Diário até Kona: Ana Oliva e seu relato final do aprendizado no Havaí
Após a leitura do diário do Topan, mais uma vez volto a afirmar “Só sei que nada sei”. Talvez, meu relato não agrade, mas, de qualquer forma, aí vai…
Antes de qualquer outra palavra, gostaria de agradecer a todos que acompanharam os diários. A todos que tiveram paciência para ler meus pensamentos e minhas dificuldades enfrentadas durante os treinos. A todos que acompanharam a sequência e volume de natação, pedal e corrida que tiveram que ser ajustados para que eu entrasse em forma em apenas 4 semanas e tivesse condições para largar no dia 08 de outubro, em Kona.
Gostaria de agradecer aqueles que me encorajaram e me fizeram acreditar que eu seria capaz de largar e ainda realizar uma boa prova, apesar de todos os apesares.
Agradeço a todos que participaram direta ou indiretamente do meu treinamento, só eu sei o quanto eu os infernizei (ainda insisto no adicional noturno e insalubridade! rs)
Gostaria de agradecer à minha família, a minha equipe de trabalho e aos meus amigos.
Agradeço aos meus apoiadores: Esporte Clube Pinheiros, Oakley, Asics, Studio Velo Tech, Officina, CNM Sport. Obrigada por acreditarem em mim e me darem a oportunidade de carregar, no peito, essas marcas de imenso valor!
Meus seguidores do blog, Facebook e Twitter, obrigada pela torcida, pelo carinho e preocupação.

Pedal na Queen K
Bom, vamos ao Hawaii…
Parece que fui testada. Testada o tempo todo por King Kamehameha. Estes dois últimos meses foram intensos e, em Kona, não foi diferente!
Tomei decisões. Decisões importantes, baseada no que fazia sentido para mim, naquele momento. Acordei com a consciência de que teria um dia difícil e sofrido. Fomos para o píer. Numeramos.
Estava tranquila… Juro!
Coloquei as caramanholas na bike, chequei os pneus e estava tudo certo!
Caí na água em cima da hora e nadei até a ponta esquerda, à extrema esquerda. Resolvi largar nesta posição, mais distante das bóias! Preferia nadar a mais a ficar presa no bolo como no ano passado – que foi um caos!
Aliás, foi uma excelente decisão! Nadei tranquila. Obviamente, rolou pacandaria, mas foi show!!! Comecei a nadar forte para sair do bolo de atletas que nadavam juntos. Fiquei ofegante e os braços travaram, mas valeu a pena. Eu consegui encaixar a natação e me colocar num bloco de nadadores para aguentar até o final.
Ao olhar o relógio, quando coloquei os pés no chão, não gostei. Estava marcando 1h04min, mesmo tempo do ano passado (porém em 2010, tive problemas com meu ombro). Mas, quando vi várias bikes ao lado da minha, na transição, e depois soube dos tempos dos outros atletas, mudei minha referência e fiquei mais contente e satisfeita com meu tempo de natação, mesmo porque, a natação estava mais difícil neste ano.
Minha transição foi lenta…
Na bike, pedalei forte, consistente! O vento estava pior do que no ano passado. Impressionante como a subida de Hawi nos consome! As condições climáticas são cruéis. O vento muda a toda hora! Rajadas laterais e não consegui, mais uma vez, ficar no clipe! Mas, acredito que a grande diferença em relação a 2010 foi na volta, após o km 120. No ano passado, não ventava.

