Novas Crônicas e depoimentos do Ironman Brasil 2010
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Ironman Brasil 2010
Por Mariana Borges de Andrade
Situando: Nascida e moradora de Florianópolis, assisti ao vivo a 1ª edição da prova em 2001, e em 2002, com 15 anos, ingressei nesse esporte com o sonho de um dia completar um Ironman. Esse sonho foi realizado em 2007, quando completei pela 1ª vez. Repeti a dose em 2009 e agora, em 2010. Sim, já penso no de 2011!
O Iron:
Me senti muito tranquila na semana pré-Iron, e o nervosismo e frio na barriga que me acompanharam em 2007 e 2009, estranhamente, não se faziam presentes. Acho que os meus Irons anteriores me tranquilizaram e me deram segurança para essa última prearação, e as 5 sacolas estavam muito mais leves que anteriormente (me livrei de algumas tralhas que ficaram intactas em 2007 e 2009, agora era somente o essencial). O sentimento de felicidade tomava conta, pois dentro das minhas possibilidades, me preparei da melhor maneira que pude desde 1º de fevereiro, e agora não via a hora para o tiro de largada!
Conciliar trabalho e treinos nesses 4 meses de preparação me tornou muito mais organizada e disciplinada, porém não foi dicícil, já que não sobrava muito tempo pra treinar… Difícil mesmo era achar tempo para o descanso entre as sessões de treino! Mas, diferente dos anos anteriores (quando caí de pára-quedas na prova e não treinei o quanto gostaria), agora eu havia feito treinos de qualidade, que me deixaram bastante confiantes e tranquila para o grande dia.
Tudo pronto, após um reforçado café da manhã, me dirijo à área de transição, checo a bike e sacolas, e vou para o El Divino, área de largada. Roupa de borracha, aquecimento na água e a espera para o tiro de largada.

Mariana no Ironman
Larguei bem no canto direito, impondo um ritmo forte, pra tentar achar um bom pelotão e não apanhar tanto como nos outros anos, tática que deu certo! O retorno na areia para a 2ª volta foi emocinante, e só aí me dei conta que começara o Iron, com toda aquela energia do público presente (a concentração antes da largada fez com que eu não me desse conta disso tudo) ao nosso redor, gritando e vibrando! Me senti melhor na 2ª volta, encaixei o nado e a primeira etapa do Iron havia sido vencida sem nenhum contra-tempo. Prometi a mim mesma que não me deixaria afetar pelo tempo dispendido em cada modalidade, fosse ele “alto” ou “baixo”, pois numa prova onde as condições climáticas interferem diretamente, o relógio não é a melhor coisa a ser seguida e pode nos trair. Ih, quebrei a promessa e olhei para o cronômetro da prova ao sair da água, 55’ de natação, e confesso, fui pedalar mais feliz ao ao ver que baixei quase 5’ do tempo de 2009. T1 = Correria: como um gel, tiro a roupa de borracha, coloco manguito, meias, carboidrato nos bolsos, gole d`água, óculos, capacete, e pronto, estava pronta para a minha modalidade preferida, o ciclismo. Os primeiros quilômetros não foram tão fáceis como o previsto, mas, ao entrar na SC-401, já me sentia encaixada na bike e impus o ritmo a ser mantido nos primeiros 90km (infelizmente o cateye me deixou na mão, nem cadência nem velocidade estavam funcionando). A cada minuto que passava eu me sentia mais segura e confiante, pois estava guardando meu melhor pra 2ª volta. Passei algumas adversárias, o que me motivou ainda mais para o kms seguintes. Já na saída do túnel, fui informada que estava na 4ª colocação no feminino e mal acreditei no que acabava de ouvir, não esperara que isso fosse acontecer, muito menos em tão pouco tempo de pedal. Agora eu voltava a Beira Mar, com o sorriso no rosto, comprimentando muitos familiares e amigos que torciam ao longo do percurso. Já na Beira Mar Norte, em frente a pizzaria Paparella, ouço um estouro e penso: tava muito bom pra ser verdade, não acredito! Parei a bike no canteiro central, crente que o pneu traseiro tinha furado mas “infelizmente” algo pior aconteceu, meu pé-de-vela estava travado, um raio quebrou e a roda estava “pegando” o freio, impossibilitando qualquer movimento. Agora eu só torcia para que um árbitro ou mecânico chegasse logo e me ajudar, pois sem habilidades mecânicas nem ferramentas para soltar o freio traseiro, nada eu poderia fazer. Cada minuto de espera me deixava mais angustiada e incrédula, misturando choro com frases de raiva, eu pedia para os competidores que passavam para chamarem mecânicos próximos (valeu Vanuza!). Resumindo, fiquei 20’ ali, parada, vendo o tempo passar, quando os mecânicos chegaram e logo resolveram o meu problema. Eu estava no dilema: paro e aproveito esse treinamento para um Ironman próximo, ou vou para o tudo ou nada, e continuo (ah, o meu principal objetivo desse Iron era baixar das 10hs, algo que agora eu considerava impossível após tamanha perda de tempo). Rapidamente pensei: o que faz um verdadeiro Ironman é isso, superar todas as adversidades da prova e continuar tentando, com todas as suas forças… e comigo não seria diferente!!! Ao ver a minha bike pronta, me esperando, subi novamente e parti, agora com o plano B (nunca imaginei essa quebra de raio, acho que plano Z tá de bom tamanho). Pois o A era dosar a prova e tentar fazer a 2ª volta melhor que a 1ª (provavelmente com essa pausa, a 2ª volta seria melhor que a 1ª rs). Agora a palavra dosar saíra do meu vocabulário, assim como evitei pensar que teria que correr 42km… o fato era que eu deveria recuperar o maior número de posições possível, pedalar o melhor que podia, suportando toda a dor suportável… estava decidido, eu iria pra maratona com a sobra das pernas da bike, sem poupá-las no pedal, como diz o “manual de instruções” do Ironman e o meu planejamento pré-prova. Ah, nos retornos eu não poderia esquecer que só estava com o freio dianteiro… para não haver mais nenhum imprevisto rs
Passei os 90km com 2h50’, o que me deixou mais conformada, pois, subtraindo os 20’’ parada (daria aproximadamente 2h30’), e tudo mais que isso influenciou nos kms seguintes, o tempo estava melhor que o planejado. No retorno da bike, mais uma injeção de ânimo com a torcida dos familiares, amigos e até desconhecidos. Nos próximos 90km, o que me animou e motivou foi ultrapassar competidoras que eu considerava fortes, pois estava com muitas dores musculares, joelhos e tornozelos (e essa do tornozelo preocupava para a corrida, pois era nova… ao contrário das dores nos joelhos, parceiras fiéis, como as costumeiras tendinites).
