Opinião: o vácuo no Triathlon – Ana Lídia Borba

30/09/2010 por Enviar por e-mail Imprimir
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Tritar Rio de Janeiro

Já virou rotina vermos atletas reclamando da presença de pelotões ou justificando um cartão considerado injusto após uma prova de triathlon de longa distância ou sem vácuo liberado. Recentemente, tivemos até mesmo um caso (em nada inédito) de atletas reclamando do vácuo em uma prova em que este era liberado! Explico: o vácuo entre atletas de sexo oposto, mesmo nas provas com vácuo, é proibido, mas é comum que algumas atletas do sexo feminino aproveitem-se de pelotões masculinos para buscar ou escapar de suas concorrentes, assim como não é raro que atletas amadores homens se aproveitem do vácuo de mulheres da elite em provas de longa distância.

Vários exemplos vêm à mente quando falamos de provas que tiveram resultados influenciados pela atitude antiética de pseudo-atletas que não respeitam as regras. No maior circuito de triathlon do país, aconteceu em agosto uma prova que mais parecia uma prova da ITU, com um pelotão de 10 atletas masculinos andando a 5m de distância um do outro, quando a regra estabelecia a distância mínima de 15m. No mundial de Ironman 70.3 2009, a elite masculina largou cinco minutos atrás da elite feminina e os primeiros pelotões que passaram “carregaram” algumas atletas, definindo a disputa. Nessa mesma prova, ano após ano, é comum vermos atletas amadores(as) fazendo tempos de ciclismo melhores que os tempos da elite e ainda saindo para correr inteiros, mas até mesmo a torcida fica indignada quando vê pelotões de 60 a 120 atletas passando em direção à área de transição, e ouvem-se gritos de “this is triathlon, not Tour de France!” (isto é triathlon, não Tour de France). E será que Craig Alexander teria sido bicampeão mundial de Ironman no último ano se ele não tivesse pedalado em meio a uma fila de triatletas que, trabalhando juntos, impossibilitou que a vantagem de Chris Lieto se tornasse inalcançável na corrida?

DSC 0364 Opinião: o vácuo no Triathlon   Ana Lídia Borba

O vácuo sempre gera polêmica no triathlon, seja ele legal ou não

A briga se tornou tão comum que muitos já se perguntam se não valeria à pena liberar o vácuo e moralizar a disputa, mas isso tornaria o triathlon longo uma disputa de corrida – já que a natação é proporcionalmente muito curta e o ciclismo se tornaria mais um jogo tático do que uma disputa de forças. Além disso, o mercado de bikes de triathlon e acessórios aerodinâmicos, que movimenta uma fortuna em todo o mundo, deixaria de existir com a adoção dos pelotões. E isso tudo sem falar no risco de permitir que atletas sem experiência com pelotões saiam por aí em grupos gigantescos, colocando em risco sua segurança e a dos demais competidores – os campeonatos da ITU proíbem o vácuo entre atletas amadores para evitar este risco, e países como o Canadá exigem uma licença (obtida por meio de testes práticos) para que os atletas participem de provas com vácuo liberado.

Mas de quem é a culpa por essa “imoralidade” que atinge o triathlon?

Eu não tenho dúvida ao afirmar que é dos atletas, que são os responsáveis por respeitar as regras e manter o esporte limpo. Mas os organizadores têm a responsabilidade de tornar a disputa justa, e para isso têm à mão algumas ferramentas que poderiam ser melhor utilizadas: definir percursos que minimizem a possibilidade de formação de pelotões, distribuir as largadas e fiscalizar a prova adequadamente, segundo regras claras e justas, e punir exemplarmente os transgressores destas regras.

Os percursos com muitas voltas, ao contrário do que muitos pensam, nem sempre facilitam o vácuo – pois os atletas que tomam voltas normalmente não conseguem acompanhar aqueles que os passam e o percurso a ser fiscalizado acaba sendo menor. Mas provas absolutamente planas não permitem ataques, nivelando por baixo o ciclismo da competição.

Com relação às regras, uma idéia interessante vem das provas sem vácuo organizadas pela USAT (federação americana de triathlon), nas quais é comum que seja utilizada a chamada “stagger rule”. Essa regra proíbe que os atletas pedalem alinhados com aqueles que estão diretamente à sua frente, mesmo que estejam fora da zona de vácuo – o modelo é interessante porque as longas filas de atletas têm o mesmo efeito de um pelotão, permitindo uma diminuição do esforço do atleta que se esconde em função da diminuição da resistência do ar.

DSCF1255 520x390 Opinião: o vácuo no Triathlon   Ana Lídia Borba

Não há problemas quando o vácuo é legal

Ao meu ver, a maneira mais eficaz de minimizar o problema do vácuo nas provas é separar as diferentes categorias: elite feminina separada da elite masculina; amadores separados dos profissionais, mulheres e homens separados entre eles. Em provas longas, que não permitem que a prova dos amadores seja concluída antes da largada dos profissionais, o ideal seria que a elite masculina largasse primeiro, seguida da elite feminina, distantes o suficiente para que as melhores nadadoras não alcançassem os piores da natação masculina (algo como 15 minutos em um Ironman). Depois, os atletas amadores largariam – primeiro homens, depois mulheres – também com o cuidado para que os melhores age-groupers não chegassem a afetar a disputa da elite feminina (uma distância de 30 a 45 minutos da largada feminina seriam suficientes, também para o exemplo de um Ironman). Assim, evita-se que os melhores ciclistas amadores se aproveitem do vácuo dos profissionais, e que as melhores ciclistas juntem-se aos homens – fato que vimos nas últimas duas edições do Ironman Brasil, por exemplo – e a fiscalização pode ser concentrada de acordo com a real necessidade: um menor número de árbitros (porém mais rígidos) para os profissionais, que são uma quantidade menor de atletas distribuídos em um menor espaço, devido ao nivelamento da competição, e mais motos para os atletas amadores, que ficam mais distribuídos ao longo do percurso e superam em 100 a 200 vezes o número de profissionais.

E, por fim, se o vácuo é para o triathlon de longa distância tão injusto quanto o doping, por que não adotar o mesmo sistema de controle? Assim como a Agência Mundial Antidoping criou o sistema de “passaporte biológico”, os organizadores de circuitos internacionais deveriam criar um “perfil” dos atletas em que ficassem registradas as ofensas por vácuo ou atitudes antidesportivas, de forma que pudessem ser estabelecidas penas cumulativas e que pudéssemos, aos poucos, livrar o triathlon de pessoas que se dizem atletas, mas não praticam os valores do esporte.

Por Ana Lídia Borba

 

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