Diário dos Ironmans: Yana Glaser e Ciro Violin
Yana Glaser
Fiquei quase duas semanas me enrolando pra escrever esse texto, na verdade são tantas coisas que quero dizer, que não sabia nem por onde começar! O Ironman é uma experiência única, por mais que eu tente explicar cada mÃnimo detalhe do que eu passei e vivi acho que a única maneira de saber a sensação, realmente, é só passando aquela linha de chegada.

Yana Glaser
A minha semana anterior à prova foi tensa, dormi mal, estava impaciente e treinei muito pouco. Cheguei na quarta à noite em Jurerê. Quinta feira acordei e parecia que eu estava num sonho, olhei pela janela e não parava de passar atletas pedalando, correndo, o barulho das rodas fechadas ficava no meu ouvido!! Nadei pela manhã e trotei no fim da tarde. Nadei me sentindo mal e pesada, mas sabia que nada disso iria interferir meu desempenho no domingo. Fui jantar com a minha mãe no centro de Floripa para sair do meio de triatletas e ver se eu relaxava um pouco. Deu certo de quinta pra sexta dormi muito bem.
Sexta de manhã fui pedalar com a minha equipe e cancelamos a natação porque começou a chover muito. Daà venho o simpósio, aqueles infinitos atletas, a retirada do kit, os colegas e amigos de outras cidades que não via há tempos, todo mundo com um só pensamento: IRONMAN.
Achei lindo de ver a cidade toda contagiada pelo evento, o clima “ironman” é o máximo (apesar do nervosismo). Decidi não arrumar nada para a prova, sabia que no sábado ia estar pilhada de qualquer jeito então aproveitei a tarde para me distrair e não pensar muito na prova.
Sábado acordei quase meio dia!! Foi muito bom dormir bem, acordei disposta arrumei minhas coisas, organizei todas as sacolas (são 5!!!!) e fiquei esperando meu horário de bike check in.
Outra coisa que me impressionou foram os staffs, centenas de pessoas super esforçadas para ajudar a realizarmos nossos sonhos. Todos muito empenhados e atenciosos. Quero agradecer aqui à todos os staffs pelo excelente trabalho.
Minha irmã e minhas amigas só chegaram lá em casa para o jantar, o que foi bom, acabou desviando um pouco a minha atenção e deu para eu ficar mais relaxada. É muito bom largar uma prova como essa e ter a certeza que tem muitos familiares e amigos ali que vão estar torcendo por você durante o dia todo.
Domingo 4:45 da manhã, nem precisou tocar o despertador, já estava acomodadÃssima!!! O dia chegou!!! Ai ai ai que medo que eu tava!!!! Lembro que parei em frente à quele monte de atletas e pensei: ” olha quanta gente aqui, tantos atletas vão fazer a mesma coisa que eu, não tem por quê eu ficar nervosa. Se todos esses conseguem, com certeza vou conseguir!!!”
O dia começou a clarear e nem acreditei quando vi aquele sol, foi lindo, e junto veio a esperança de um dia maravilhoso que acaba de começar!!
A largada foi uma zona, ninguém queria ficar atrás da linha, a maioria dos homens não deixaram eu largar na frente deles, mas foi tudo mágico! Até a primeira bóia estava com tanta adrenalina que nem senti as batidas de braços e os “empurrões” que levei. Nadei calma, num ritmo bom, quando saà da água para retornar a bóia, me emocionei quando a torcida gritou meu nome! Foi muito legal!!! Me empolguei um pouco demais na corridinho e comecei a segunda volta quebradinha!! hahaha. Enfim, gostei da minha natação, pois pude sair inteira para pedalar. Das pessoas que estavam lá a maioria falou que a largada é a melhor parte de assistir, que é muito emocionante.
O pedal foi estranho!!! É muito fácil se empolgar e acabar forçando. Tive que me controlar muito. Centenas de atletas me passaram!! Me senti uma lesma, mas mesmo assim não forcei e fiquei num ritmo confortável. Foi muito legal que uns 20 atletas que passaram por mim perguntavam: ” Você é a Yana do MundoTRI??? Como que esta a posição da bike?? Sentiu as matadas de treino??? Força que vai dar certo!!!” Foi muito legal isso, me incentivou demais. Quando passei no retorno me emocionei de novo quando gritaram meu nome, mas à frente estavam minha famÃlia e minhas amigas, foi um incentivo enorme para partir pra mais uma volta. Nossa, MAIS UMA VOLTA!!! Parecia que estava pedalando há séculos e só tinha sido metade!! Affff…. Mas nessa segunda volta continuei no meu ritmo, só que agora já podia passar alguns atletas que já tinham quebrado. Nos últimos 20 km soltei total, pensando na maratona que tinha por vir. Uma coisa ruim que me aconteceu foi que não consegui comer meus sanduÃches! Fiz todos os treinos longos comendo sanduÃche mas no dia não consegui engolir! Minha alimentação durante o ciclismo foi endurox r4 (1,250 l), 4 géis, 4 garrafinhas de gatorade, 1 garrafinha de água, 1 pé de moleque, 1 banana e uma super barra de proteÃna de pasta de amendoim que eu comi metade na transição para a corrida.