Mais uma etapa concluída, infelizmente justo o ciclismo, onde eu me sentia mais forte e modalidade que mais gosto, tinha me traído, mas ciclismo no triathlon é assim, depende de nós e das nossas inseparáveis bicicletas. A última etapa só dependia de mim, era eu vs. eu mesma, e agora, que estava tão “perto” do fim, teria que me superar, para suportar as dores nas pernas e fazer com que as energias que despendi a mais no ciclismo não me fizessem “tanta” falta na maratona.

Mariana no Ironman
A transição 2 foi muito mais rápida que a 1ª, é colocar os tênis, comida nos bolsos e partir. Me sinto eufórica nos 1os kms da maratona, já superei boa parte da prova e a torcida na Av. dos Búzios nos faz flutuar, sem dores, com sorriso no rosto, correndo bonito hehe. O problema é quando saímos dessa Avenida, aí voltamos a realidade que não é fácil nem indolor. E assim foi a corrida, procurei manter a técnica, um ritmo e me alimentar bem, o gel já se tornara sem gosto (ainda bem, pq não me agradava muito). Fui até Canasvieiras cuidando da nutrição e pensando na técnica da corrida, para tentar esquecer a fraqueza das pernas… mas após o retorno de Canas, um gel com água gelada na nuca me revigoraram, e agora eu voltava para Jurerê cheia de energia… ultrapassei uma adversária numa daquelas subidas, o que me deixou ainda mais viva e animada.
Obviamente, a Av. dos Búzios é a exceção da constância, a técnica melhora, a velocidade aumenta, não dá pra se empolgar demais pra não pagar mais pra frente. Entrando na famosa Av. para fechar os 21km, devo ter me empolgado de mais, me sentia forte, rápida e muito feliz, por estar ali. Agora eram só mais 2 voltas de 10,5km planos!!! Confesso que quando parti para a 2ª volta não estava muito animada por ter que repetí-la mais adiante, mas tratei de eliminar esse pensamento. Aí continuei, firme, rumo a 3ª e última volta de corrida, que seria a da “comemoração”. Tudo ia bem, até eu perceber, que, faltando 4km, uma garota estava me alcançando… eu não entregaria os pontos fácil, tratei de apertar o ritmo… no km seguinte, ainda lembro da frase de uma amiga, torcedora animada: “Mariana, tais acabando o Ironman, coloca um sorriso no rosto”… não sabia ela que eu vinha sorrindo até perceber a aproximação daquela garota… tratei de continuar forte, dessa vez poderia forçar na Av. dos Búzios que não teria que pagar lá na frente, afinal, era lá mesmo o fim da prova. Ao ter certeza que a minha posição estava segura, tratei de aproveitar os últimos metros (restavam uns 500), com o sorriso de volta ao meu rosto. Os amigos e familiares me parabenizavam, e tomada por imensa alegria e sensação de dever com/cumprido, cruzei a linha de chegada, com 10hs19’, feliz da vida!
Justamente o Ironman onde eu estava melhor preparada fisicamente, confiante, acabou por ser um teste mental, pura superação. Com certeza, foi desse, meu 3º Ironman de onde tirei minha maior lição, pois a superação das maiores dificuldades é que dá um sabor especial à conquista. Foi um 8º lugar com gosto de vitória, inesquecível! Inúmeras vezes imagino como tudo teria sido se não fosse o maldito raio, como teria sido a bike, a corrida, minha colocação, enfim… agora é guardar na memória com carinho esses acontecimentos e partir para o próximo, planejar tudo muito bem, começando pelas rodas e raios, e não esquecer, plano A e B não bastam!
Gostaria de agradecer a todos que me apoiaram e tornaram isso tudo possível: família, amigos, namorado, patrocinadores e equipe técnica… valeu!!!
