Em quais provas focar para chegar a Londres 2012?
No mês passado, mostramos como funciona o ranking olímpico para Londres 2012. Hoje vamos falar um pouco da situação dos atletas brasileiros, que enfrentam um dilema para angariar pontos para o ranking olímpico. Por um lado, os eventos de Nível I e II somam mais pontos, mas é extremamente difícil terminá-los em uma boa colocação. Por outro lado, os eventos de Nível III e IV dão menos pontos, mas é onde, normalmente, se consegue uma colocação melhor.

Foto: triathlon.org
E qual dos dois compensa mais? Vamos considerar o brasileiro mais bem colocado na última simulação olímpica, Reinaldo Colucci. Reinaldo estaria com a 17ª vaga, sendo a 14ª no Ranking Olímpico da ITU.
Eventos disputado por Reinaldo Colucci:
> WCS London 2010 - Nível II - 90 obtidos
> WCS Kitzbuhel 2010 Nível II 213 obtidos
> Copa do Mundo Holten 2010 Nível III 248 obtidos
> Copa do Mundo Tiszaujvaros 2010 Nível III 500 obtidos
> Copa do Mundo Huatulco 2010 Nível III 396 obtidos
Como pode-se observar, o atleta conquistou a maioria de seus pontos em Copas do Mundo e não na Série do Campeonato Mundial. Conforme o próprio atleta explicou, “É melhor brigar por boas colocações em Copas do Mundo do que somar 30 ou 50 pontos em uma WCS. Acredito que o caminho para a segunda vaga brasileira está aí.”
E o que pensa a Confederação Brasileira de Triathlon (CBTri)? No último dia 10 de fevereiro, a entidade publicou o “Regulamento das Equipes de Alto Rendimento da Confede-ração Brasileira de Triathlon.
No documento, fica restringinda a participação de apenas dois membros da seleção permanente nos eventos de Nível II, mas será fornecido apoio para 5 desses eventos.

Foto: triathlon.org
Em compensação, teremos delegação brasileira em apenas 4 Copas do Mundo, muitas delas com apenas 1 vaga para a Seleção Permanente. Ainda no mesmo Regulamento, o calendário oficial da CBtri contempla os Jogos Mundiais Militares, que não possuem nenhuma relação com os Jogos Olímpicos 2012, que deveria ser a total prioridade de seus Dirigentes, parte deles, por coincidência, militares.
Assim como já aconteceu em outras Olimpíadas, alguns atletas, mesmo com ótimas condições de classificação, acabam dependendo de seus próprios recursos.
A CBTri alterou as regras, sem aviso, e levou 3 atletas de cada gênero para a WCS de Sydney, nos dias 9 e 10 de abril, o que foi um fato muito positivo. O problema, no entanto, são os novos critérios para a formação da equipe olímpica, formalizados pelo ” CRITÉRIOS DE FORMAÇÃO DA EQUIPE BRASILEIRA DE TRIATHLON PARA OS JOGOS OLÍMPICOS DE LONDRES 2012“, publicado no site da CBTri.
Segundo os critérios, as vagas não são mais dos atletas que a conquistaram, mas sim da Confederação, que as distribuirá conforme algumas regras polêmicas. Há duas opções, a classificação DIRETA e a INDIRETA.
No caso da DIRETA, o regulamento diz:
“Estão automaticamente classificados para compor a equipe brasileira os atletas que obtiverem os seguintes resultados em ordem de prioridade:
1°) Top 10 na WCS Londres 2011;
2°) Top 8 na WCS Grand Final Pequim 2011;
3°) Top 5 em qualquer WCS 2011 e/ou WCS 2012 (até a última WCS válida para o Ranking Olímpico);
4°) Vencedor dos Jogos Panamericanos de 2011;
5°) Vencedor do Campeonato Panamericano de 2012;
Obs.: 1) No caso de mais de um atleta obter a classificação por qualquer um dos critérios diretos, estará classificado o atleta com o melhor resultado na competição correspondente.
2) Os critérios não são acumulativos, ou seja, caso as vagas sejam preenchidas pelos primeiros critérios, os demais critérios não se aplicam.
3) O vencedor dos Jogos Panamericanos de 2011, em Puerto Vallarta, assegura a vaga para o Brasil, mas ele só terá direito a vaga caso os três critérios anteriores não tenham completado as vagas.
4) Para a aplicação do Critério Nr 3, no caso de mais de um atleta obter, em competições diferentes, a classificação, ocupará a vaga o atleta que obtiver o resultado na WCS de maior nível técnico, traduzida pelo número de atletas Top 20 do Ranking WCS presente na competição.”
No que se refere à classificação INDIRETA, o documento diz:
“CRITÉRIOS INDIRETOS: As vagas que não forem preenchidas através do critério direto, serão atribuídas aos atletas melhores posicionados na ordem crescente do Ranking Olímpico.”
O problema desse sistema é que um atleta pode estar durante todo o período de classificação entre primeiros do ranking olímpico, gastar recursos e energia para ganhar uma vaga para o país e, mesmo assim, não competir em Londres. Em contraposição, um atleta mediano pode contribuir pouco para conquistar a vaga, mas entrar em um dos critérios Diretos. Claro que os critérios Diretos são dificílimos, apenas um ou dois atletas brasileiros tem possibilidades reais de atingí-los. O que nos incomoda, no entanto, é a prova do Campeonato Pan-americano 2012. Primeiro, porque é um critério muito distinto dos demais. Segundo, porque é uma prova em uma data muito ruim, logo no início do ano (isso pode comprometer toda a periodização para as próprias Olimpíadas). Terceiro, isso pode gerar a perda da segunda vaga brasileira, tanto no masculino quanto no feminino.

Foto: triathlon.org
Imagine que o Brasil tenha dois atletas entre as 55 vagas para o masculino, por exemplo, em outubro de 2011. No entanto, nenhum dos dois conseguiu a classificação por critério direto. Eles podem continuar pontuando e garantir a vaga, ou podem focar para disputar o Pan-americano em 2012. Se brigam pelos pontos, correm o risco de perder a vaga para um atleta vencedor no Pan-americano, que pode se esforçar bem menos para ajudar a conquistar a vaga olímpica. Na verdade, o comportamento racional para os que não estão na lista das 55 vagas até o Pan-americano é exatamente esse: apostar todas as fichas no Pan-americano (lembrando que em 2012 não são Jogos Pan-americanos propriamente ditos, mas apenas uma prova como uma Continental Cup). A ironia da história é que os dois atletas que estavam na lista correm o risco de ficar de fora neste exemplo, pois se deixarem de brigar pelos pontos e focarem no Pan-americano, existe a possibilidade do Brasil perder a 2ª vaga. Se nenhum dos dois vencer a competição, e outro brasileiro o fizer, perdem a vaga.
Entendemos que os critérios da CBTri não são justos com os atletas que venham a se dedicar durante todo o ano para angariar pontos. Isso poderia ser resolvido facilmente mantendo o critério sempre utilizado pela maioria dos países: “quem consegue a vaga, fica com ela.” Vale lembrar que, em pequim 2008, a federação americana tentou uma estratégia semelhante, com um evento classificatório, e deixou de fora grandes triatletas, como Andy Potts. No final das contas, a equipe americana teve sua pior participação nos Jogos Olímpicos.





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