os corredores de resistência mais rápidos do mundo o colocam como uma forte aposta para uma medalha brasileira nessa edição da maratona olímpica. Os efeitos positivos dessa temporada no Quênia já foram colocados à prova uma vez em Lima (prova em que conseguiu o índice), e devem passar por uma prova de fogo maior ainda agora no Japão. O brasileiro mostra que, além de velocidade, tem coragem de sobra para se posicionar desde o começo onde é o lugar dele: entre os primeiros.

 

 

 

Comentários

comentários