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Minha história no Ironman Brasil 2010
Por André Veras
Inscrição feita em 18/06/2009. Número 736. Um pouco mais de 11 meses depois estarei na largada do Ironman Brasil 2010. Mudo de assessoria duas vezes para em janeiro de 2010 começar os treinos específicos para o ironman.
Começo os treinos de velocidade em janeiro, já que a base já tinha sido feita em novembro e dezembro. Me sinto forte e com uma evolução sem tamanho. Melhoro a cada dia. Para testar a velocidade, participo de um duathlon aquático no último dia de janeiro e me torno campeão geral da competição. Fico mais confiante ainda.
No começo de fevereiro começo a sentir uma dores de cabeça sem parar. Treino de bike do dia 04/02 (quinta) com muita dor de cabeça. Dia 06/02 (Sábado) vou nadar no mar e no meio do percurso sinto fortes dores na cabeça e saio direto para a terra. Dia 08/02 (segunda) vou para a emergência e depois de uma punção na medula é diagnosticado meningite. E agora? O que fazer? E os treinos? E o Ironman?
Fiquei 40 dias literalmente de cama. Durante esses dias várias voltas na emergência e uma infecção muito grande por causa dos remédios. Meus músculos praticamente atrofiaram. Não conseguia nem andar direito. Dor nos músculos e todas as articulações. Na alta do médico escuto dele: “Ironman será impossível para você. Coloque na cabeça que tem todo ano. Para você esse ano acabou.” Não preciso nem dizer que nessa hora comecei a chorar, mas estava disposto a não escutar o médico. Ia provar para ele que eu ainda era capaz de realizar meu sonho ainda esse ano.
Voltei aos treinos no dia 16/03. Estaca zero e apenas um pouco mais de 2 meses para o Ironman. Realmente seria muito difícil chegar no iron depois do que passei e em tão pouco tempo. Mas estava disposto a pagar para ver.
Dez dias depois da volta aos treinos, como já tinha feito minha inscrição no começo do ano, resolvi disputar o campeonato brasileiro de longa distância que seria realizado aqui em Fortaleza. Isso seria mais loucura do que fazer o próprio iron. Mas precisava fazer essa prova para fortalecer minha mente. Ela seria a minha maior aliada nesse pouco tempo que tinha. Posso dizer que foi uma das provas que mais sofri na vida. O calor aqui de Fortaleza chegava a 40º e vários atletas desistiam da prova, inclusive de elite. Estava disposto a ir até o fim, custe o que custar. Depois de 6h, 1h depois do meu tempo do ano passado, cruzei a linha de chegada completamente acabado, destruído fisicamente, mas com a cabeça fortalecida.
Enquanto todos já começavam a fazer corridas de 25, 30, 35 km e pedais de 130, 150, 180km, começava tudo novamente. Tracei um plano de fazer o treino de maior distância no dia do ironman. Então meu maior treino foi apenas um de 30km de corrida e um de 160km de pedal. Transições uma vez por semana com distâncias curtas. Meus treinos foram de recuperação, mais me deu um pouco mais de esperança.
Faço o último treino de corrida no dia 26 de maio pela manhã e ao meio dia parto para Jurerê Internacional com minha esposa e filha de apenas 3 anos. No outro dia ia esperar meu irmão Ricardo e amigo Henrique para dividir um apartamento vizinho ao evento.
Na quinta pego meu kit e fico pela feira. O resto do dia fico na varanda, maravilhado com tudo aquilo. Eram atletas treinando para todos os lados. Não faço nenhum treino.
Na sexta o dia amanhece chuvoso. Seria assim durante todo o dia. Quase ninguém nas ruas. O clima do evento desapareceu com aquela chuva. Também não tinha feito nada durante todo o dia. Resolvi então as 18h dá uma corrida. Depois de 1km sinto uma dor enorme na lombar. Dei um grito e paro instantâneo. Meu Deus, não estava acreditando. Tento voltar a correr e novamente a dor. Já estava difícil andar. Volto para casa, faço tratamento e descanso.
Sábado acordo ainda sentindo a dor na lombar. Mesmo com a dor resolvo fazer um giro de 10km de bike para ver como se comportava a dor pedalando. Não senti nada graças a Deus. A tarde levo a bike para o seu local, de onde sairia apenas no outro dia para fazer seus 180km. Resto do dia descanso total. Antes de dormir uma surpresa preparada pela minha esposa e cunhada. Um vídeo com vários depoimentos da família e amigos. Chorei muito de emoção. Não sabia que aquele vídeo iria ser muito importante no outro dia.
Domingo acordo as 4h30 da manhã para fazer a pintura do número, entregar o special nedds da bike e corrida e deixar a bike pronta. Volto para o apartamento para me aquecer. As 6h30 vou para o local da largada. Quase perto de chegar vejo que tinha esquecido o chip. Volto para pegar e sou praticamente o último a entrar na praia. Não encontro mais ninguém. Vou correndo me posicionar do lado mais a direita. Um pouco de confusão na largada por causa do posicionamento e a buzina é acionada.
