O Ironman sob o olhar da calçada
Imóvel e sem que nada mais importasse naquele momento, meu olhar se fixava sobre seres indescritíveis que passavam à minha frente.
À primeira vista, meus olhos viam homens e mulheres enfileirados e prontos para uma batalha que causaria inveja a William Wallace do filme Coração Valente. Alí, naquela posição de combate, era quase impossível diferenciá-los e todos pareciam altamente concentrados para o início de uma grande luta.
Como se fosse um dialeto próprio, ouvíamos frases estranhas que ecoavam com a brisa gelada que soprava: “O mar está “fletásso!”; “Pelo visto, vai ter muita gente chupando roda”. Do que será que estavam falando? Não importa, pois o espetáculo estava prestes a começar.
E como se suas vidas dependessem daquela corrida até a água, partiram rumo às duas grandes bóias que, aos nossos olhos, pareciam estar a, aproximadamente, 30 km de distância da praia. Enquanto a nossa mente ainda duvidava se conseguiriam ou não alcançar aquele ponto distante, nossos olhos se surpreendiam, pois, inexplicavelmente, já havia atletas saindo da água. Como foram e voltaram em tão pouco tempo? Como é possível nadar 389km em aproximadamente 47 minutos? Isso também não fazia diferença àquela altura, pois era preciso correr para o local de largada da bicicleta.
Bicicleta? Mais pareciam carros de batalha, completamente equipadas e velozes. Algumas mais coloridas outras mais discretas, mas juntas formavam um novo regimento para dar continuidade à segunda parte da grande batalha. Minha mente se perde novamente nas dúvidas: “Conseguirão pedalar 180 km? É como ir de bicicleta de Campinas a Araraquara, quase não dá para acreditar que seja possível. Alheios às divagações da minha mente, continuaram a partir um de cada vez ou vários ao mesmo tempo para uma jornada solitária.
Disseram-me que havia um ponto, no percurso, onde todos passariam para fazer o retorno. Enquanto me dirigia para esse local, percebi ao meu lado uma multidão de olhares, assim como o meu, extasiados com o grande espetáculo que se passava bem diante dos nossos olhos. Senti-me parte de tudo que estava acontecendo. Não éramos mais a platéia dos atletas, passamos a interferir no resultado de cada um, porque cada palavra de incentivo parecia uma dose de adrenalina injetada diretamente em seus corações. No calor de tanta emoção, nem sentimos o tempo passar e quando ainda nos divertíamos com as máquinas e seus guerreiros, um novo contingente se formava para a terceira e mais emocionante fase dessa grande batalha.
Os guerreiros deixavam suas máquinas e, literalmente, corriam para o combate por terra. Cada um no seu ritmo partia para inacreditáveis 42 km de corrida. Alguns não demonstravam cansaço após 184 km de prova, outros pareciam gritar por socorro. Estáticos, aqui da calçada, admirávamos a garra dos atletas que passavam à nossa frente. Era um desfile de força de vontade e determinação que contagiava a todos.
Durante a natação, estavam com suas armaduras e não os diferenciávamos; durante o pedal, passavam muito rápidos e mal conseguíamos vê-los, mas na corrida tudo ficou mais nítido e o espetáculo pode ser contemplado de perto. Identificamos adolescentes, homens e mulheres de idades variadas e a admiração crescia a cada instante. Não distinguíamos profissionais ou amadores, todos estavam na mesma batalha: A luta de cada um com o seu próprio limite de resistência. Eu, como mulher, pensava: Como elas conseguem? Como é possível que uma mulher consiga fazer uma prova de tanta resistência?
Aplaudimos de pé o grande campeão da prova, com o tempo total exato de 08h15min03seg e choramos com os nossos heróis que chegavam ao passar do tempo: Maridos, esposas, amigos, conhecidos ou desconhecidos emocionavam o publico presente. Aguenta coração! Alguns atravessavam o pórtico de chegada com toda a família ao seu lado… Afinal ela fazia parte daquele sonho e, de alguma maneira, era responsável pela sua realização.
Torcemos, rimos, choramos, gritamos e quando achávamos que todas as emoções já haviam se passado, formos surpreendidos, dessa vez, por um senhor de 75 anos que cruzou a linha de chegada faltando pouco mais de 04 minutos para o tempo máximo permitido para a prova, exatamente às 16h55min21seg. Nada se comparava à chegada do último guerreiro, do último vitorioso dessa grande batalha. Olhei ao meu lado e cada sorriso expressava a admiração em ver aquele homem chegar.
Sem que eu percebesse, um sentimento estranho nascia dentro de mim e, por mais absurdo que isso já me pareceu, por minha cabeça passava a possibilidade de algum dia em minha vida cruzar aquela linha de chegada. Não, não é possível que eu tenha sido picada pelo bichinho que transmite o Ironman. Será?
Por Rita Oliveira – redatora do MundoTRI














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