O futuro do triathlon olímpico brasileiro, parte 7: Marcus Ornellas
Na penúltima entrevista da série “O futuro do triathlon olímpico brasileiro” conversamos com Marcus Ornellas, uma lenda viva do triathlon nacional. A apresentação será feita pelo próprio Marcus, que esbanja maturidade e visão de futuro, imperdível.
MundoTRI: Antes da entrevista, conte-nos um pouco mais sobre sua história no triathlon brasileiro.
Marcus Ornellas: Desde os 11 anos pensava em fazer Triathlon, pois competia na natação desde os cinco. Finalmente participei da minha primeira prova aos 15 anos.
Ao longo da minha carreira tive a honra de competir no primeiro Campeonato Mundial da ITU (Avignon – França 1989) e nos 2 primeiros anos de Circuito Mundial da ITU (World Cup Series), tendo conquistado 2 Top 3 e terminado o Circuito em décimo primeiro nos 2 anos. Na época o Triathlon Olímpico da ITU era sem vácuo. Fui também por 4 vezes Top 5 em Campeonatos Panamericanos, Tricampeão Brasileiro (Olímpico), Bicampeão Brasileiro de Cross Triathlon e Bicampeão do Troféu Brasil, tendo obtido 37 pódios Top 5 em 50 provas disputadas (5 vitórias e 27 Top 3).

Marcus no Troféu Brasil
Desde os 18 anos me interessava em competir no exterior. Via as revistas ou vídeos na TV e queria competir nas provas mais difíceis com os principais atletas.
No início da ITU (International Triathlon Union), ela buscava agregar ao seu Circuito as provas mais conhecidas do mundo e mais tarde ela foi abrindo portas e criando seus eventos, desvinculando-se dos antigos eventos promocionais.
Desde muito novo queria correr em Nice, St Croix, Wildflower, Roth, Hawaii etc. Com muito esforço ao logo da minha carreira consegui competir nessas provas e ter bons resultados, ficando sempre entre os Top 10, com exceção do Hawaii (fiz em 95 meu primeiro Ironman e em 2007) que ainda não consegui fazer uma boa prova.
Fui 5 vezes TOP 5 no Triathlon de St Croix, quinto no Ironman França (Nice) e Campeão do Triathlon Longo do Alpe D’Huez (França), conquistei o Campeonato Ibérico (Portugal) e outras duas vitórias importantes na Itália (Mergozzo e Reggio). No ano passado fiz o meu melhor tempo na distância Ironman: 8 horas e 32 minutos em Roth.
Desde 2005 tenho passado a temporada treinando e competindo na Europa representando um clube italiano, porém este ano estou no Brasil, pois meu primeiro filho nasceu. Além disso, retornei ano passado, depois de conquistarmos por equipe o Campeonato Italiano de Distância Ironman, com uma lesão que me afastou das competições durante este ano todo.
MundoTRI: O Brasil não teve o desempenho esperado nas últimas Olimpíadas e o mesmo aconteceu nos últimos mundiais de triathlon. Na verdade, temos levado cada vez menos atletas nesses eventos. Você atribui esses resultados a algum fator especial?
Marcus Ornellas: Em minha opinião muitas coisas influenciaram estes fatos. Primeiro os critérios de pontuação eram outros, os International Events /Pré–olímpicos, que hoje se chamam Continental Events, contavam muitos pontos etc., e os sul-americanos se beneficiavam disto marcando muitos pontos comparados aos europeus. O nível dos atletas também aumentou muito e a cada ano os brasileiros participavam de menos etapas World Cups. Para piorar a situação a Confederação não soube utilizar da melhor forma a verba que tinha a disposição ao longo desses anos. Quanto mais ela se envolveu menos resultados obteve. Desde sua criação a CBTri sempre teve os seus atletas “protegidos” que faziam parte de uma panelinha, foi assim na época do Calazans que tinha seus prediletos e depois veio o grupinho do Pão de Açúcar, o da Brasil Telecom e mais recente os do CNTT. Para Sidney 2000 os atletas conquistaram seus pontos e suas classificações basicamente com recursos de seus patrocinadores pessoais, organizando seus calendários de viagens de acordo com seus treinamentos etc. Para 2004 a CBTri criou um critério de Equipe Permanente, que não era permanente pois durava somente 3 ou 4 meses. Naquela época alguns atletas utilizavam os recursos de seus patrocinadores para viajar o Circuito da ITU, além da ajuda da CBTri. Com a ausência de medalhas em Antenas, a confederação acreditou que era o momento de renovação para 2008 e começou a investir em jovens atletas descartando uma integração entre eles com os mais experientes. A grande maioria não tinha recursos provenientes de patrocinadores pessoais, o que dificultou ter a oportunidade de competir o maior número de provas possíveis no exterior. Fora isso, o número de eventos que contavam pontos para o Ranking da ITU no Brasil e na América do Sul foi reduzido significativamente.
Além de tudo isso os atletas que conquistavam o direito de usufruir da ajuda da CBTri, principalmente em 2005, não o faziam pois era mais conveniente não viajar e ter o status de atleta da Seleção Brasileira. Por sua vez a CBTri não redirecionava esta verba para outros atletas a fim de que mais brasileiros pudessem competir e conquistar pontos no Ranking da ITU.