Natação: Largo junto com a maioria e ao sentir a água gelada e o enorme número de atletas em cima de mim, tenho dificuldades de nadar. Pela primeira vez na vida entro em total pânico. Não consigo mais respirar direito. Tento parar e sou atropelado por vários atletas. Então tento continuar, mais está difícil. Não entra ar nos meus pulmões. Penso logo em desistir e vem na minha mente os depoimentos da noite anterior. Continuo passando muito mal e peço a Deus que me dê forças. Chego na primeira bóia onde tudo piora, pois todos atletas que estavam espalhados se juntam para contorná-la. Ao levantar a cabeça, por um dedo de Deus com certeza, vejo ao meu lado meu irmão Ricardo. Não acreditei. Ele nada muito mais que eu, eu estava lutando para poder nadar e respirar, e chego na bóia justamente ao seu lado. Bato nele duas vezes e nada dele olhar. Então dou um grito enorme e ele olha para trás dando um sorriso. Incrivelmente nessa hora passou tudo. Parecia que eu tinha descido naquele ponto para começar a nadar. Nado muito forte junto do meu brother praticamente até a praia. Finalizo a natação com 1h01min super bem no final. Faço a T1 bem tranqüilo e saio para o pedal.
Bike: Saio para pedalar muito forte. Até chegar a beira mar tenho uma média de 36km/h. Passo inúmeros atletas. Estou muito feliz. Já na volta na beira mar, a favor do vento, vou passar um atleta e ele contra-ataca e vai direto para a minha frente. Nesse momento uma staff em uma moto grita, pare. Pensei que tinha sido para o outro atleta e continuei. Ela fica do meu lado e pede para eu parar. Olhei para ela sem acreditar. Não acredito que ela iria cometer aquele erro comigo. Parei e fiquei esperando ela atravessar a rua para riscar meu número. Perca de precioso tempo. Quebra de ritmo. Tristeza total. Volto a pedalar desanimado e custo a voltar ao ritmo. Perto de chegar na volta dos 90km me sinto bem novamente e volto com força total. Entro na multidão empolgado tentando ver minha mulher e filha. Não consigo ver ninguém. Vou para o special nedds e grito pelo meu número. Passo tudo e nada de ninguém me entregar. Paro depois de todo mundo e fico perdido. O que fazer? Ir embora ou voltar? Não tinha gel suficiente para os outros 90km. Então voltei na contra-mão colocando em perigo quem vinha de frente. Parei no começo do special nedds e gritava para alguém me ajudar e nada. Depois de muito tempo parado alguém veio com minha sacola na mão. Tinha apenas 4 gels e 2 sanduíches. Saí completamente desolado. Mais uma vez foi difícil voltar ao ritmo. E o pior, ainda sabendo que iria perder mais 5min depois que entregar a bike. Então pensei: Não é possível que ainda venha acontecer alguma coisa comigo nesse pedal. E não é que aconteceu? Quando parava de pedalar percebi que a roda começava a frear. Então parei, desci da bike e tentei resolver. Não consegui. Resolvi continuar assim mesmo. Tinha que fazer muito mais força para manter o ritmo. E assim fui até o final. Finalizo a bike com 5h47 super cansado. Pelo menos tive a oportunidade de descansar nos 5min de penalização.
Corrida: Pedi a Deus na saída da corrida que desce tudo certo. Que todo problema tenha ficado na bike. Saio para correr super bem. Mero engano. Depois de 500m sinto a mesma dor na lombar de sexta-feira. Dou um grito de dor e paro na hora. Meus Deus, como ia correr 42km com aquilo? Então coloco a bacia para frente e como a dor era do lado direito, fico fazendo a compensação na perna esquerda. Funciona. Consigo correr sem sentir a dor aguda. Depois de 8km, por causa da compensação, minha panturrilha esquerda não agüenta. Paro novamente para alongar e a dor é grande. Alguém no meio da rua grita para mim: Você é um ironman, continue a correr que a dor vai passar. E foi exatamente o que fiz. Continuei a correr com uma dor enorme e fui testando as pisadas. Sentia menos dor pisando com o calcanhar e assim fui. De tanto pisar com o calcanhar meu tornozelo e minha coxa posterior começaram a doer. Meu Deus, que tanto sofrimento. Mas pensei: Ser ironman é assim mesmo. Todos sentem dores. Sabia que não seria fácil, tinha que continuar. Quando dei a volta dos 21km vi pela primeira vez, desde a largada, minha esposa e filha. Comecei a chorar e me enchi de forças para dá as últimas duas voltas. Sabia que a cada volta eu teria um combustível que era a presença delas. Na última volta não agüentava mais tomar gel. Resolvi passar para a pepsi e senti forte dores no estômago. Toda vez que tomava a pepsi meu estômago queimava. Então resolvi fazer toda a última volta apenas com água. Quando entrei em Jurerê Tradicional não lembrava mais das dores. Parece que sumiu tudo. Era tanta emoção por estar na reta final que parecia que estava fora de mim. Era como se eu tivesse me assistindo. Só vinha na minha cabeça o pensamento da chegada com meus maiores amores. As lágrimas caíam sem parar. Depois de tudo que passei, estava ali perto de ser um ironman. Perto da chegada peguei minha filha no colo e a mão da minha esposa e fui até o final do meu sonho. Cruzei o pórtico em 11h17min sentindo uma das maiores emoções da minha vida. Aquele momento está gravado na minha mente e não vai sair nunca mais. Isso com certeza ninguém pode tirar de mim.
