Diário até o Ironman: a odisseia de Carol Militão
Afinal, o que é um Ironman?
Nadar 3800m, pedalar 180 km, correr 42 km? Ah se fosse só isso! Na verdade, esses são meros detalhes que fizeram grande diferença quando, há um ano, resolvemos encarar esse desafio. Ironman é um estilo de vida! E quando cruzamos aquela linha de chegada, se torna uma lição de vida.
Eu não sou muito de detalhes, mas, para mim, essa prova merece todos os detalhes, pois serviu de superação e compartilho isso com vocês leitores para que nunca desistam de algo que saía do seu controle. Basta tranquilidade e autocontrole para que tudo se normalize e volte a ser possível de ser concretizado.

Foto: Wagner Araújo
Desde o início, sempre relatei meu psicológico, hora muito forte, hora muito fraco. Há algumas semanas atrás, eu achava que não tinha estrutura mental suficiente, mas depois de cruzar a linha de chegada do Ironman Brasil 2011 vi o quanto minha cabeça é forte quando eu determino algo. Até hoje, me pergunto se foi a determinação de um objetivo ou a minha perseverança.
15:11:42
Larguei com os nervos à flor da pele, mas foi só dar as primeiras braçadas que tudo se normalizou, mentalizei e concentrei na minha prova. Antes de chegar à 1ª bóia levei uma pancada no rosto e perdi uma lente de contato, seria melhor se tivesse perdido as duas, pois me desorientei totalmente. Eu saí da água na primeira volta onde a galera entrava novamente e da mesma forma na 2ª volta. Devido a uma enorme correnteza, saí nas pedras com o corpo de bombeiro. A essa altura, minha prova poderia ter se acabado, mas fui com tudo pra T1.
Antecipadamente, coloquei minha prova no papel com o meu treinador. O combinado era que por mais que eu estivesse bem, faria um ciclismo para sair pra correr inteira e não ter a dores de sempre. Mas quando vi o meu tempo da natação, resolvi mudar os planos. Porém, quando eu achava que as coisas não poderiam piorar, foi aí que veio a surpresa: Logo na saída do ciclismo, peguei uma parte de trepidação (ex special needs, chip dos 90k) minha suplementação (caramanholas de traz e todos os suplementos que estavam na bolsinha do clip) caiu toda, mas eu não a vi caindo, só me dei conta disso quando cheguei na rodovia e só me restou quatro géis que estavam no quadro da bike. E para completar o dia, com 20min de pedal comecei a sentir dores no joelho esquerdo e no pé direito, fato que nunca aconteceu comigo em 4 anos de triathlon.A posição da minha bike é perfeita mas com a trepidação alguma coisa se moveu fazendo eu sentir dores o pedal inteiro e essas foram comigo para a corrida.
Tudo bem! Cabeça boa? Vamos voltar ao início dos 180km…

Foto: arquivo pessoal da atleta
Logo quando a suplementação foi embora, o meu desespero e a raiva superou tudo e minha única reação foi parar descer da bike e desistir. Desistir? Pois é, fiquei uns dez minutos parada no acostamento pensando em um monte de besteiras, pois, para mim, naquele momento, minha prova tinha dado por visto! Mas de repente, me dei conta de que estava em um Ironman e em minha cabeça passou tudo que vivi até chegar ali, todas as conversas que tive com pessoas que sempre me motivaram, lembrei de cada treino, de cada conquista pessoal e esportiva, de coisas que sempre abdiquei por ser triatleta, de pessoas que sempre esteve comigo do início do triathlon ate hoje.
Se for falar em tudo que eu pensei: (rsrs). Enfim…
Parei, pensei, pensei muito e voltei! Voltei com a motivação de quem teria 4 géis nos 180km. Pensei nos “monstros” que fazem isso com apenas água, rapadura e olhe lá! Agora partiria pro plano B: TERMINAR A QUALQUER CUSTO. Desliguei um dos relógios e parti a fazer força e essa força me faria cruzar a linha de chegada e conhecer o verdadeiro espírito Ironman.
Desde 2010, essa foi a única vez que pensei em desistir. Na minha cabeça, naquele momento, minha prova tinha terminado, pois as coisas não saíram como eu queria e por alguns minutos tudo isso me fez pensar o que é ser um Ironman.
Quando comecei a pedalar a primeira volta foi muito boa devido a minha raiva e notei que eu não estava tão mau. Mas quando abri a 2ª volta o sofrimento começou, eu estava completamente desidratada, as dores estavam maiores e surgiu um vento descomunal. Continuei a 2ª volta com a suplementação que tinha: gel, água, Gatorade e Coca-Cola (specialneeds), mas, pra piorar a situação, o 3º gel não caiu bem, coloquei tudo pra fora duas vezes seguidas, então só consegui beber água até finalizar o 180 km.
Já a os 42 km de corrida, como sempre, foram muito sofrido pra mim. Logo no início, consegui me adaptar com as dores e correr até o km 25, fazendo o esquema da Canasvieiras (subida e descida) caminhando. Quanto à suplementação, não preciso nem dizer não é? Não descia nada e então foram os 42 km com água, sal e coca-cola. Quando abri a ultima volta foi realmente pra testar meu físico e mental e ver até quando suportaria tanto desconforto, pois estava um frio de bater queixo, musculatura pedindo pra parar, meu joelho estava inchado e assim queria trotar, mas só consegui por no máximo 20 segundos. O meu conforto foi que quando eu estava na ultima volta, alguns amigos foram ao meu encontro faltando uns 5 km, uns com a medalha no peito, outros só prestigiando e isso foi me levando, porém o maior desespero era ver que faltava 2km e não conseguia correr. Enfim.. Ironwoman two times!
Fiz essa prova por mim, com a consciência super tranquila de que treinei o suficiente e tudo que aconteceu não dependeu de mim, mas tive que saber como lidar com toda a situação.

