Diário até o Ironman: a superação de Rodrigo Cantal
O poder da mente
Durante 10 dias fiquei pensando o que escreveria sobre a prova do IRONMAN BRASIL 2011. Passaram várias coisas pela minha cabeça, mas nenhuma tão importante quanto o quão é importante a força mental durante a prova. Lendo os relatos finais vi que muito já foi falado sobre alguns pontos importantes não só no Ironman, mas também no triathlon. Sendo assim, falarei sobre a minha prova desse ano, e como a preparação mental é tão importante como a física numa prova desse porte.
Como havia falado a vocês nos relatos anteriores, eu me sentia bem mais preparado fisicamente do que ano passado. O mesmo não ocorria com a minha confiança. Não sei se pelo fato de minha corrida não ter encaixado muito bem nesse primeiro semestre ou pelo fato de na minha última prova longa, em Penha no ano passado, eu ter me lesionado na coluna a ponto de me arrastar pra terminar a prova. Fiz vários exames, incluindo duas ressonâncias, que só indicaram protusões discais, o que pelo médico, seria apenas um início de rotação dos discos. Sendo assim tratei com dois fisioterapeutas e a dor realmente não mais incomodou.

Foto: arquivo pessoal
A prova
O dia amanheceu bem frio, e logo imaginei que a minha escolha de não usar manguitos e nem meias na bike não estava lá muito correta. A chegada na transição, a pintura do corpo e todos os preparativos finais foram bem tranquilos.
Cheguei à praia com bastante tempo para desejar boa prova a todos os amigos e ainda me concentrar pra largada. Estava na cabeça com o tempo que meu treinador me disse para a natação. Mesmo com o 01h10min do ano passado (fala-se a distância estava menor), ele me veio com 01:17 pra esse ano. Não sou de largar bem na frente, mas também não largo lá atrás. Gosto de deixar a “muvuca” sair e só então começar a nadar sem levar e dar muita braçadas e chutes. Como ano passado estava bem tranquilo na natação, fiz a primeira volta pra 40 minutos. Minha mulher eestava ali no corredor, e ouví-la gritando que tinha sido sensacional. Quando olhei para o mar na segunda volta vi que a maré levava os outros atletas para longe da bóia grande, foi quando ouvi um cara que gritava para que tentássemos nadar para o lado oposto. Fiz essa tática e errei muito pouco a reta da bóia. O problema todo foi o mar muito mexido e a volta em direção à praia. A sensação era de que não se saia do lugar e quando finalmente cheguei à praia, eu estava em cima das pedras com um bombeiro gritando pra que eu fosse pro outro lado (como vai? Hehehe). O erro de direção foi pouco e saí pra 01:16 no relógio (01:17 no tempo do chip).
Apesar do mar mexido saí me sentindo muito bem da água e fiz uma transição como nunca tinha feito. Fiz todo o trajeto entre a entrada e a saída da tenda correndo e parecia que os outros atletas ali estavam em câmera lenta. Foram exatamente os 5 minutos pedidos pelo treinador.
Saí pra pedalar bem confiante, pois o pedal era o que melhor havia treinado. Só que meus problemas começaram no Km 03, ainda saindo de Jurêrê. Passei por um dos vários buracos daquele trecho, e como já estava clipado, o apoio do braço do lado esquerdo desceu. Passei os 177 kms restantes pensando em parar quando avistava um mecânico, mas o pensamento em perder tempo não me deixava parar. E o pior é que a cada outro pequeno desnível ou buraco que passava clipado, o apoio descia ainda mais. No retorno pra terminar o pedal ele já estava encostando no guidon.
Para não perder tempo, optei por não parar nos novos special needs da bike. Esse ano era obrigado a parar e descer da bike para buscar a sacola. Saí com tudo que precisava desde o início, os géis suficientes, duas caramanholas de acelerade, pilulas de sal e BCAA e um comprimido do Advil. Tudo deu certo, a não ser pelo fato de que no Km 140 (não sei se pelo fato do clip muito torto ou pela lesão antiga), senti que minhas costas travariam novamente na corrida. Foi aí que quando procurei meu Advil na bolsinha do clip constatei que o mesmo havia “pulado” dali, não sei como. Mesmo assim fiz essa parte dos 140 aos 180 muito forte e sempre no clip, pois estava a favor do vento e com as pernas inteiras. Meu treinador colocou como objetivo 05:25 no pedal, foram 05:28 e com as transições inclusas saiu 05:37 no oficial.