Dedico essa prova principalmente para o meu irmão Ricardo que fez o seu segundo ironman em 10h27min. Muito obrigado pela orientação e ajuda em todos os momentos. Sem você, tudo teria sido mais difícil. Você foi meu anjo da guarda, principalmente na natação. E também para a minha esposa Tatiana, que teve que ficar muitas vezes sem a minha presença.
Então posso dizer para o meu médico: Eu sou um ironman …
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O Dia
Por Marcos Alexandre
Complicado escrever em poucas linhas o que aconteceu numa batalha de mais de 12 h!
É preciso voltar no tempo e perceber que esse sonho começou há DEZENOVE ANOS atrás, sim isso mesmo!
Foi em 1991, Eu então naquela época um estudante universitário com 19 anos resolvi participar de um tal de “short-triatlon” organizado pela perseverante “NAIDA”, da FETRISC, e foi ali no cantinho da LAGOA que tudo começou, eu mal sabia nadar, pedalei com uma “bike” de R$ 50,00 e corri atabalhoadamente pra completar os 5 kms que restavam pra fechar a prova. Pobre Marcos! Mal sabia ele que o futuro lhe reservara um DESAFIO bem maior e exatamente com o dobro da idade que contava à época.
Então muita água rolou desde lá, desde o dia em que ao ver um amigo completando um IRON tive a infeliz idéia de perguntar para o Paulinho se eu tinha condições de fazer o mesmo, e ele respondeu com segurança: SIM VOCE PODE! PRECISA APENAS DE 2 ANOS!
E assim foi que comecei a epopéia que culminou nesse dia de 30 de maio de 2010.
No inicio nem Bicicleta tinha e não nadava há 19 anos, mas achava que sabia correr…
Foram inúmeras noites dormindo pouco, manhãs de pedal na chuva, horas e horas de muito suor na solidão, dúvidas, certezas, angústias, fé e um sonho, sonho de ser um IRON!!!
Pois bem! O Dia chegou!! E lá estava todos aqueles que de uma forma ou de outra fizeram parte desta longa viagem.
Já na escuridão da madruga estávamos reunidos na sala da nossa casa de Praia Eu, minha “IRONWIFE” Priscila, meu Pai (também um vencedor), minha Mãe (sempre zelosa e preocupada) e minha Irmã (guerreira como Eu) Fabi. Últimas palavras de carinho e de apoio, recomendações, conselhos, enfim…
Passavam alguns minutos das 5 horas da madruga e já encontrei meu amigão OSNI, ele também se preparando para realizar esse sonho maluco, trocamos algumas impressões do que sentíamos a poucas horas da largada, e partimos para a “pintura” dos números nas pernas e braços, devidamente “tatuados” fomos para a beira da praia onde no caminho encontramos o Treinador Paulinho que ali mesmo já me ajudou a colocar a roupa de borracha (e que ginástica…rs) , pronto, no caminho ainda encontrei com o companheiro de equipe , PUMA e sua fiel escudeira TUCA, eles também ansiosos pra realizar o sonho de mais esse abnegado triatleta.
Com eles também estavam SABINE (fotografa, jornalista, corredora, team-leader…) esposa do nosso Treinador e minha irmã FABIANA que naquele instante estava agoniada para “sacar” uma foto comigo.
Seguimos então Eu e Puma para linha de largada da natação, empurra daqui, aperta dali e enfim achamos nosso lugarzinho e paramos para ouvir o Hino Nacional, pausa para um sentimento de patriotismo misturado com nervosismo e já ali escorreram as primeiras lágrimas de minha face, impossível conter a emoção, impossível não lembrar do caminho percorrido até ali…..
De repente veio o som da buzina e lá fui Eu correndo em direção a água na Cia. de mais 1649 atletas, nadei tranqüilo escolhi um caminho diferente que me ajudou a não sofrer os esbarrões normais da primeira bóia e segui num ritmo confortável até o primeiro funil onde passei trotando pela praia e onde vi meus familiares e amigos me dando aquela força e ainda consegui escutar a Pri e a FABI berrando: “cuidado com o buraco”, elas se referiam aos buracos formados pela força da maré na beira do mar, segui o conselho e nada sofri ao entrar na água.
A última “perna” da natação fiz num ritmo mais forte e quando já visualizava o Balão da chegada comecei a mentalizar minha transição para a bike.
Sai da água com 1 hora e 10 min! Muito bom mesmo! Trotei tranquilamente recebi mais apoio da família e amigos e fui para a transição.
Seo Edison (sogrão) tava lá e me deu aquela força (é impressão minha ou já tava chorando?…hehehe).
6 minutos depois já estava saindo e pegando a Bike, onde mais uma vez encontrei meu amigo OSNI, me atrapalhei um pouco pra subir na bike e acenar para a Fabi e demais e acabei derrubando a garrafinha de água no chão, mas pronto…. Parti!
O inicio da Bike foi muito legal, passar no meio daquela multidão de gente e ir visualizando aos poucos toda aquela torcida linda que ali estava pra me ver e me ajudar, é de arrepiar, estavam todos lá, tanta gente que eu tenho até medo de esquecer alguém…
Todos com as camisas verdes feitas especialmente para o grande dia ou com as camisas verdes da equipe SPRINT, GENTE VOCES SÃO DEMAIS!!!! (to emocionado aqui escrevendo isso!)….. pausa…pra enxugar as lágrimas….