MundoTRI: Como você vê o cenário do triathlon olímpico brasileiro atualmente? Alguma aposta para 2012?
Marcus Ornellas: O triathlon Olímpico Brasileiro está em evolução no masculino. O nível da natação melhorou porém o ciclismo ainda é um ponto muito fraco. No feminino perdemos bastante pois dificilmente conseguiremos repor um trio tão brilhante como aquele de Carla/Mariana/Sandra.
Um bom resultado para 2012 tenho certeza que os brasileiros são capazes, porém o que é um bom resultado? Ficar entre os 10 / 15 primeiros eu acho que somos capazes, mas disputar uma medalha acho muito difícil pois não temos nenhum atleta que esteja se dedicando INTEGRALMENTE ao Circuito Mundial . Basta vermos os exemplos da Alemanha, França, Portugal, Austrália, Nova Zelândia, Rússia e EUA. Os caras correm o Circuito todo ano após ano a muito tempo. O COB só se interessa por medalhas e cobra das confederações. Nem a Austrália que talvez tenha os maiores e mais talentosos atletas do mundo nunca ganhou uma medalha no masculino. Nem Simon Lessing, Ivan Rana e Javier Gómez que já foram considerados imbatíveis conseguiram ganhar uma medalha.
MundoTRI: E no cenário de longa distância e de competições curtas sem vácuo?
Marcus Ornellas: Na minha opinião este é o forte do Brasil e temos vários atletas obtendo bons resultados no exterior e tendo ótimas performances aqui no Brasil. Nos últimos 4 ou 5 anos sempre presenciamos atletas brasileiros entre os Top 10 em provas curtas sem vácuo ou IM 70.3 nos EUA e Europa.
MundoTRI: Qual a principal diferença que você vê das Olimpíadas passadas para a próxima para os atletas brasileiros do triathlon?
Marcus Ornellas: Eu acho que o nível técnico cresceu ainda mais, estão surgindo mais atletas bons e os brasileiros não estão acompanhando este crescimento. Os “gringos” estão correndo ainda mais rápido. Além disso creio que pouquíssimos brasileiros foram a Londres conhecer o local da prova. Acho que todos que sonham em competir em Londres deveriam ter ido lá há muito tempo, mesmo que a prova não faça parte do Circuito da ITU.
MundoTRI: Alguns atletas brasileiros acabam caminhando para o circuito Ironman e o Troféu Brasil devido à maior exposição na mídia e a possibilidade de angariar mais patrocínio. Como você vê o impacto disso no desenvolvimento dos triatletas olímpicos brasileiros? (vale lembrar que grandes triatletas internacionais, após começar no Ironman não conseguiram mais se manter no mesmo nível na distância olímpica.)
Marcus Ornellas: Bom, primeiro eu discordo um pouco que estas provas possibilitem angariar mais patrocínios e que tenham maior exposição na mídia. Acho que não existe exposição maior na mídia do que ser um atleta olímpico ou medalhista pan-americano. Por exemplo no meu caso nunca consegui um patrocínio em função dos meus resultados no Troféu Brasil. Além disso logo após ter conquistado o Bicampeonato acabei perdendo meu patrocínio da época mesmo sabendo por fontes da empresa que o Triathlon havia sido o esporte, depois do futebol, que mais havia proporcionado retorno de imagem. Creio que recentemente aconteceu a mesma coisa com o Fabinho Carvalho…
O maior reconhecimento que tive na carreira foi quando conquistei minha vaga para os Jogos Panamericanos de Winnipeg.
Eu acho que esta mudança para provas tidas como promocionais são também em função de que você não depende mais de federações, questões políticas etc. Você planeja um calendário que sabe que não haverá mudanças de datas, cancelamentos etc. e pode disputar melhores premiações. Além disso a essência do Triathlon vem desses tipos de provas e muitos atletas se encaixam melhor neste perfil do que no perfil das provas da ITU.
Eu acho que as provas do Troféu Brasil possam servir de escola para os triatletas brasileiros e não um fator desvirtuante num processo de formação de um atleta olímpico.

Marcus Ornellas - foto: divulgação
MundoTRI: Tivemos alguns episódios recentes de doping no atletismo, no triathlon e em outros esportes. A CBTri tem realizado poucos exames nos atletas. Como você vê essa situação?
Marcus Ornellas: Eu acho um absurdo esta situação. Isso é uma responsabilidade básica que CBTri não cumpre. Todas as federações na Europa realizam diversos exames durante o ano. Ano passado eu fiz 5 exames durante o período que estive na Europa (3 de Urina e 2 de Sangue). Atualmente isso é uma coisa normal em todo o mundo. Nós temos a Sandra Soldan envolvida como médica responsável por controle antidoping no Brasil. A CBTri deveria aproveitar disso e realizar pelo menos exames em todas as provas de Campeonatos Brasileiros, como também nos principais eventos nacionais (etapas do Troféu Brasil, Long Distance e Ironman).