Saída da água
Foi muito sofrido!
Chegava a dar risadas da situação, pois o vento era tanto, que a sensação era a de pedalar e não sair do lugar. Mas permaneci consistente, prestando atenção na hidratação, alimentação e já pensando em como me defender na corrida em função dos imprevistos ocorridos. Voltei, literalmente, brigando com a natureza!
Fechei o pedal para 5h35min. Feliz!
Na Big Island? Sob os “suspiros” de King Kamehameha? Para mim?
Foi muito bom!
Eu estava motivada! Comecei a fazer contas…
Saí da transição com 6h50min de prova. Logo tive aquela sensação: “Agora só falta correr!” Agora sou eu… By myself… Acreditava que conseguiria correr a maratona. Eu acreditava que uma hora anestesiaria tudo!
Mas, desta vez, NÃO ROLOU!
Até que comecei ritmada, porém, nos primeiros 7 km, na Alii Drive, já pensava em parar. Fiz o retorno.
Pelo meu tempo de natação + pedal + transições (que foram bem lentinhas, diga-se de passagem!), se eu quebrasse na corrida e corresse a maratona para 4horas, conseguiria fechar a prova abaixo de 10h50mim. Não sei por que, mas eu acreditava que ainda conseguiria correr.
Eu estava me arrastando! Acho que fui me enganando. Eu pensava:
“Vou parar, porque se eu não parar agora, vou pagar depois!”
“Mas, Se eu parar, como vou lidar com isso? Eu larguei. A decisão foi minha! Vou continuar até onde der. Vou fazer o que me propus a fazer! Longe de fazer a prova que idealizava e longe de pensar em performance… mas, vou até o final!”
“Será?”
Pensava na vaga: “Eu peguei a vaga… Tirei a oportunidade da segunda colocada de fazer esta prova que é um sonho para todo triatleta.”
Eu sonhava em largar novamente… Conquistei esse sonho!!!
Pensei nas empresas que me apóiam, nas marcas que carrego no peito e na minha responsabilidade. Pensei em todas as pessoas que acreditaram em mim e me ajudaram chegar até aqui.
Eu não podia parar e iria até onde meu corpo permitisse.
Assim, eu fui me enganando: “apenas até mais o próximo posto de água”
Sofri demais!!! Mas, tenham certeza: Eu fiz o meu melhor!
Fiz com amor… Fiz com paixão!!!

Chegada
Falhar, se permitir “fracassar”, aprender a lidar com a frustração, sofrer e lidar com as adversidades e variáveis incontroláveis, faz parte do nosso esporte.
Encarar, tomar decisões, e depois assumi-las! Tudo pode acontecer; inclusive nada! E isso é com qualquer um, seja amador ou profissional.
Como o Topan sempre diz:
“Ironman é Ironman… Kona é Kona…”
Apesar de todos os apesares, amo este esporte! Amo a Big Island!
E Kona Continua sendo meu sonho….
Living a dream….
Dreaming a dream…
Não estava num bom dia, mas agi de acordo com o que fazia sentido para mim, naquele momento…
Opção minha! É… Se fosse fácil… Não se chamaria Ironman!
Porém, tenho me questionado, um pouco, sobre esse “espírito Ironman de terminar a prova a qualquer custo”. Acabei piorando meu quadro geral, pois não tive a percepção, autoconhecimento, segurança e experiência para entender e fazer a leitura dos sinais do meu corpo. Eu diria que são poucos os atletas que chegam a esse estado. São raros os que têm a coragem de assumir e falar: “Fiz o meu melhor… até onde foi possível!
Faz sentido?
Tomar a decisão de ir até o final da forma como fiz, talvez tenha sido uma operação “kamikaze”. Fui meio inconsequente. Não ter noção para entender os sinais do próprio corpo e não ter limites para dor não é heroísmo… Mas, sim, amadorismo!
O verdadeiro Ironman quer fazer o esporte no longo prazo…
Quer o casamento com o esporte…
Quer praticá-lo para a vida toda…
Quer a sequência…
O dia após dia…
Terminar uma prova a qualquer custo pode acabar com essa relação de longa data, com o amor da sua vida!
Cruzar a linha de chegada de qualquer maneira, e depois ficar meses sem treinar? Será que vale a pena?
Hoje, digo como amo este esporte!
Quero sim carregá-lo comigo por muuuuiito tempo.
Não faz sentido cruzar uma linha de chegada a qualquer custo e depois não conseguir realizar uma função básica e natural do ser humano que é andar!
Infelizmente passei um pouco do meu limite. Que isso sirva de lição, para mim mesma.
O Tico e Teco estão duelando violentamente e já pensando no ano que vem!
Mahalo!!!
Aninha





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