Amigos que por muitas vezes tiveram que escutar um NÂO á convites para encontros sociais e comemorações, família que teve que meio a contragosto ficar um pouco mais distante de mim no dia a dia e finais de semana, pessoas que meio sem entender tiveram que conviver com um MARCOS diferente, mas que tenho certeza HOJE passaram a compreender o valor que isso tinha em minha VIDA!
Com essa energia eu pedalei como nunca os primeiros 90 kms e no caminho fui encontrando outros amigos, na Beira mar lá estava a Tamara (que quase não me viu) e o QUICK com sua câmera espetacular, encontrei também com a Tia MARISE que parecia se multiplicar estando em todos os lugares durante o trajeto também tirando belas fotos e me dando força.
Ah, também encontrei o XANDE (stud) na Beira mar, companheirão de treinos e que no ano que vem terá meu apoio no seu IRONMAN!
Voltando pela SC 401 na primeira volta tive também a Cia. motorizada do Mestre PAULINHO e Alexandre que de cima da moto me passaram novas instruções e me davam forças paras as subidas mais íngremes!
Quando me aproximava dos 90 km já comecei a pensar que ia rever os “meus” e assim foi já perto da Av. Búzios lá estavam os “verdinhos”, lá estavam Sabine, Dani, Kadinho, Vanessa, Edu, Marta, Marcos Fiorentini, Jô, Jade, Atílio, andréa, Mauro, cláudio….ufa!
Na Curva da volta no caminho do “special needs” (que virou “fashion needs”…????) estavam lá GABI, CAMILA, AMILCAR, CAIO, GABRIEL, MONICA, JUNINHO, TATI (e LUCAS chutando muito!!!), MARCELO, TINA, MARCELA e minha Sogrona Pé quente Dona ELZA!.
Peguei o special needs com a Fabi, deu um oi para minha amada esposa e meus queridos e guerreiros Pais e parti pra segunda volta.
Eu já tava me sentindo meio “estranho”, me sentia meio enjoado e “empanzinado” e olhei para minha barriga e eu tava começando a inchar, fui tirando tudo da sacola e colocando nos bolsos, mas estava em dúvida se conseguiria comer mais alguma coisa.
Na ida pro Centro fui “escoltado” pelo Kadinho e Xande, e na volta também, mais uma vez vi mais alguns amigos, nesta altura o vento já tava mais forte, nos últimos 20 km a chuva começou a apertar e 03 Carbo-gel depois minha Barriga já tava de 4 meses e meio!
Km 175 e eu já sabia que estava próximo de rever VOCES, isso me fazia voar e aumentar o ritmo das pedaladas, dessa vez recebi apoio também dos familiares do PUMA e da Ana Karina, do Pezão, do Fabiano….
Ah, não posso esquecer também dos anônimos, muitos mesmo me aplaudiam e berravam meu nome, como que reconhecendo a vital importância desta energia para um IRONMAN.
Finalizando o Ciclismo mais uma vez encontrei aquela turma, agora encorpada com a presença da minha Tia Graça, meu Tio Max (foi ele que me inspirou a começa correr muitos anos atrás….), agora eu sabia que tinha ultrapassado mais da metade da prova e apesar de sentir muita dor no abdômen e incomodo pelo inchaço sabia que a corrida era a minha “praia”!
Eu tava feliz, não senti dores “fortes” na lombar, minhas pernas ainda me respondiam e agora eu não dependia de nenhum equipamento (bike), só de mim!
A corrida começou a já na primeira passagem pela torcida, vi que mais uma vez novos amigos se juntaram e pude ver meu “pequeno” Dindo Adalberto e sua esposa Roberta, Sandrinho, Fabíola e o seu Nilson e esposa.
De repente escutei : “Vai Neni!…” mas a voz não era da Pri , era a ELIETE, valeu sua FIGURA!!!
Na primeira curva em frente ao “Il Campanario” tive ao meu lado correndo (lembrando os treinos longos) meu sócio e irmão VICTOR HUGO, ele corria ao meu lado e dizia “vamos, vamos, tu tá demais! ” e eu via nos olhos dele lágrimas de alegria!
Na reta passando pelo Posto ESSO estava a família do Puma, mais gritos mais energia!
Na curva da SC 402 ganhei a parceria de uma Xará (Marcos) que veio lá de Alagoas com mais 5 amigos pra fazer o Iron, era até engraçado, eu com calor e ele com Casaco “corta-vento” e sentindo muito frio, chegamos junto na base do morro de Cana-jurê e então ali encontramos a Tia Marise que tirou várias fotos e nos deu mais um empurrãozinho morro acima.
Subimos o primeiro morro (menor) correndo, mas no morro conhecido como “A BESTA” não conseguíamos impor um ritmo e percebemos que caminhar com passinhos curtos e rápidos era mais eficiente e assim fizemos e vencemos aqueles morros todos.
No final da Madre Vilac em Canasvieiras encontrei com o Seu Nelson e o Fernando que vibraram muito ao me reconhecer, enquanto o Alagoano exclamava: – Ó Xente! Sua Família é grande mermo!!!
