Quando o descanso é mais duro do que os treinos
Desde o fim do ano, ouvimos que o importante é parar com os treinos e aproveitar as festas para comer e beber. Que devemos dar um tempo para o corpo descansar e se recuperar do esforço de um ano inteiro de treinos duros e de possíveis lesões. E quanto ao psicológico, ouvimos que é hora de esquecer a cobrança de ter que treinar e aproveitar o recém-conquistado “tempo livre” para realizar todas as atividades que deixamos de lado durante o ano inteiro.
Ok! Concordo com todas essas afirmações. Não irei contra 99% dos atletas e treinadores, pois divido suas opiniões. Afinal, quem não concorda com isso na teoria? O problema é que, na prática, a coisa não é tão fácil assim e o objetivo desta coluna é levantar algumas questões sobre porque isso é tão difícil e ao mesmo tempo tão importante.
Por mais que saibamos que o corpo e a cabeça precisam de uma pausa, nós triatletas compartilhamos uma cultura bastante rígida e em alguns momentos até masoquista. Valorizamos a capacidade de levar o corpo ao limite, seja ele qual for. Valorizamos a dor, o cansaço, o sofrimento e a capacidade de dia após dia levantar cedo e realizar os treinos e repetições à exaustão, superando todos os obstáculos em nosso caminho. Nesse percurso, muitas vezes, teimamos em ignorar alguns sinais do corpo e da mente e acabamos nos considerando onipotentes, imaginando que nossa vontade e nossos desejos estão acima da realidade.
Os atletas acostumam considerar o descanso, o treino perdido, o ócio, uma noite mais relaxada, o dormir tarde e até mais tarde, o tomar algumas cervejas ou comer besteiras como falta de controle, falta de disciplina, falta de vergonha na cara, preguiça, desvio de caráter ou, no mínimo, coisas que “verdadeiros“ triatletas nunca fariam ou deveriam fazer. Criamos um conceito do “triatleta ideal” e qualquer desvio deste padrão consideramos uma grave falha. Ao fazer isso, nos desviamos de nosso foco principal, o desenvolvimento, e abrimos espaço para a culpa que nos paralisa.

Foto: Pejman Parvandi/Flickr C.C.
Sentimos-nos culpados quando percebemos que estamos substituindo algo que valorizamos por algo que consideramos errado, ruim, inadequado. E para isso, precisamos de um juízo de valor adequado, afinal ninguém se culpa por estar fazendo algo que julga correto. Mas ao nos sentirmos assim, acabamos considerando como inadequadas não apenas as nossas ações, mas a nós mesmos. Perdemos a confiança em nosso julgamento e na capacidade de tomar decisões corretas, e acabamos entrando em duas armadilhas para o atleta. A primeira é a paralisação, pois se não somos capazes de nos controlar e acertar, o melhor é fazer o mínimo possível. A segunda é a compensação, afinal se ontem não fui capaz de realizar o correto, hoje devo fazer em dobro, ou de forma exagerada. Nenhum dos dois pensamentos nos devolve o valor ignorado, acaba apenas nos empurrando mais fundo nesta areia movediça.
Então, o que precisamos fazer é parar e refletir sobre nossos reais valores e necessidades como pessoas e atletas, de acordo com nossas expectativas e com o momento do ano e da vida em que nos encontramos. No período de férias, que pode ser dezembro, junho, outubro ou qualquer outro, precisamos descobrir o que realmente será importante para cada um.
O que tenho percebido ao conviver com atletas, principalmente os amadores, é que existem aqueles que treinam para evoluir, competir ou melhorar suas marcas, e aqueles atletas que treinam apenas para continuar treinando. Sua obstinação em nunca parar, emendando temporadas, viagens e competições, acaba sendo reflexo muito mais da valorização do nunca parar, nunca deixar de ser triatleta, do que da realidade do treinamento, do corpo e da cabeça, que fará dele um melhor atleta ao longo dos anos.
E ao aceitarmos a realidade e os valores da recuperação, do descanso físico e mental; ao percebermos que treinamos porque gostamos e não porque somos obrigados ou porque estamos alienados em nossa rotina; ao adquirirmos a confiança de que podemos parar em algum momento e depois, à custa de nosso próprio esforço, retomaremos à nossa forma física e estaremos prontos para evoluir ainda mais, conseguimos tornar este descanso ainda mais prazeroso para nós mesmos e para os que estão convivendo conosco neste momento. E mais importante, torná-lo mais eficiente do ponto de vista físico e mental.