Mais uma vez fiz uma transição bem rápida e em 4 minutos já estava saindo pra correr. Estava confiante, pois estava saindo pra correr com 10 minutos a menos do meu tempo em 2010. Só que perto do Km 02, as costas voltaram a dar sinal de dor. Mesmo assim corri forte até o Km 03, numa média de 05:10min/km, até que ao passar pela minha família e parar pra falar com eles, minhas costas literalmente travaram. O advil que havia tomado na transição não serviu de coisa alguma. Meus pés estavam dormentes e a corrida passou para um pace de 06:10min/km. Mesmo sabendo que não podia pedir nada pra ninguém de fora, pedi um tylenol pra minha esposa, ela veio me entregar no Km 07, recebi e quase chorando pedi desculpas a ela porque não iria terminar. Tinha certeza disso! Ela me perguntou quanto faltava e eu disse: Só 35 km. Eu sabia que aquele tylenol não melhoraria minha situação e pra piorar, logo depois, na minha frente, a dois metros de mim, o Galindez desistiu da prova. Fiquei pensando que se ele estava desistindo, não era desonra pra mim desistir, mas mesmo assim parti em direção à Canasvieiras. Aí que entra o poder da mente, nessa hora pensei no tanto que havia me dedicado aos treinos (e definitivamente não foi pouco), no tanto que fiquei ausente para minha mulher, minhas filhas, meus pais, meus amigos de fora do triathlon. Eu não podia desistir por eles. Eu teria que encarnar o espírito Ironman e terminar aquela prova mesmo que fosse andando e longe do meu tempo desejado.
Esqueci de dizer que quando passei pela minha família no segundo Km, minha filha mais velha me deu uma flor, a coloquei dentro do macaquinho do lado do coração, e toda hora que pensava em fraquejar pegava nela, e com lágrimas nos olhos fazia mais um pouco de força.
Quando estava subindo a primeira subida das Canasvieiras, lá pelo Km 10, meu amigo e agora irmão Rommel, que é médico, já vinha voltando de lá pelo Km 16, o segurei pelo braço e apelei por um remédio pra dor. Ele parou e me deu um remédio que até hoje não sei o que era, e o pior é que sou super alérgico, mas naquela hora nada era empecilho pra resolver meu problema da dor. Aquele remédio, eu tenho certeza que foi Deus quem mandou através do Rommel. Ele não destravou minhas costas, mas aliviou a dor pra que eu pudesse correr um pouco melhor em um pace de 05:45min/km. Mesmo com a dor do começo e o leve alívio pelo remédio, fiz a corrida da maneira que queria, só andei nas subidas fortes das Canasvieiras e nos postos de hidratação. Ainda consegui dar força pra amigos que estavam ali pela primeira vez, por eles passava e não reclamava de nada, já pelos mais experientes eu me lamentava e pedia força, o que sempre recebia e isso me fazia acreditar que poderia. Terminei a corrida pra 04h18min, 21 minutos a mais do que meu treinador havia falado e 17 minutos a mais que em 2010.
Todos sabiam que o meu objetivo era um tempo sub-11. Durante o meu problema na corrida mudei-o pra 11h06min pelo menos, um minuto abaixo de 2010. Mas mesmo com toda gana, a dor me venceu. Com medo de forçar e nem terminar, tive que segurar e aumentar meu tempo em 6 minutos. Vocês vão achar que é demagogia, mas pelos contratempos e pela prova dura que foi esse ano (aquele mar e aquele vento na segunda volta do pedal), acabei mais feliz do que em 2010. Foi uma prova de superação que me provou que o poder da mente é uma força descomunal que pode nos levar ao céu e ao inferno, dependendo de como você a usa. Dessa vez, cruzei o pórtico com minha mulher, minha filha mais velha, a mais nova agora fora da barriga da mãe e com meu maior incentivador, o meu amado pai. Fiz questão de que entrasse comigo, pois vi sua aflição quando comentei que podia ser que eu parasse. A chegada foi um misto de emoção, dor, felicidade, alívio e sentimento de dever cumprido.
Mas o que mais me marcou na chegada, foi quando sentado no chão e chorando, olhei pra Duda que estava assustada com o pai ali chorando. Puxei-a e retirei a flor do macaquinho mostrando a ela. Ela abriu um sorrisão e pulou em cima de mim, me dando um abraço que me derrubou no chão. Ali, naquele momento, passou pela minha cabeça tudo que eu havia passado nos treinos e na prova pra chegar até ali. E sei que tudo valeu muito à pena!
Aos que irão encara essa prova em 2012 fica os conselhos já dados durante todos os relatos e a certeza de uma coisa: Essa prova é pra quem se prepara! Tanto fisicamente como mentalmente. Por favor, respeitem-na!
