Entrevista com Ciro Violin, o brasileiro campeão no Ironman do Havaí

15/10/2010 por Enviar por e-mail Imprimir
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Tritar Rio de Janeiro

MundoTRI: Como foi a preparação para o Ironman em Kona? Alguma rotina ou mudança específica para a prova?

Ciro Violin: Minha preparação foi muito boa. Eu realizei treinos ótimos, como na natação, por exemplo, onde fiz 30 dias de séries de 200m. Fiz também muitos longos de bike, passando até 10 horas em cima da bicicleta (280 km), e na corrida cheguei a fazer três treinos de 42 km. Apenas tive problemas nos últimos 15 dias, com várias recaídas e começos de febre, onde tive que tomar alguns anti-inflamatórios para voltar ao estado normal.

DSC 0381 2 Entrevista com Ciro Violin, o brasileiro campeão no Ironman do Havaí

Ciro e Luíza Tobar, os dois pódios brasileiros no Havaí

MundoTRI: Muitos atletas sofrem com o calor e a umidade do Havaí. De que forma você desenvolveu sua ambientação? Fez algum trabalho no Brasil também?

Ciro Violin: Não fiz nada específico, nem em 2009. Apenas me adaptei melhor do que imaginava. Eu acho que apenas tenho sorte de viver em um clima não tão úmido, mas quente em boa parte do ano, acho que isso me ajudou bastante. Uma coisa que fiz certo foi beber litros e litros de água e Gatorade na semana da prova, o que me manteve bem hidratado.

MundoTRI: Ciro, Na semana da prova, ao contrário da maioria dos atletas, você se manteve bastante ativo, fazendo 2 ou 3 treinos por dia. Acha que isso influenciou positivamente seu resultado?

Ciro Violin: Essa é uma questão bem interessante. Até o ano de 2002, eu parava de treinar na quinta-feira, 3 dias antes do evento – para descansar. Não consegui realizar nenhuma boa prova, e sempre me sentia o pior triatleta do mundo, pois demorava a me ativar depois da largada e chegava morto no final. Eu aprendi a treinar até o último dia, antes de uma prova com o Cali, em uma de nossas idas para o SESC Caiobá. Lembro de treinar ritmado, sem me matar, na sexta e no sábado, e no domingo voei no short. Nunca mais parei de fazer isso. E de lá pra cá só tenho evoluído mais ainda nessa percepção do esforço para saber como estou durante a semana anterior. No Havaí treinei moderadamente, mas treinei, mantendo meu corpo ativo até o último dia. Apenas tive um problema que raramente tenho. Tive um princípio de febre na quinta-feira, mas que foi resolvido. Atribuo este problema a uma condição diferente, pois estava 2 kg mais magro.

MundoTRI: Conte-nos um pouco sobre a prova, quais eram suas programações para o ritmo na natação, bike e corrida?

Ciro Violin: Fiz uma prova igualzinha a do ano passado. Igualzinha. Mas como eu estava mais treinado, e mais experiente, além do clima estar mais ameno e não ventar nos últimos 40 km do ciclismo, acabei abaixando o tempo final e, consequentemente, minha colocação. Um método que adotei na maratona foi de diminuir o ritmo quando me sentia muito bem. Fiz isso para não me empolgar e começar a correr abaixo de 4’ por km, o que quase aconteceu inúmeras vezes e, no acúmulo da prova, teria um preço alto.

MundoTRI: Outro ponto muito sensível em Kona é a alimentação, ponto no qual parece não ter tido problema algum. Como foi sua alimentação durante a prova? Havia treinado ela antes?

Ciro Violin: Desde meu primeiro Ironman, aqui no Brasil em 2009, eu sempre adotei treinar com apenas o que a organização da prova me ofereceria no dia: água, refrigerante de cola, isotônico, e gel de carboidratos. E foi isso que fiz em meus quatro Ironmans. Apenas consumi isso. Nada sólido e, na soma total, 14 gels de carboidratos. Um problema que tive durante a prova, foi me perder na conta algumas vezes, pois as metragens estão em milhas, e não em kms, mas o problema sempre era resolvido olhando no relógio, sempre me baseando no tempo e intensidade (BPM) da atividade.

MundoTRI: Ciro, Você já esperava a vitória na 30-34 ou tinha outra expectativa?

Ciro Violin: Agora eu posso falar que sim. Eu entrei na água no sábado para dar o máximo de mim e tentar ao extremo ganhar minha categoria. Fiz uma natação apenas me defendendo no final do bloco, fiz uma bike me defendendo sempre no final dos grupos, e corri com medo, respeitando a maratona até o km 30, de lá, até a chegada eu soltei o freio e vim forte, vim pra valer.

MundoTRI: Algum momento de dificuldade durante o Ironman que o fez pensar que não seria possível estar no pódio? Como lidou com isso?

Ciro Violin: Não tive grandes problemas nem na natação, nem no ciclismo, apenas faltando uns 30 km para chegar em Kona, voltando de Hawi, bateu uma rajada de vento que levou embora meu kit de troca de pneu furado e ferramentas. Vim “conversando” com minha bike para que ela não me deixasse na mão naqueles últimos 30 km. Na maratona sofri muito nos kms 18, 26 e 36. Eu fui para o fundo do poço, com muita dor na canela, e no joelho direito (dor a qual nunca havia sentido). Meu controle emocional foi baseado em dizer a mim mesmo para que eu não afundasse naqueles momentos, pois fiz tanta coisa, tantos treinos, tanta dedicação. Deixei de fazer tanta coisa que gosto para esta ali, que não podia me entregar como estava me entregando. Conversava, me xingava e me via me dando um chute da bunda para “voltar” a fazer força.

DSC 0958 Entrevista com Ciro Violin, o brasileiro campeão no Ironman do Havaí

A chegada de Ciro

MundoTRI: Ciro, você não foi tão bem no Ironman Brasil quanto no Mundial, o que diferenciou as duas provas?

Ciro Violin: Eu estava muito bem no Ironman Brasil. Estava feliz e andando na bike como nunca até o km 45 quando furou o primeiro pneu. Fiz uma troca rápida, mas 6 km depois furou de novo. Eu fiquei desesperado, e depois de quase 25min de parada fui voltando e voltando, e voltando para dentro da competição. Minhas metas eram abaixar meu tempo e conseguir a vaga para o Havaí. Eu consegui uma das metas, então tive que ficar feliz no final. Mas não engoli os pneus furados. Eu fui para Kona com um pouco de raiva e descontei tudo nessa prova. O Iron Brasil estava engasgado, e o Iron Havaí veio para fazê-lo descer garganta abaixo.

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