Mas para isso, precisamos não apenas estar tranquilos quanto às nossas decisões, mas também temos que tomar cuidado com algumas tentações. A primeira delas é o medo de perder a forma física. Normalmente, estamos tendenciados a tirar férias após nossa prova mais importante, aquela que estamos mais bem preparados, mais rápidos, mais resistentes, mais magros e mais fortes. E todo triatleta se orgulha de sua forma física e do sacrifício feito para alcançá-la. O problema é que após completar a prova, é difícil abrir mão de tudo isso, e quando o calendário permite o atleta sempre quer começar a treinar logo, realizar mais uma prova, tentar mais uma vez. Principalmente se o resultado na prova alvo não foi o esperado.
Outra tentação dos atletas é a de não parar de treinar para já iniciar a temporada seguinte em vantagem em relação a seus adversários, afinal quando todos retornarem de férias, mais pesados e mais lentos, ele já estará em forma, pronto para continuar crescendo ao invés de perder tempo recuperando os quilos ganhados e a forma perdida.
Porém, normalmente, o preço por estas escolhas não é pago agora. Muitas vezes, é possível fazer outra prova em boas condições e, provavelmente, o atleta irá liderar e quebrar todos os outros atletas nos treinos de janeiro. Mas a prova alvo não é em janeiro, julho ou novembro e rapidamente os outros atletas mais descansados, mais recuperados e mais dispostos mentalmente irão se recuperar, perder peso e estarão igualmente prontos para evoluir. Já o cansaço e a fadiga de quem ignorou a recuperação irá aparecer antes, muitas vezes, em um momento importante da preparação e pode pôr em risco todo o objetivo determinado.
Por isso, na hora de decidir não descansar ou descansar, é preciso tomar muito cuidado. Já está provado que a recuperação do que é perdido após o descanso das férias é rápida. Ficamos assustados quando lemos que após 48 horas sem exercício já começa haver perda do preparo adquirido, mas não costumamos dar atenção ao fato de que após 15 dias parados podemos perder menos de 10% do nosso VO2. Esquecemos também que durante os longos treinos do período de base, principalmente se for base para um Ironman, além de precisarmos de alguma reserva corporal, perdemos os quilinhos a mais das férias rapidamente sem grandes problemas.
Outro fator que é muitas vezes mais importante do que a condição física alcançada na temporada anterior são os padrões mentais de velocidade e resistência do atleta. Durante o treinamento, junto com o aumento das capacidades físicas, vamos criando padrões mentais do que somos capazes e de como fazemos isso. “Aprendemos” a correr a 4min/km, ou 3’30min/km e sabemos que somos capazes. Estes padrões não se perdem com o tempo parado e por mais que o atleta não esteja em condições físicas de repetir este tempo, o fato de saber que isto é possível o ajuda a retomar este nível muito mais fácil e rapidamente do que alguém que nunca realizou tal feito, mesmo em condições físicas semelhantes.
Todos nós precisamos encarar a realidade do que é a exigência do treinamento de triathlon e basear nossas ações em nossos valores pessoais. E não estou falando sobre intensidade suportada, capacidade de treinar mais ou menos, condições individuais mentais, físicas ou genéticas de suportar temporadas seguidas sem nenhum dia de descanso. Tudo isso é possível. Mas será que vale a pena o risco? Será que o peso de tirar alguns dias para relaxar, comer, beber e não fazer nada é tão grande que nos obriga a emendar provas e temporadas sem descanso?
Esta é uma pergunta que cada um de nós deve responder sozinho, de acordo com seus valores individuais e suas prioridades.
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Arthur Marcondes Ferraz Silva
Psicólogo – Especialista em Psicologia do Esporte
Psicólogo das seleções brasileiras de Nado Sincronizado e Cross Country e Biathlon de Inverno
Triatleta do Esporte Clube Pinheiros, campeão mundial de aquathlon em 2008, fez seu primeiro Ironman em Florianópolis 2011
> Leia também: Psicologia do esporte: quem sabe faz a hora





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