Um abraço grande e obrigado pela torcida,
Rodrigo Cantal
O PODER DA MENTE!
Durante 10 dias fiquei pensando o que escreveria sobre a prova do IRONMAN BRASIL 2011. Passaram várias coisas pela minha cabeça, mas nenhuma tão importante quanto o quão é importante a força mental durante a prova. Lendo os relatos finais vi que muito já foi falado sobre alguns pontos importantes não só no Ironman, mas também no triathlon. Sendo assim, falarei sobre a minha prova desse ano, e como a preparação mental é tão importante como a física numa prova desse porte.
Como havia falado a vocês nos relatos anteriores, eu me sentia bem mais preparado fisicamente do que ano passado. O mesmo não ocorria com a minha confiança. Não sei se pelo fato de minha corrida não ter encaixado muito bem nesse primeiro semestre ou pelo fato de na minha última prova longa, em Penha no ano passado, eu ter me lesionado na coluna a ponto de me arrastar pra terminar a prova. Fiz vários exames, incluindo duas ressonâncias, que só indicaram protusões discais, o que pelo médico, seria apenas um início de rotação dos discos. Sendo assim tratei com dois fisioterapeutas e a dor realmente não mais incomodou.
A prova.
O dia amanheceu bem frio, e logo imaginei que a minha escolha de não usar manguitos e nem meias na bike não estava lá muito correta. A chegada na transição, a pintura do corpo e todos os preparativos finais foram bem tranquilos.
Cheguei à praia com bastante tempo para desejar boa prova a todos os amigos e ainda me concentrar pra largada. Estava na cabeça com o tempo que meu treinador me disse para a natação. Mesmo com o 01h10min do ano passado (fala-se a distância estava menor), ele me veio com 01:17 pra esse ano. Não sou de largar bem na frente, mas também não largo lá atrás. Gosto de deixar a “muvuca” sair e só então começar a nadar sem levar e dar muita braçadas e chutes. Como ano passado estava bem tranquilo na natação, fiz a primeira volta pra 40 minutos. Minha mulher eestava ali no corredor, e ouví-la gritando que tinha sido sensacional. Quando olhei para o mar na segunda volta vi que a maré levava os outros atletas para longe da bóia grande, foi quando ouvi um cara que gritava para que tentássemos nadar para o lado oposto. Fiz essa tática e errei muito pouco a reta da bóia. O problema todo foi o mar muito mexido e a volta em direção à praia. A sensação era de que não se saia do lugar e quando finalmente cheguei à praia, eu estava em cima das pedras com um bombeiro gritando pra que eu fosse pro outro lado (como vai? Hehehe). O erro de direção foi pouco e saí pra 01:16 no relógio (01:17 no tempo do chip).
Apesar do mar mexido saí me sentindo muito bem da água e fiz uma transição como nunca tinha feito. Fiz todo o trajeto entre a entrada e a saída da tenda correndo e parecia que os outros atletas ali estavam em câmera lenta. Foram exatamente os 5 minutos pedidos pelo treinador.
Saí pra pedalar bem confiante, pois o pedal era o que melhor havia treinado. Só que meus problemas começaram no Km 03, ainda saindo de Jurêrê. Passei por um dos vários buracos daquele trecho, e como já estava clipado, o apoio do braço do lado esquerdo desceu. Passei os 177 kms restantes pensando em parar quando avistava um mecânico, mas o pensamento em perder tempo não me deixava parar. E o pior é que a cada outro pequeno desnível ou buraco que passava clipado, o apoio descia ainda mais. No retorno pra terminar o pedal ele já estava encostando no guidon.
Para não perder tempo, optei por não parar nos novos special needs da bike. Esse ano era obrigado a parar e descer da bike para buscar a sacola. Saí com tudo que precisava desde o início, os géis suficientes, duas caramanholas de acelerade, pilulas de sal e BCAA e um comprimido do Advil. Tudo deu certo, a não ser pelo fato de que no Km 140 (não sei se pelo fato do clip muito torto ou pela lesão antiga), senti que minhas costas travariam novamente na corrida. Foi aí que quando procurei meu Advil na bolsinha do clip constatei que o mesmo havia “pulado” dali, não sei como. Mesmo assim fiz essa parte dos 140 aos 180 muito forte e sempre no clip, pois estava a favor do vento e com as pernas inteiras. Meu treinador colocou como objetivo 05:25 no pedal, foram 05:28 e com as transições inclusas saiu 05:37 no oficial.
