Race report: Ariane Monticeli e o aprendizado no Ironman Regensburg

12/08/2011 por Enviar por e-mail Imprimir
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Tritar Rio de Janeiro

A brasileira conta como foi a prova no Ironman Regensburg (veja a matéria sobre a prova), ocorrido na Alemanha, no último domingo.

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A cada prova que passa uma nova experiência.

Ironman Regensburg 2011, meu segundo do ano.

Comecei o dia tranquila, com pensamento focado na prova . Os profissionais largavam de dentro da água, já os amadores, 100 metros atrás. A largada foi tranquila, sem ninguém atropelando ninguém. O fato dos amadores terem largado junto (não em cima como no Brasil) é muito bom para mim, já que não nado muito bem… vou pegando os pezinhos até sair da água (risos). Minha roupa de borracha feriu muito meu pescoço, ao ponto de quase me desconcentrar. Saí da água com 59’08”, abaixo de 1h, mas sai com a lombar travada. Ali já percebi que o dia não seria fácil. Costumo fazer uma transição rápida, mas mel conseguia correr.

Chuva e mais chuva! Não me senti bem no começo, os primeiros 60 km vomitei 3 vezes, acho que estava com a barriga muito cheia do café, mas, mesmo assim, não desanimei. Fiquei calma e pensei: “vai passar e eu vou conseguir encaixar”. Realmente, depois do km 60, encaixou e comecei a pedalar forte, porém abaixei a cabeça 1 segundo para relaxar o pescoço, passei em cima de um bueiro, e tive como resultado um pneu furado. Não levei pneu reserva, (meu pneu era Tufo para roda clincher, um pneu difícil de trocar), só um pit stop. Ele resolveu, mas deixou o pneu murcho. Resultado: 100 km fazendo o dobro de força e controlando para não cair, mas fiquei tranquila o tempo todo, não adiantaria perder a cabeça, mantive bons pensamentos ao longo dos meus 31km/h de média e consegui observar coisas que, se estivesse mais rápida, não conseguiria (risos).

ironman natação 027 Race report: Ariane Monticeli e o aprendizado no Ironman Regensburg

Ariane, no Ironman Brasil 2011

Pedalei de meia, como fiz no Brasil. Deu certo, vamos repetir! Porém, estava chovendo, e minha meia ficou encharcada, não tinha uma reserva na sacola da corrida, não pensei nisso… Até pensei em pedir para um staff, mas fiz a transição rápida e saí… vai assim mesmo…

Sai para correr, exatamente quando o Andreas Raelert (vice-campeão mundial de Ironman) estava passando, entrei na frente dele, e todos gritavam muito. Ele, super simpático, sorria para todos. Ele não me passou e nem ouvi mais os gritos das pessoas, daí pensei: “Cadê o Andreas, deixei o cara para trás!” Comecei correndo forte e me sentindo super bem, Cheguei a dizer a mim mesma: “caramba, nunca me senti tão bem!” Passei os primeiros 10 km em 42’30”. Nessa hora, veio à minha mente: “nossa se manter, abaixo meu tempo de maratona do Ironman”. Passei os 20 km em 1h25’, ou seja, estava mantendo, ao mesmo tempo em que passava todo mundo que vi me passando no pedal.

Quando cheguei ao km 22, acabou o meu “estou me sentindo muito bem”. Nessa hora o Andreas me passou novamente, sorrindo, até parou para abraçar uma amiga. Ele só precisava completar a prova, estava tranquilo e se divertindo.

Meus pés doíam mais que tudo, resultado das meias encharcadas. Perdi a sola dos pés, meus músculos doíam tanto que o mínimo impacto era uma tortura. Passei pelo meu pai quando faltavam 14 km para acabar, e disse: “Pai, não aguento mais, não dá mais”, e ele disse “vamos filha falta pouco, você consegue.”

Faltando 8 km para o fim, nem trotar mais era possível, então caminhar era a solução. Como meu pai pediu, vamos terminar!

Neste ponto, comecei a pensar em tudo, falava comigo mesma: “o que eu faço agora, não da mais…” Foi aí que comecei a observar tudo a minha volta, pessoas idosas fazendo a prova, passando por mim correndo com a pulseirinha de uma volta completada (eram 4), pessoas correndo tortas cheias de câimbra, pessoas correndo juntas conversando, dando força uma a outra… Pude olhar e agradecer aos staffs que serviam as águas, todos sorrindo e felizes, muitos me dando força para que eu continuasse. Pude ver a primeira mulher passando por mim, correndo em um ritmo incrível, vi o primeiro homen…

Fiz piada, cantei… Vi coisas incríveis, não desanimei, nem chorei, simplesmente curti aquele momento, dei muita risada. Enfim, coisas que jamais veria se estivesse correndo concentrada, como sempre faço.

Meu pai caminhou comigo os últimos 2 km e, quando cheguei ao funil, me emocionei de verdade, de ver a alegria das outas pessoas chegando. Mandamos beijos e gritamos. Senti-me emocionada de ver as pessoas gritando e torcendo tanto quanto para o primeiro que chega.

Chorei, pois aquilo foi lindo. Não importa se fiz em 11h, ou 9h, ou 16h, completei um Ironman com minhas próprias pernas. Nadei 3.800m, pedalei 180 km e corri, ou caminhei, 42 km. Eu fiz e consegui. É inexplicável o que se sente quando se completa essa prova, não há como ficar triste só porque não consegui o tempo que gostaria. Completar um Ironman sempre é um momento único, ninguém pode lhe tirar isso. Duvido que a Ana Lídia Borba tenha ficado triste porque completou o Ironman Brasil deste ano em 12 h, e eu não me senti melhor do que ela, ou melhor do que qualquer um, porque fiz em 9h.

Só fiquei triste por não fazer uma grande prova para meu pai ver, mas, mesmo assim, ele veio correndo me abraçar e me dar um beijo de parabéns.

Se você puder e tiver saúde, faça um Ironman para entender exatamente do que eu estou falando, tenho certeza que não irá se arrepender.

Ariane Monticeli

 

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