Opinião: Elite x Profissional X Amador – por Ana Lídia Borba e Ciro Violin
Ana Lídia Borba
De tempos em tempos, vejo certa surpresa no rosto de pessoas que, ao me perguntarem a minha profissão, ouvem a resposta: “triatleta profissional”. Aconteceu, inclusive, com um famoso fisioterapeuta de Campinas, que me passou a clara impressão de que profissionais do esporte são apenas os jogadores de futebol, vôlei e basquete. Nessas situações e em algumas outras, me pergunto: o que é ser atleta profissional? E o que é ser amador?
Como o nome revela, atleta amador é aquele que treina e compete por amor ao esporte, com objetivos recreativos e/ou de melhoria da qualidade de vida, sem necessariamente conotação competitiva, mas, principalmente, sem motivação financeira – por definição, aliás, ele não pode receber qualquer forma de remuneração ou incentivos materiais.
Na Lei Geral Sobre Desporto existe também uma definição para atleta não-profissional, que é aquele que pratica qualquer modalidade desportiva, mantendo ou não contrato de recebimento de incentivos materiais e/ou de patrocínio, desde que não haja contrato de trabalho entre as partes (art. 3º, parágrafo único, II, da LGSD).
Elite, de maneira geral, se refere à nata de um determinado grupo, aos melhores em alguma coisa; logo, atletas de elite são os melhores nos esportes que praticam, independente do recebimento de incentivos materiais ou dinheiro.
Por fim, atleta profissional é aquele cuja atividade caracteriza-se pelo recebimento de remuneração pactuada em contrato formal de trabalho firmado com entidade de prática desportiva, pessoa jurídica de direito privado.

Há diferenças sutis entre os conceitos
Definidos os conceitos básicos, percebemos que no Brasil há pouquíssimos triatletas profissionais – arrisco-me a dizer que apenas uma equipe no país, além das Forças Armadas, tem atletas com carteira de trabalho assinada, como previsto em Lei. A grande maioria de nós é, na verdade, atleta de elite que compete com o rótulo de atleta profissional e, através da conquista de resultados expressivos, consegue incentivos financeiros na forma de patrocínios mensais, premiações e bônus sobre metas ou retorno de imagem.
Para competir como Elite ou Profissional, normalmente, é necessária a comprovação de resultados (caso dos Estados Unidos, que emite uma licença de trabalho) ou uma indicação da federação regional/nacional, uma vez que é difícil o estabelecimento de índices técnicos em um esporte que depende de condições de percurso, clima etc. O problema é que este critério é subjetivo, e isso pode gerar confusão e algumas injustiças.
Algumas pessoas confundem as coisas e acham que para ser profissional o atleta tem que viver exclusivamente de treinos e provas, e por isso não se arriscam a competir na Elite. Muitos têm até o discurso: “atleta amador tem que conciliar treinos, trabalho, família…”. Mas já pensaram na vida que nós, “profissionais”, levamos?
Para começar, todo mundo tem família. Umas apóiam o esporte, outras não, e é tão mais difícil conseguir apoio quanto maior for o tempo dedicado a outras causas – no caso, os treinos e competições. Integrar a família ao esporte e conseguir seu apoio é uma tarefa diária não só de atletas amadores, mas também dos profissionais.
Quanto ao trabalho, claro que o ideal seria comer, treinar, descansar, comer, treinar, dormir e repetir tudo de novo. Treinar tanto quanto os profissionais internacionais não é difícil; recuperar-se para treinar forte quase todos os dias e ainda estar fisicamente preparado para evitar lesões, sim. Mas, no Brasil, é difícil manter-se apenas com patrocínios e premiações e, mesmo quando possível, a renda não costuma ser suficiente para fazer o famoso “pé de meia”. Por isso, atletas “profissionais” de modalidades como o triathlon, quando têm juízo, têm também outra ocupação que lhes garanta uma renda no futuro: cursam uma faculdade, têm um emprego ou, muitas vezes, abrem assessorias esportivas para aproveitar o maior ágio que o esporte profissional lhes oferece: seu nome. Ou seja: se não é a situação ideal, também não é incomum que os nossos profissionais sejam profissionais de mais de uma coisa.

Você está em qual lado?
Talvez a injustiça mais comum gerada pela subjetividade das regras são os atletas que treinam em período praticamente integral, mas alternam entre Profissional e Amador de acordo com seus interesses. Neste ponto, gosto da regra da WTC, empresa proprietária da marca Ironman: se é Profissional, é sempre Profissional – o atleta não pode ganhar dinheiro em uma prova regional e depois ganhar “nome” numa prova maior, competindo como Amador. A escolha é individual, mas não pode mudar toda hora: para deixar de ser Profissional o atleta tem que ficar um ano sem competir. Além disso, como Profissional, o atleta, obrigatoriamente, está sujeito à realização de exames antidoping e a um controle mais rígido no tangente às regras de competição (caso do vácuo), fatos que tornam a disputa mais transparente e inibem a entrada de competidores desleais.
Claro que cada atleta tem todo o direito de decidir onde e contra quem quer medir forças, principalmente se está pagando as despesas do próprio bolso. Mas não acho correto que atletas se disfarcem de Amadores para lucrar com o retorno de mídia, nem como Profissionais para ganhar dinheiro de premiação em provas pouco concorridas. Principalmente, não concordo com atletas que usam a desculpa de terem outro trabalho para fugir das disputas da Elite, e me espelho em pessoas que fazem de tudo – e tudo muito bem feito. E é por isso que, independente do resultado que poderia conseguir, largarei no GP Internacional de Triathlon na categoria Elite: porque é contra estes Atletas Profissionais que eu quero voltar a competir, e não são quinhentos reais ou um capacete aero que vão me fazer mudar de idéia.
Ana Lídia Borba é atleta Asics, com apoio de Aqua Sphere, Pacific Health, Clínica 449, Velotech e Cia Athletica. RM Elite Team. triborba.blogspot.com
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