Voltamos encaramos “A BESTA” e mais uma vez MARISE tava lá, firme e forte, e no caminho já pude visualizar a minha frente o DANIEL CARVALHO, amigo, médico, atleta e confidente de treinos, que lutava pra completar também essa primeira perna de 21 kms.
Avenida dos Búzios mais uma vez, mais uma vez iria ver meus torcedores, a essa altura já tinha dito pro Marcos do Nordeste se “mandar” porque tava num ritmo melhor do que o meu, mas quando me aproximava do Jurere Open Shopping já recebi o apoio do Seu Nilson que só dizia: “Marcos, marcos…esse Marcos…!!!”
E lá estavam ELES de novo, todo mundo berrando , me ajudando, dizendo Vai, vai….eu eu Fui …
Olhei para a esquerda e no meio da multidão pude ver meu amigão FARACO e a ALINE, que num simples olhar me disse tudo…ele foi um dos primeiros a compartilhar esse sonho comigo! VALEUUUSSS!!! PARCEIRO!
Sem perceber passei o Alagoano de novo e o deixei pra trás, e me mandei!
Com “gestação” de 5 meses eu peguei a dica do Paulinho e comecei a tomar PEPSI nos postos de hidratação e esse foi meu “suplemento” dali em diante, me dava uma energia instantânea e auxiliava a esvaziar aquela Pança…o que liberava um pouco mais de espaço para meus pulmões me ajudarem a terminar a prova.
Veio de novo a curva do Il campanario e mais uma vez ele estava lá, Victor, mais uma vez correndo ao meu lado e agora com os olhos ainda mais vermelhos…
Fiz a volta curta de 10,5 km com a Companhia do Paulinho e do Kadinho (de bike) até o ponto em que o Paulinho disse vou lá levar o Puma “para casa”, era isso, naquele instante eu sabia que meu Parceiro de equipe estava terminando e se tornando um IRON!!!
Novamente Av. Búzios, passei meu amigo DANIEL, cruzei com o OSNI no sentindo contrário, me sentia mais tranqüilo, Eles também estavam bem.
De repente surge correndo no Canteiro Central de Jurere, o corredor voador Cassiano, que sorria e como que quase pulando, parecia me admirar e dizia: “marcos…como vc tá bem! Vc tá ótimo!…vamos…! Vindo de um atleta de alto nível como ele (vencedor de do desafio PRAIAS E TRILHAS e outras) isso era mais do que um elogio era uma força propulsora!
Já era noite e ficava mais difícil de ver as “caras” na torcida, passei a escutar apenas e reconhecer aquelas vozes familiares me enchendo de energia e finalizei a volta, faltavam pouco mais de 10 km!
Curvinha do Il Campanario…e quem estava lá ???? Victor Hugo …rs
- Faltam 8k apenas, vamos, você já venceu! (dizia ele)
Nessa hora eu começava a ter a certeza que eu conseguiria, ao mesmo tempo, parecia que cada Km estava se alongandoooooo mais e mais…
Paulinho e Kadinho de bike ia do outro lado do asfalto me dizendo palavras de apoio e motivação, eu ia passando outros corredores, que a essa altura caminhavam, paravam, quebravam… eu seguia devagar mas constante, lembro-me de um senhor que eu ultrapassei e que a cada passada que dava urrava de dores e isso me afetou por uns instantes, mas logo voltei ao foco e pensei apenas na minha prova e nada mais.
Reta da Av. Búzios!!! Km 38! Faltavam apenas 4 kms…só 4!
De repente faltava 3, vi seu Nilson de novo, e mais a frente Kadinho berrou – Faltam DOIS NEGÃO!! ESTICA E DÁ-LHE!!!
Nessa hora juntaram-se a mim, correndo ao meu lado Victor e Marcos Fiorentini, comecei a avistar o portal de chegada, parece que tudo desapareceu a minha volta, as dores sumiram, enchi os pulmões de ar e parti como louco pra chegada, nessa hora dizem meus companheiros, eu já corria abaixo de 5 min por KM!
MEUS DEUS! TO CHEGANDO! Pensava Eu, vi todo mundo, vi tb minha prima Gabi, vi todos, a torcida Berrava MARQUINHO, MARQUINHO!….TIMBA, TIMBA!!!,…me arrepiei todo , senti um orgulho enorme de ter VOCES ali…eu parecia ser O CARA…todo mundo me olhava e o coro da multidão aumentava, eu já não escutava mais minha respiração, só sentiu meu CORAÇÃO batendo forte!
Já me seguiam ao lado, Marta, Marcos, Edu, Vanessa, Victor…..
Peguei na mão da minha maior torcedora, minha companheira, minha super parceira, a mulher que eu AMO e que queria que cruzasse aquela linha do meu lado…e assim foi feito !
EU CONSEGUI !!!! EU SOU UM IRONMAN!!! INEXPLICÁVEL!
Meu sonho se realizou, 19 anos depois, 02 anos de treinos, 20 mil km de pedaladas, outros milhares de corrida, muitas piscinas de nado…muitos chopps a menos, muitos vinhos a menos, muitos shows perdidos, festas interrompidas, almoços em família adiados, Casamentos que não pude prestigiar..enfim….muito foi feito para se construir esse IRONMAN!