MundoTRI: Em sua opinião, como deve ser a preparação de triatletas brasileiros para 2016?
Marcus Ornellas: Acho que a CBTri deveria estudar a possibilidade de enviar atletas para correrem TODAS as etapas de World Cups, Word Series, Campeonato Mundial Junior, Mundial de Revezamento etc. Não adianta mandar 21 atletas para a MESMA prova pois desta forma os brasileiros não conseguem marcar muitos pontos. Na melhor das hipóteses um vai ser o Campeão e o último será o vigésimo primeiro. Fato praticamente impossível de se acontecer. Deveríamos mandar poucos atletas para cada prova e evitar mandar muitos dirigentes, chefes de delegação etc. Basta 1 técnico que seja imparcial e não tenha vínculos com nenhum atleta. Que este saiba falar outras línguas e que sirva para dar todo o suporte aos atletas, tanto para organizar estadias, locais de treinamento nas viagens e principalmente “aquele” suporte durante as competições. Durante todos os anos que competi em eventos da ITU (1989 a 2004) e Mundiais (participei de 7), todos por conta própria (menos Nova Zelândia 94), nunca obtive este tipo de auxílio. Eu mesmo tinha que procurar piscina, estrada que pudesse pedalar, pista e durante as provas passava frio antes da largada e raramente sabia em que posição ocupava. Os “delegados” não participavam efetivamente, chegavam atrasados aos briefings etc., e realmente não serviam para nada.
Devemos fazer mais intercâmbio na Europa. Competir e treinar durante alguns períodos do ano por lá pois a grande maioria das provas são técnicas. Não dá para formar atletas olímpicos correndo provas em João Pessoa, Fortaleza, Vila Velha, Copacabana, tudo na beira do mar contornando cone pra lá e pra cá. Realizar parcerias com países como Espanha, Portugal, Itália seria fundamental, aproveitando o fato de que os Jogos de 2016 serão no Brasil, organizando trainning camps em conjunto aqui.
Ha 10 anos atrás Portugal pedia pelo amor de Deus pra vir aqui no Brasil, obter algum contato, principalmente com as atletas brasileiras. Hoje em dia é umas das referências do esporte e nós que falamos a mesma língua não nos aproveitamos deste intercâmbio. Eu por conta própria, junto com o Ivan Razeira, utilizei as dependências do Centro de Alto Rendimento na Espanha e Portugal em 2003. A Itália periodicamente leva sua seleção para treinamentos em altitude etc.
Várias Federações Internacionais procuram “fugir” do inverno e treinam em outros países. O Brasil deveria se aproveitar disso e organizar trainning camps por aqui no nosso verão a fim de possibilitar este intercâmbio.
MundoTRI: E como você vê os atletas brasileiros no cenário de longa distância mundial?
Marcus Ornellas: Acredito que em breve conseguiremos vencer um Ironman e realizar o sonho de ter um atleta masculino entre os Top 10 no Hawaii.
No feminino, no ano passado a Vanessa Gianinni conquistou um Top 10 no Mundial de Clearwater, o que considero um excelente resultado. Nesta mesma prova, em 2007, fizemos 3 atletas entre os 20 primeiros (Santiago 10, eu fui 11 e Shiro foi 17). Segundo país com mais atletas entre os Top 20.
Gostaria muito que um dia o Brasil enviasse uma equipe masculina e feminina para o Mundial de Longa Distância da ITU. Tenho certeza que traríamos pelo menos uma medalha por equipe.
MundoTRI: A WTC anunciou recente algumas mudanças nas regras para classificação dos atletas de elite para os mundiais de Ironman e Ironman 70.3. Você acredita que isso vá prejudicar os atletas brasileiros?
Marcus Ornellas: Na minha opinião poderemos ter mais representantes nestes mundiais e a disputa de classificação fica mais igual com os estrangeiros, mas com certeza haverá a necessidade de um investimento financeiro maior, que é o que nos atrapalha mais.
Por exemplo o IM Brasil oferece 3 vagas no masculino e duas no feminino para o Hawaii e o número de brasileiros competindo na prova é muito maior. Fora os estrangeiros… Com este regulamento podemos escolher diferentes provas e somar pontos abrindo a possibilidade de termos mais brasileiros competindo nos Mundiais, já que habitualmente conquistamos resultados entre os Top 10 nos IM e nos IM 70.3 internacionais.
Além disso acaba aquela história do atleta pegar a vaga e não competir. O atleta qualificado que não for passa sua vaga ao seguinte.
Outras entrevistas da série:
- O futuro do triathlon olímpico brasileiro, parte 1: Lauter Nogueira
- O futuro do triathlon olímpico brasileiro, parte 2: Marco La Porta
– O futuro do triathlon olímpico brasileiro, parte 3: Rosana Merino
– O futuro do triathlon olímpico brasileiro, parte 4: Sandra Soldan
– O futuro do triathlon olímpico brasileiro, parte 5: Juraci Moreira
– O futuro do triathlon olímpico brasileiro, parte 6: Armando Barcellos














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