Igor Amorelli e Sandra Soldan vencem Pan de Longa Distância, uma prova marcada pelo descaso
Crônica de uma morte anunciada. Assim podemos definir o Campeonato Pan-americano de Triathlon de Longa Distância, realizado hoje em Porto de Galinhas, Pernambuco.
Há vários dias, uma discussão em nosso Twitter já mostrava os riscos da prova no local. A estrada, único acesso a Porto de Galinhas, não poderia ser fechada no domingo, dia de maior movimento na região. Restava a alternativa de se pedalar na recém-inaugurada ciclovia, com pouco mais de um metro de largura. Além disso, o local escolhido para natação é uma área inóspita, inclusive com várias placas alertando o perigo de se nadar graças à correnteza. O mesmo alerta foi feito pela Associação dos Triatletas de Pernambuco.

Prova foi marcada por descaso com os atletas
Enquanto isso, a CBTri (Confederação Brasileira de Triathlon) não colocava nenhuma informação referente ao percurso no site. Diante de tantas dúvida, o MundoTRI enviou diversos e-mails solicitando esclarecimentos, nenhum deles com resposta. Mesmo quando nossa equipe chegou a Porto de Galinhas, continuamos sem respostas, até o Congresso Técnico. Aí começaram as surpresas.
Primeiro, foi anunciado que a prova seria reduzida para a distância de 2,2/60/15 (a original era 3/80/20). Foi alegado que, devido às condições da rodovia, não seria possível fazer o percurso maior do que 10km. Ora, com tantos meses para se pensar isso, era realmente necessário avisar os atletas somente na véspera da prova? O que falar da periodização, dos treinos específicos, de toda a frustração de quem treinou para distância original? Não satisfeitos, os organizadores ainda anunciaram que 35% do percurso do ciclismo de 6 voltas de 10km seria realizado em paralelepípedos. Mais uma vez, ignoraram todos aqueles que se esforçam para comprar uma boa bike e um bom par de rodas. A partir desse momento, ficou claro que a preocupação não era os atletas. Os atletas foram avisados que a prova seria às 05:00 e não às 07:00, pelo menos uma mudança positiva, já que o sol nasce 4:45e às 06:00 já está muito calor.
Às 4:45, os atletas se alinharam para a largada em uma pra sem nenhuma condição para tanto. Conversando com os salva-vidas da região, todos foram unânimes em afirmar que não era um bom local para a natação. Com muita arrebentação e correntes fortes (já indicadas nas placas por toda a praia), vários atletas não conseguiram sequer entrar no mar, e muitos outros tentavam entrar e eram arremessados de volta. Mesmo os atletas da elite tiveram muita dificuldade com a água, um verdadeiro absurdo. Isso prejudicou o controle de voltas, já que muitos atletas, exaustos, acabaram saindo antes de completar o percurso. No dia anterior, o delegado técnico da prova, Rodrigo Millazo, afirmou durante o Congresso Técnico: “A natação aqui não é perigosa, é difícil.” Isso, provavelmente, porque ele não teria que nadar no domingo.

Área inadequada para a natação
Saindo para a transição, os atletas percorreram uma rua de paralelepípedos, com montes de areia e pedras. Para chegar à T1, os atletas tinham que cruzar o percurso do ciclismo, onde também trafegavam veículos. Enquanto os profissionais já terminavam a primeira volta de bike, muitos amadores saíam da água, gerando uma confusão generalizada.
O ciclismo foi marcado por um percurso perigoso, com os ciclistas dividindo espaços com carros em um trecho SEM ACOSTAMENTO. Em várias situações, os ciclistas se viam entre dois automóveis, um de cada lado. Quem assistia à prova, começou a entrar em desespero com o risco de um acidente eminente. Os atletas ainda enfrentavam outra dificuldade: em um dos retornos não havia água para hidratação. Diante desses problemas, a falta de controle de vácuo, um problema sério em uma prova de longa distância em condições normais, se tornou irrelevante, assim como o controle de voltas dos atletas. Tivemos ainda atletas que não nadaram, mas começaram o pedal, já que a organização não tinha o controle de quem nadou ou não.

Manocchio pedalando entre os carros
Seja por sorte, seja pela força de todos que estavam assistindo e ajudando, nada grave aconteceu. Nossa equipe, inclusive, parou em certo momento transmissão no MundoTRI Live para auxiliar os guardas no trânsito, afinal nossa vasta experiência em cobertura de provas valia muito nessa hora. E, por falar em cobertura, essa foi a prova mais desorganizada que já cobrimos na história do Portal.
A corrida, realizada na ciclovia, foi bem mais tranqüila e aí tudo começou a parecer uma prova de Triathlon de verdade. Só então todos começaram a entender o que aconteceu com os atletas da elite na prova.
Igor Amorelli e Chicão saíram bem á frente na água, abrindo mais de 2 minutos sobre Manocchio e Antônio Marcos, com Brasil mais um minuto atrás. No pedal, Igor e Chicão fizeram um bom trabalho na bike conseguiram abrir ainda mais. Na corrida, Igor Amorelli já saiu muito forte, garantindo a vantagem para vencer logo nos primeiros quilômetros de corrida. Chicão terminou em segundo, com Manocchio em terceiro, o lendário Antônio Marcos em quarto e José Roberto Brasil em quinto.
Entre as mulheres, Sandra Soldan liderou de ponta a ponta para vencer, com Susana Festner em segundo, Jéssica Nathália em terceiro, Bruna Mahn em quarto e a argentina Sara Marí em quinto.
Ao final da prova, a impressão de quem assistia foi exatamente essa: os problemas ofuscaram a performance dos atletas, que lutaram bravamente contra as condições adversas. Muitos mencionaram que se arrependeram de fazer a prova em Pirassununga para ir a Porto de Galinhas, e vários seguidores do MundoTRI agradeceram por terem sido alertados antes de viajar. Para terminar, na premiação, vários atletas que não nadaram, mas pedalaram e correram tiveram seu tempo computado no resultado final, gerando ainda mais confusão.
Cabe aos organizadores assumir seus erros e refletir se não seria mais interessante receber contribuições de atletas e da mídia antes da prova. Enquanto os triatletas federados crescem em todo mundo, no Brasil, esse número só diminui. Não temos dúvidas de que, muitos dos que largaram hoje não farão mais provas oficiais.
Mais do que um descaso com os atletas e com a imprensa, foi um descaso com amigos, familiares, autoridades,moradores da região e patrocinadores, que tiveram sua marca associada a um evento com tantos problemas. Estamos preparando um manifesto, que estará disponível nos próximos dias, e vamos convidar a todos a endossá-lo. Acreditamos que o papel da mídia é não omitir nenhuma informação, tudo que foi falado aqui foi dito aos organizadores, antes do evento, mas tudo foi ignorado e relevado. Se quisermos fazer o Triathlon brasileiro crescer, precisamos ter consciência de onde podemos trabalhar para evoluir. Se fecharmos nossos ouvidos, vamos conseguir apenas cavar a sepultura das provas oficiais brasileiras, afinal o que explica um Campeonato Pan-americano com pouco mais de 200 pessoas e um Ironman com mais de 1.800?





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