Opinião: Elite x Profissional X Amador – por Ana Lídia Borba e Ciro Violin

21/10/2010 por Enviar por e-mail Imprimir
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Tritar Rio de Janeiro

Ana Lídia Borba

De tempos em tempos, vejo certa surpresa no rosto de pessoas que, ao me perguntarem a minha profissão, ouvem a resposta: “triatleta profissional”. Aconteceu, inclusive, com um famoso fisioterapeuta de Campinas, que me passou a clara impressão de que profissionais do esporte são apenas os jogadores de futebol, vôlei e basquete. Nessas situações e em algumas outras, me pergunto: o que é ser atleta profissional? E o que é ser amador?

Como o nome revela, atleta amador é aquele que treina e compete por amor ao esporte, com objetivos recreativos e/ou de melhoria da qualidade de vida, sem necessariamente conotação competitiva, mas, principalmente, sem motivação financeira – por definição, aliás, ele não pode receber qualquer forma de remuneração ou incentivos materiais.

Na Lei Geral Sobre Desporto existe também uma definição para atleta não-profissional, que é aquele que pratica qualquer modalidade desportiva, mantendo ou não contrato de recebimento de incentivos materiais e/ou de patrocínio, desde que não haja contrato de trabalho entre as partes (art. 3º, parágrafo único, II, da LGSD).

Elite, de maneira geral, se refere à nata de um determinado grupo, aos melhores em alguma coisa; logo, atletas de elite são os melhores nos esportes que praticam, independente do recebimento de incentivos materiais ou dinheiro.

Por fim, atleta profissional é aquele cuja atividade caracteriza-se pelo recebimento de remuneração pactuada em contrato formal de trabalho firmado com entidade de prática desportiva, pessoa jurídica de direito privado.

DSC 0039 2 Opinião: Elite x Profissional X Amador   por Ana Lídia Borba e Ciro Violin

Há diferenças sutis entre os conceitos

Definidos os conceitos básicos, percebemos que no Brasil há pouquíssimos triatletas profissionais – arrisco-me a dizer que apenas uma equipe no país, além das Forças Armadas, tem atletas com carteira de trabalho assinada, como previsto em Lei. A grande maioria de nós é, na verdade, atleta de elite que compete com o rótulo de atleta profissional e, através da conquista de resultados expressivos, consegue incentivos financeiros na forma de patrocínios mensais, premiações e bônus sobre metas ou retorno de imagem.

Para competir como Elite ou Profissional, normalmente, é necessária a comprovação de resultados (caso dos Estados Unidos, que emite uma licença de trabalho) ou uma indicação da federação regional/nacional, uma vez que é difícil o estabelecimento de índices técnicos em um esporte que depende de condições de percurso, clima etc. O problema é que este critério é subjetivo, e isso pode gerar confusão e algumas injustiças.

Algumas pessoas confundem as coisas e acham que para ser profissional o atleta tem que viver exclusivamente de treinos e provas, e por isso não se arriscam a competir na Elite. Muitos têm até o discurso: “atleta amador tem que conciliar treinos, trabalho, família…”. Mas já pensaram na vida que nós, “profissionais”, levamos?

Para começar, todo mundo tem família. Umas apóiam o esporte, outras não, e é tão mais difícil conseguir apoio quanto maior for o tempo dedicado a outras causas – no caso, os treinos e competições. Integrar a família ao esporte e conseguir seu apoio é uma tarefa diária não só de atletas amadores, mas também dos profissionais.

Quanto ao trabalho, claro que o ideal seria comer, treinar, descansar, comer, treinar, dormir e repetir tudo de novo. Treinar tanto quanto os profissionais internacionais não é difícil; recuperar-se para treinar forte quase todos os dias e ainda estar fisicamente preparado para evitar lesões, sim. Mas, no Brasil, é difícil manter-se apenas com patrocínios e premiações e, mesmo quando possível, a renda não costuma ser suficiente para fazer o famoso “pé de meia”. Por isso, atletas “profissionais” de modalidades como o triathlon, quando têm juízo, têm também outra ocupação que lhes garanta uma renda no futuro: cursam uma faculdade, têm um emprego ou, muitas vezes, abrem assessorias esportivas para aproveitar o maior ágio que o esporte profissional lhes oferece: seu nome. Ou seja: se não é a situação ideal, também não é incomum que os nossos profissionais sejam profissionais de mais de uma coisa.

DSC 0008 Opinião: Elite x Profissional X Amador   por Ana Lídia Borba e Ciro Violin

Você está em qual lado?

Talvez a injustiça mais comum gerada pela subjetividade das regras são os atletas que treinam em período praticamente integral, mas alternam entre Profissional e Amador de acordo com seus interesses. Neste ponto, gosto da regra da WTC, empresa proprietária da marca Ironman: se é Profissional, é sempre Profissional – o atleta não pode ganhar dinheiro em uma prova regional e depois ganhar “nome” numa prova maior, competindo como Amador. A escolha é individual, mas não pode mudar toda hora: para deixar de ser Profissional o atleta tem que ficar um ano sem competir. Além disso, como Profissional, o atleta, obrigatoriamente, está sujeito à realização de exames antidoping e a um controle mais rígido no tangente às regras de competição (caso do vácuo), fatos que tornam a disputa mais transparente e inibem a entrada de competidores desleais.

Claro que cada atleta tem todo o direito de decidir onde e contra quem quer medir forças, principalmente se está pagando as despesas do próprio bolso. Mas não acho correto que atletas se disfarcem de Amadores para lucrar com o retorno de mídia, nem como Profissionais para ganhar dinheiro de premiação em provas pouco concorridas. Principalmente, não concordo com atletas que usam a desculpa de terem outro trabalho para fugir das disputas da Elite, e me espelho em pessoas que fazem de tudo – e tudo muito bem feito. E é por isso que, independente do resultado que poderia conseguir, largarei no GP Internacional de Triathlon na categoria Elite: porque é contra estes Atletas Profissionais que eu quero voltar a competir, e não são quinhentos reais ou um capacete aero que vão me fazer mudar de idéia.

Ana Lídia Borba é atleta Asics, com apoio de Aqua Sphere, Pacific Health, Clínica 449, Velotech e Cia Athletica. RM Elite Team. triborba.blogspot.com

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