Foto: Wagner Araújo
Fiz a prova por todos que torceram presentes e aos que torceram ausentes. Afirmo que não estou radiante de felicidade pela prova, mas satisfeita pelo simples fato de viver a superação do Ironman. Em 2010, não tinha treinado o suficiente e não poderia me cobrar, esse ano poderia me cobrar bastante, mas tudo fugiu do meu controle e tive que encarar a realidade “com sangue nos olhos” para poder cruzar a linha de chegada.
Agradecimentos:
A todos que fizeram isso acontecer tanto de perto, quanto de longe.
Ao MundoTRI, em especial ao Wagner, a pessoa no qual tínhamos contato até chegar em Floripa e conhecer o restante do pessoal que foi SHOW. Esse diário foi uma experiência única, uma terapia. Já me escalo rumo a IRONMAN BRASIL 2012 (rsrsrs)
À minha família e amigos, por todo carinho e apoio durante 5 meses de jornada, pelas infinitas ligações e mensagens que recebi antes e depois. Não consegui atender todas em função da minha tensão e nervosismo, preferi me isolar. Mas meu muito obrigado de coração!
A todos os triatletas e a todos que prestigiaram o evento. Agradeço por toda a força que recebi durante a prova. Foi impressionante a magia dessa prova e a cada ano me surpreendo mais com pessoas que sequer conheço, com palavras de incentivo, correndo junto e acompanhando. Um carro chegou a parar do meu lado durante a corrida e pessoas que eu não conhecia desceram e começaram a me dar força.. Isso não tem preço!
Parabenizar a todos que se tornaram um IRONMAN.
Agradeço à minha equipe Zonaalvo Assessoria, triatletas que conheci por lá.
Parabéns às minhas companheiras de diário, Ariane Monticeli e Aninha Oliva que fizeram uma BELISSÍMA PROVA! Simpatia, simplicidade, dedicação e garra são sinônimos dessas pequenas meninas, mas grandes mulheres de ferro. E também a uma grande guerreira chamada Ana Lídia, a sua superação foi sem limites, a considero cabeça chata de coração, ela é querida e sempre muito bem-vinda em Fortaleza! Ao Guilherme Manochio , uma palavra resume: SENSACIONAL! Orgulho de ser triatleta brasileira a um milhão!
Se foi pra terminar então a missão estar cumprida! Próximos objetivos esse ano ainda serão pensados, enquanto isso eu estou em fase de recuperação. Voltei a nadar e pedalar bem leve, mas a corrida ainda é dor, dor e muita dor.
Enfim, é isso leitores!
Cada prova tem o seu momento, sua forma especial de acontecer e essa com certeza não foi diferente: Foi inesquecível!
Foi um enorme prazer compartilhar tudo isso com vocês!
Quem sabe nos veremos no Ironman Brasil 2012…
Bons Treinos!
Beijos
Carol Militão





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