Psicologia do esporte: quem sabe faz a hora
Quanta energia precisamos despender para nos sentirmos prontos para competir em Kona? Quanta intensidade devemos impor no treinamento? De quanta humildade precisamos para reconhecer nossas deficiências e quanto trabalho será necessário para superá-las?
Estas são dúvidas fundamentais que fazem parte do dia a dia de todos os atletas em sua preparação para esta grande competição e precisamos olhar um pouco mais de perto para entender como as respostas a estas questões influenciam o comportamento de cada atleta. Esta é uma possibilidade que o Diário até Kona nos oferece. Acompanhamos os atletas acordando cedo, cumprindo sua dura rotina de treinamento, enfrentando dores, aumentando a intensidade e buscando a melhora em cada treino e detalhe de sua preparação.
Mas o que torna possível aos atletas o investimento de tanto esforço, trabalho e intensidade é um aspecto mental muito falado, mas cuja definição e percepção muitas vezes são difíceis: A Motivação.

Medalha de finisher em Kona 2010
Nossa motivação está em nossas ações, em nosso dia adia, na força, na intensidade e no empenho em que dedicamos a cada atividade. Por isso não espere o momento certo. Faça acontecer…
Segundo uma definição mais clássica, a motivação é a energia aplicada em direção a um objetivo. É o quanto de nossos recursos, em termos de qualidade e quantidade, nos permitimos aplicar em função de nossas metas. Neste sentido, podemos falar de motivação em relação ao objetivo quando falamos que um bom resultado em uma prova é a nossa motivação. Porém, também consideramos a motivação em relação à energia, quando dizemos que o atleta está motivado ou qual o nível de motivação presente.
Muitas vezes, também avaliamos e observamos a motivação em relação ao nível emocional do atleta. Quando observamos disposição, alegria, satisfação e outras emoções positivas, costumamos dizer que este atleta está motivado. Mas, será que o atleta precisa estar sempre bem disposto para atender às demandas de seus objetivos?
Foi então que nos diários pude observar relatos que já foram ponto de discussão com muitos dos atletas com os quais já trabalhei. Como já disse, para obter motivação precisamos de um objetivo e uma energia aplicada. Como objetivo, temos nada menos do que a competição no campeonato mundial de Ironman. E como se isto não fosse suficiente, nos atletas participantes do diário, temos não apenas objetivos de participação, mas encontramos atletas de alto nível, experientes e que realmente não estão indo ao Havaí para passear ou brincar.

Kona 2010
Precisamos sempre considerar os objetivos, pois no que se refere à motivação, enquanto a capacidade dos atletas caminhar junto com a importância do objetivo, quanto maior for a importância deste, maior será a motivação do atleta. Isto significa que precisamos mirar alto em nossas metas, mas precisamos ter certeza e confiar em nossas capacidades de alcançá-las, caso contrário, metas muito ambiciosas criarão insegurança e será uma ameaça à motivação. No caso de nossos atletas, tenho certeza de que eles estão mirando no pódio, e com boa pontaria.
Mas é em relação à energia aplicada que vejo a grande importância da motivação neste longo processo e muitas vezes a grande fonte de dúvidas e inseguranças em relação a esta. Quando relacionamos as emoções positivas à motivação, precisamos entender que estas emoções devem ser resultado e não causa do processo. Estas emoções tendem a estar presentes durante toda a preparação e no momento da competição, mas é resultado da compreensão do atleta de que o trabalho está sendo feito de forma adequada em termos de qualidade e quantidade.
É aquela sensação boa de ter completado um treino duro com um tempo ou uma média muito boa, ou até aquela empolgação por estar prestes a começar este treino. O que não podemos esperar é que todo dia precisemos estar com esta sensação para que o treino seja bem feito.
A motivação se torna presente na ação. Podemos acordar mal-humorados, com preguiça ou cansados, mas, se ao entrarmos na piscina somos capazes de dar o máximo, manter a intensidade alta e realizar grandes tempos, podemos dizer que a motivação está lá. Se enfrentarmos dificuldades, mas continuarmos mantendo nossa dedicação e força em direção às nossas metas, continuaremos a contar com essa energia. Podemos observar isso quando os atletas nos escrevem sobre as grandes sensações de alegria e prazer quando, apesar dos obstáculos, eles se sentem mais próximos de seus objetivos após cumprirem com seus treinos.
E isto faz parte do conceito da chamada “força mental”. É esta sensação e este conhecimento que permitirá ao atleta continuar lutando frente às dificuldades, sabendo que mesmo perante o sofrimento, se ele mantiver a força e a intensidade necessária, conseguirá alcançar seus objetivos.

Kona 2010
Uma das histórias sobre Bob Bowman, o treinador de Michael Phelps, na universidade de Michigan, diz que em uma comemoração de ano novo com sua equipe, logo após o brinde da meia noite, ele mandou todos os atletas vestirem seus maiôs e se prepararem para uma tomada de tempo. Após ouvir as reclamações de todos, ele se explicou. Para ele, o atleta tem que aprender a desempenhar seu melhor no momento em que é necessário e não apenas quando se sente bem, quando está feliz ou bem disposto. E para ele, este é o momento da competição. Se o atleta for capaz de passar por cima das condições e entregar o resultado na hora certa, este atleta será um vencedor.
Nossa motivação está em nossas ações, em nosso dia adia, na força, na intensidade e no empenho em que dedicamos a cada atividade. Por isso não espere o momento certo. Faça acontecer…
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Arthur Marcondes Ferraz Silva
Psicólogo – Especialista em Psicologia do Esporte
Psicólogo das seleções brasileiras de Nado Sincronizado e Cross Country e Biathlon de Inverno
Triatleta do Esporte Clube Pinheiros, campeão mundial de aquathlon em 2008, fez seu primeiro Ironman em Florianópolis 2011













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