Depoimento da turma do fundão: nós também somos IronMan

04/08/2010 por Enviar por e-mail Imprimir
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Tritar Rio de Janeiro

Por Renata Cury

Desde os anos 80, sempre acompanhei o IronMan do Havaí. Naquela época, as informações eram bem mais difíceis de serem adquiridas. Sempre que conseguia encontrar algo relacionado a esse esporte eu ficava muito feliz. Não existia internet e a TV a cabo estava começando no Brasil. Então, procurava em revistas estrangeiras alguma informação sobre o IronMan, iniciando desde já no meu âmago um imenso desejo de realizar essa prova. Vieram Mark Allen, Dave Scott, Paula Newby-Fraser , Julie Moss, e o incansável e valente Dick, que levou seu filho, portador de paralisia cerebral, até a linha de chegada, realizando um sonho de ambos. Sempre fiz esportes e minha primeira medalha foi conseguida aos 9 anos, que tenho até hoje. Porém, a minha pequena estatura me tolheu de continuar no esporte competitivo, o que num longo prazo foi bom. Sendo preterida no esporte, dediquei-me a estudar e passei em medicina. Face à intensa carga horária, parei com a atividade física por um período de uns 10 anos, sem nunca ter deixado de acompanhar ano após ano o IronMan.

O tempo foi passando e as coisas foram ficando mais fáceis no sentido de se obter informações por internet e TV a cabo, pois neste meio tempo ambas floresceram, mas sem nada comparar às facilidades da atualidade. No ano 2000 resolvi treinar para a Maratona de Curitiba. Após a prova, vi que tinha machucado meu pé e para não deixar de treinar fui para o Triatlo. Não nadava 25 metros na piscina e após 40 dias de treino fiz meu primeiro short triatlo em Caiobá-PR. Daí em diante não parei mais e fui em busca do meu sonho, chamado IronMan. Passei por várias assessorias esportivas em Curitiba e fiz muitos amigos. Em 2006, fui assistir à prova no Havaí, o que considero ter sido meu maior “insight” para a realização da prova.

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Renata na emocionante chegada do Ironman Brasil 2010

Quando o IronMan Brasil passou a ser em Florianópolis, ia sempre assistir, também como parte de uma preparação mental para a realização do grande evento. Em 2009, assistindo à prova em Floripa, percebi que o momento tinha chegado. Havia mudado algumas coisas no meu trabalho e estava com disposição e disponibilidade de horário para treinar. Era chegada a hora. Como acredito muito em mentalização e visualização, resolvi treinar in loco, com o mestre Roberto Lemos, e foi a melhor coisa que eu fiz. Sempre soube que faria num tempo alto, pois o meu ritmo de treinamento coincidia com o período de prova de 16 a 17 horas. O ritmo eu tinha, só precisava colocá-lo em pratica por 16 horas. Isto significava que tinha que fazer muito volume. Iniciei os treinamentos e percebi o “abacaxi” em que tinha me metido e a grandeza da coisa quando estes volumes de treino começaram a bater na minha cara. “Caramba! Tenho um abacaxi enorme para descascar.” Por alguns momentos, pensei: “Será que me meti numa fria?”. Porém, o desejo e a realização do sonho eram infinitamente superiores. Quando falava que ia chegar “11 e meia”, as pessoas diziam: “Puxa! Que tempo bom. Vai fazer em 11h e 30min”. Eu dizia: “Não, não, não… Vou chegar 11 e meia DA NOITE”. E abria aquele sorriso, sabendo que pra mim estava ótimo.

Um fator que muito somou ao meu êxito foi a presença maciça da família e amigos no dia da prova. Quando meu pai soube que eu iria pedalar 180 km no dia seguinte, empalideceu e baixou a cabeça. Respirou fundo e confiou na filha. Eles sabiam que eu estava treinando bastante, mas eu os poupei dos detalhes da prova. A largada foi emocionante. Não acreditava que estava lá. Nadei bem e saí bem da água. Fiz a transição com calma e saí para pedalar. Desde o primeiro posto, já comecei a comer banana, e nunca comi tanta banana na minha vida. Foi surreal. A disciplina de me alimentar estava acima do querer ou não querer. No Iron tem que comer. Para a felicidade de todos, o vento não veio forte, exceto na área do túnel, que para mim é onde fica o inferno. Aquilo não acaba nunca, e se você não tiver um bom psiquismo você sai abalado.

Levei gel e barra de proteína, que eram utilizados quando meu timer de 20 minutos tocava, me avisando que tinha que comer, pois o dia seguia longo. A vantagem de ser da turma do fundão é que os profissionais vão passar por você e você os verá bem de pertinho, pedalando como nunca. Até houve um momento hilário, quando voltava da minha primeira volta, que foi quando o carro-madrinha ficou na minha frente. Só que os primeiros não chegavam! Então, num dado momento estava eu e 50 metros à minha frente o carro-madrinha. Neste ínterim os atletas mais rápidos já estavam voltando em direção ao centro para a segunda volta e gritavam pra mim: “Aaeeew, primeirona!”, pois quando o carro-madrinha passava, todo mundo queria ver quem era o primeiro. E lá estava eu, sem querer, me sentindo o máximo. A segunda volta foi desgastante, mas sempre procurava esquecer o que já tinha passado e manter o foco em fazer o meu trabalho (Don’t think, Just run!). Uma das coisas que considero difícil da turma do fundão é que sempre pedalamos sozinhos, você vê um ou outro atleta a 100, 200 metros de você, mas nunca aquele grupo imenso que te carrega junto. A solidão e a melancolia te assombram a todo momento. Entreguei a bicicleta e saí para correr, me sentindo muito bem. Fiquei surpresa e muito feliz, pois estava sem dor alguma, e dá-lhe comer. Mas minha alegria acabou logo, quando me dirigi a Canasvieiras. Ali conheci, pela segunda vez, o inferno. Também corri muito tempo sozinha e o retorno não chegava nunca. Enfim, terminei esta etapa difícil. Percebi que fiquei um pouco abalada, pois ainda tinha trabalho pela frente. Consegui me recompor depois de certo tempo, procurando manter a concentração e não me abalar de ver todo mundo com pulseiras no braço e eu sem nenhuma, ainda.

Quando peguei a segunda pulseira e abri a última volta me emocionei, pois naquele momento senti que o sonho da minha vida estava prestes a se concretizar. O corpo chorava e a alma sorria. Fiz um pacto comigo mesma, que se quisesse ser uma IronMan, só precisava correr 10 km, “deizinho” só. Fácil! Esquecer tudo o que havia passado. Só correr 10 km e mais nada.

Quando entrei na Búzios, por volta das 23 horas, estava ele lá, meu técnico Roberto Lemos, para me dar o último apoio e suporte na reta final. E rumo à linha de chegada lhe agradeci pela ajuda na realização de meu sonho. Foram muitos treinos em Florianópolis, com todo o seu apoio. Quando entrei no funil, todos estavam lá. Amigos e familiares. Foi indescritível. Eu tinha um trabalho a fazer. Fui lá e fiz. Em 2011 estaremos lá! Se melhorar uma horinha, tá bom.

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