As duas transições eu fiz com muita calma, bem tranqüila. Mas a da corrida demoro um pouco mais, na verdade estava com medo de começar a correr! Estava com medo de estar travada, com as pernas quebradas já! Mas respirei fundo e parti pra parte que eu teria mais dificuldade: a maratona!! Nunca tinha corrido mais que 31 km!! E não tinha feito nenhuma transição com mais de 10 km de corrida!!! Afff… As minhas pernas estavam ótimas!!!!! Logo no começo me deparei com toda aquele torcida! Foi bom demais!! Tremia de tão emocionada que estava!! Minha irmã estava de bicicleta e as vezes ela aparecia para eu não me sentir tão solitária e lembrar da torcida que me aguardava!!! Isso sem contar os “amigos” que correram comigo!! Muitos atletas me motivaram muito e me ajudaram durante a prova! Muitos que me conheceram por essa coluna aqui do MundoTRI!!!

Yana Glaser
Fim da primeira volta! Ainda estava me sentindo bem!! Na verdade não sei como que estava porque nunca, desde o começo da prova eu olhei no relógio. Não sabia pra quanto tinha nadado, nem pedalado, muito menos como que eu estava correndo! Sei que a sensação tava boa, ritmo confortável. Continuei no meu passinho! Km 27, daà começou a complicar!! Já não conseguia correr no meu passo tive que diminuir, e as cãibras estavam começando a querer aparecer!! Cada lombada, ou qualquer desnÃvel que passava sentia minha panturrilha, mas diminuà o ritmo e não parei. No retorno pra terceira volta já não estava mais sorridente e já não consegui ser simpática com a minha famÃlia e torcedores. Olhei a cara da minha mãe, ela estava tensa. Estava doendo tudo, queria chegar logo, mas ainda estava tudo sob controle. Nessa ultima volta andei em todos os postos, mas apenas nos postos. Sabia que se começasse a andar não iria parar….
A minha irmã colocou meu pai (que não pode ir me ver) pra falar comigo pelo viva voz… : “PAI TA DOENDO!” ” FILHA TA ACABANDO! E AINDA NEM ESTA DE NOITE!” Isso me deu uma motivação e quando vi estava na linha da chegada!!! Meu Deus, via lá longe a chegada mas não chegava NUNCA!!! Já estavam todos lá me esperando!!! Um amigo correu uns 50 metros comigo e lembro que perguntei: “Será que vou morrer quando chegar??” Que nada!! No tapete estavam minha mãe irmã e 4 amigas que eu amo muito, falei: quero passar a linha com todas vocês!! Dai foi só festa!!! Passei com aquela “galera” a faixa! Foi emocionante, minha mãe estava numa felicidade total. Sei que pra ela foi tão tenso quanto pra mim, ela tinha que segurar o nervosismo dela e meu.
A chegada é algo que não tem como explicar!!! Ufa acabou!!! Meu Deus consegui!!! Pela adrenalina da chegada, cheguei bem, não quis soro, nem massagem, tava me achando!! haja Achando que tava bem, comi um pouco, fui pra casa, tomei banho, na hora que desci para comer daà sim meu corpo deu sinal!!! Passei a noite com febre!! Quase desmaiei!!! Mas normal né!! A dor era boa!!! O sofrimento era bom!!! Dor de dever comprido!!!
Pra falar a verdade doeu mais pra mim o pós prova do que durante a prova. Passei segunda feira mal também. Descer escadas era algo impossÃvel. Mas terça já estava de novo com a rotina. Mas não era a mesma coisa, porque agora eu sou uma “irongirl”. E qualquer esforço valeu muito a pena.
Eu não me preocupei com as minhas concorrentes e nem em forçar, pensando no tempo. Eu apenas pensei em acabar. Não consegui a vaga pro Hawaii. Mas confesso que fiquei morrendo de raiva no final das contas por não ter conseguido. Como foi o meu primeiro Iron deixo passar. A boa notÃcia é que eu estou inscrita pro ano que vem. E meu objetivo não vai ser acabar. Vai ser a vaga.