Mais uma vez fiz uma transição bem rápida e em 4 minutos já estava saindo pra correr. Estava confiante, pois estava saindo pra correr com 10 minutos a menos do meu tempo em 2010. Só que perto do Km 02, as costas voltaram a dar sinal de dor. Mesmo assim corri forte até o Km 03, numa média de 05:10min/km, até que ao passar pela minha família e parar pra falar com eles, minhas costas literalmente travaram. O advil que havia tomado na transição não serviu de coisa alguma. Meus pés estavam dormentes e a corrida passou para um pace de 06:10min/km. Mesmo sabendo que não podia pedir nada pra ninguém de fora, pedi um tylenol pra minha esposa, ela veio me entregar no Km 07, recebi e quase chorando pedi desculpas a ela porque não iria terminar. Tinha certeza disso! Ela me perguntou quanto faltava e eu disse: Só 35 km. Eu sabia que aquele tylenol não melhoraria minha situação e pra piorar, logo depois, na minha frente, a dois metros de mim, o Galindez desistiu da prova. Fiquei pensando que se ele estava desistindo, não era desonra pra mim desistir, mas mesmo assim parti em direção à Canasvieiras. Aí que entra o poder da mente, nessa hora pensei no tanto que havia me dedicado aos treinos (e definitivamente não foi pouco), no tanto que fiquei ausente para minha mulher, minhas filhas, meus pais, meus amigos de fora do triathlon. Eu não podia desistir por eles. Eu teria que encarnar o espírito Ironman e terminar aquela prova mesmo que fosse andando e longe do meu tempo desejado.
Esqueci de dizer que quando passei pela minha família no segundo Km, minha filha mais velha me deu uma flor, a coloquei dentro do macaquinho do lado do coração, e toda hora que pensava em fraquejar pegava nela, e com lágrimas nos olhos fazia mais um pouco de força.
Quando estava subindo a primeira subida das Canasvieiras, lá pelo Km 10, meu amigo e agora irmão Rommel, que é médico, já vinha voltando de lá pelo Km 16, o segurei pelo braço e apelei por um remédio pra dor. Ele parou e me deu um remédio que até hoje não sei o que era, e o pior é que sou super alérgico, mas naquela hora nada era empecilho pra resolver meu problema da dor. Aquele remédio, eu tenho certeza que foi Deus quem mandou através do Rommel. Ele não destravou minhas costas, mas aliviou a dor pra que eu pudesse correr um pouco melhor em um pace de 05:45min/km. Mesmo com a dor do começo e o leve alívio pelo remédio, fiz a corrida da maneira que queria, só andei nas subidas fortes das Canasvieiras e nos postos de hidratação. Ainda consegui dar força pra amigos que estavam ali pela primeira vez, por eles passava e não reclamava de nada, já pelos mais experientes eu me lamentava e pedia força, o que sempre recebia e isso me fazia acreditar que poderia. Terminei a corrida pra 04h18min, 21 minutos a mais do que meu treinador havia falado e 17 minutos a mais que em 2010.
Todos sabiam que o meu objetivo era um tempo sub-11. Durante o meu problema na corrida mudei-o pra 11h06min pelo menos, um minuto abaixo de 2010. Mas mesmo com toda gana, a dor me venceu. Com medo de forçar e nem terminar, tive que segurar e aumentar meu tempo em 6 minutos. Vocês vão achar que é demagogia, mas pelos contratempos e pela prova dura que foi esse ano (aquele mar e aquele vento na segunda volta do pedal), acabei mais feliz do que em 2010. Foi uma prova de superação que me provou que o poder da mente é uma força descomunal que pode nos levar ao céu e ao inferno, dependendo de como você a usa. Dessa vez, cruzei o pórtico com minha mulher, minha filha mais velha, a mais nova agora fora da barriga da mãe e com meu maior incentivador, o meu amado pai. Fiz questão de que entrasse comigo, pois vi sua aflição quando comentei que podia ser que eu parasse. A chegada foi um misto de emoção, dor, felicidade, alívio e sentimento de dever cumprido.
Mas o que mais me marcou na chegada, foi quando sentado no chão e chorando, olhei pra Duda que estava assustada com o pai ali chorando. Puxei-a e retirei a flor do macaquinho mostrando a ela. Ela abriu um sorrisão e pulou em cima de mim, me dando um abraço que me derrubou no chão. Ali, naquele momento, passou pela minha cabeça tudo que eu havia passado nos treinos e na prova pra chegar até ali. E sei que tudo valeu muito à pena!
Aos que irão encara essa prova em 2012 fica os conselhos já dados durante todos os relatos e a certeza de uma coisa: Essa prova é pra quem se prepara! Tanto fisicamente como mentalmente. Por favor, respeitem-na!
Um abraço grande e obrigado pela torcida,
Rodrigo Cantal.






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