Hoje já é quarta feira e ainda estou cansada. Nada de dor, mas ainda sinto meu corpo cansado. Vou voltar a treinar de leva só semana que vem.
Com certeza tenho MUITO o que treinar, mas sei que não é impossÃvel. Com certeza eu senti minhas matadas de treinos para o IM desse ano, estou ciente que elas não vão poder estar na minha programação do IM do ano que vem!!!
Quero agradecer aqui a MundoTRI, pela oportunidade de escrever essa coluna, que com certeza motivou meus treinos fez aumentar a minha torcida. Agradecer a todos os emails e palavras de força antes, durante e após a prova que recebi do pessoal que lê o MundoTRI e meus amigos e conhecidos espalhados pelo Brasil. Ao meu técnico e a minha equipe que sempre foram muito pacientes comigo, que me ensinaram, incentivaram e torceram por mim. À minha famÃlia que mesmo não gostando muito da idéia estiveram sempre do meu lado e à minha mãe, meu porto seguro.
Rumo ao IM Brasil 2011!! Vamo que vamo!!!
Twitter: @yanaglaser
Ciro Violin
Eu tinha planejado de uma maneira… Mas infelizmente saiu de outra.
Eu não tinha um plano B, muito menos um plano C, e por pouco não tive que usar um plano D.
Assim foi meu IronMan Brasil 2010, cheio de surpresas inesperadas e muito aprendizado.
Após uma natação meia boca no terceiro pelotão saà dos 3500m muito bem obrigado, me sentia inteiro, com energia de sobra e principalmente muito equilibrado, lúcido e consciente do que eu estava fazendo.
No ciclismo, a bike fluÃa… eu estava confortável e toda aplicação de energia nos pedais rendia. Eu estava muito bem, e o mais importante, feliz de estar ali.

Ciro Violin na T1
Quando furou o pneu no quiilômetro 45 mais ou menos, o equilÃbrio continuou, e apesar de ter feito a troca em 6 minutos apenas, esqueci do principal…. retirar o que tinha furado o pneu. Eu já não estava mais lúcido e consciente, pois nos outros 5km que percorri, o pneu estava no chão mais uma vez.
Nessa hora eu entrei em parafuso. Eu já não estava mais lúcido, nem consciente, e muito menos equilibrado.
Eu não sabia o que fazer, pois eu não tinha mais câmaras de ar, e o produto ” Pit Stop ” que usei, não serviu pra nada, já que o lÃquido vazava tudo, por que o furo era gigantesco.
Eu já tinha desistido quando apareceu meu parceiro de treinos, o Murilo. Ele me viu naquela situação, parou me emprestou uma câmara e além de me acalmar, me ajudou a fazer a troca.
BELEZA… recomecei quase 13 minutos depois muito desanimado. Estava infeliz, e cheguei a desistir no meio do pedal por várias vezes, pois tive fazer mais duas paradas para re-calibrar o pneu que continuava a vazar pela válvula da câmara que ficou torta dentro do alongador. Mas continuei indo… passando outros atletas que me incentivavam a todo momento.
Terminei os 180km nem um pouco feliz. Eu estava desequilibrado, com pouca energia, mas tinha retomado a lucidez e a consciência, que foi o que me fez colocar os tênis e sair para a maratona.
A corrida começou boa, até que estava me sentindo bem, e a energia começou a voltar aos poucos, o que me deu mais lucidez para pensar numa estratégia: Fazer os primeiros 21km forte e reconquistar posições.
Foi o que fiz… corri com determinação e passei muitos da minha categoria, o que me colocava novamente dentro do objetivo principal de conquistar a vaga para o IronMan HawaÃ. Depois disso, acabei tirando o pé do acelerador, e apenas corri mais 21km de boa, controlando para que ninguém mais da 30/34 me ultrapassasse e assim fui para o abraço terminando com 9h22´07 seg.
O produto final disso tudo foi muita falta de energia, desequilÃbrio total, nenhuma lucidez, desconforto, mas muito…. muito feliz de ter tido o espÃrito de um IronMan e terminado a competição de qualquer maneira.
Que venha 2011, já estou inscrito.
Ciro Violin – atleta New Balance, PipaDesign, TopTelha, Cia do Móvel, Energético 220V, Madeirani, Academia AcquaCenter – Leme e Lemefarma.





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