E ele não é só meu é de VOCES!
A meus Pais que lá estavam o dia todo sob chuva ou sol e que nessa reta final agarram o meus sonho com fervor, MUITO OBRIGADO!
Ao casal Jr e Tati que cederam sua residência para que todos pudessem ter um QG para dar o apoio que foi tão fundamental! OBRIGADO!
Ao Mestre, com Carinho, MUITO OBRIGADO! VOCE TB É UM IRON!
À minha mana FABI que começa também a da suas corridinhas e que também se mostrou uma guerreira nesse dia, OBRIGADO!
A ELA minha querida NENI, PEQUENA, minha PRI, só posso te dizer simplesmente: TE AMOOOOOOOOOO!
E a todos que estavam lá e que nominei no decorrer deste longo texto, queria poder agradecer a todos um a um pessoalmente, queria abraçá-los de novo, quero poder um dia de alguma forma retribuir …sei lá..MUITÍSSIMO OBRIGADOOOOOOOOO!
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Ironman pela primeira vez
Por Felipe Luís Matos – Brasilia
Em Janeiro de 2009 resolvi começar a treinar para realizar um sonho de fazer um Iron Man, tenho 2 empregos trabalho como Analista Ambiental do Ibama durante o dia e sou professor de Geografia na Rede Pública de Ensino do Distrito Federal a noite. Já tinha uma bagagem de corrida e de natação, mas nunca tinha pedalado de verdade na minha vida. Alguns acharam que eu era louco por ter 2 empregos e ainda querer fazer um Iron Man mas eu sabia que seria possível e o treinador da Ápice Assessoria Esportiva Rodrigo Albuquerque comprou a minha loucura e embarcamos nesse objetivo.
Em 2009 fiz 2 meio Iron Man, um em Brasília e outro em Pirassununga que estavam no planejamento para realizar a prova em 2010.
No fim de 2009 soube que ia fazer uma viagem a trabalho ao Japão, uma oportunidade que não poderia perder de forma nenhuma, mas a única coisa que me preocupava era ficar cerca de 40 dias sem treinar direito para o Iron Man, iria perder o início dos treinos em janeiro e metade de fevereiro, fiquei 35 dias fora. Durante essa viagem fiz somente treinos de corrida, mas não deixei passar nenhum dos treinos passados pelo treinador e olha que era um frio louco lá, cheguei a correr com neve no chão do dia anterior, os colegas que foram comigo me sacaneavam, falavam que eu era louco, mas eu sabia que não podia deixar os treinos de lado sob o risco de comprometer a realização desse sonho.
Voltei ao Brasil e comecei a participar dos treinos para o Iron, treinos durante a semana duros e nos fins de semana treinos longos e cansativos, grande parte deles ao lado de meu parceiro Leonardo Miranda e no final dos treinos Eduardo Martins também se incorporou ao grupo. Descanso somente na segunda, vida social zero, muitas vezes batia dúvidas se iria conseguir fazer a prova e nessas horas ouvia palavras de incentivo que me davam muita força de minha namorada Carla e o incentivo que ela sempre me passava era importantíssimo para a minha moral.
E lá foram várias semanas de treinos, dedicação e a certeza que todo aquele sofrimento teria recompensa no dia 30 de Maio, os treinos foram seguidos a risca só deixei de fazer dois treinos de pedal devido a furos no pneu. Os treinos me deixaram muito confiante e eu sabia que tinha tudo pra fazer uma excelente prova caso tudo desse certo. Devido aos 2 trabalhos fazia sempre meus treinos de pedal ou corrida logo no início da manhã com início por volta das 6 horas e os de natação na hora do almoço, pra se alcançar a glória deve se ter abdicação. Vale aqui também um grande agradecimento ao treinador de natação Marcus Lima e toda a equipe da academia Body Work que preparou treinos específicos voltados para o Iron Man o que fez uma grande diferença no dia da prova.
Saio de Brasília no dia 26 à noite e chego em Jurerê, na quinta pela manhã vamos fazer o treino de natação orientado, nunca tinha nadado de verdade no mar, treino que me deu ainda mais confiança para o dia da prova. Nos dias que antecedem a prova ficava só comendo pra armazenar energia e esperando o grande dia da celebração. Um clima mágico naquele pedaço da cidade o que me deixava extremamente ansioso para que chegasse o grande dia.
Domingo levanto as 4 da manhã e começo a fazer os preparativos para a prova, saímos de casa e vamos para o clube, pintura do corpo, últimos ajustes na bike e aquela força transmitida pela Carla, por meu pai que foi ver a prova também e pelo treinador Rodrigo.
Me encaminho para a largada, tenso, nervoso, mas focado em fazer aquilo que tinha sido treinado, meu objetivo era fazer a prova em torno de 10 horas e 30 minutos. Os momentos antes da largada são mágicos, passa um filme na sua cabeça de toda dificuldade que foi encontrada para estar ali e é muito difícil conter a emoção.
É dada a largada e começa a bateção, empurra empurra em busca de espaço, mas vou nadando tranqüilo e num ritmo bom e tenho uma enorme surpresa quando cruzo o pórtico do clube e vejo que fechei a natação em 58 min e 40 seg, um pouco abaixo do que eu esperava, isso me encheu de confiança para o decorrer da prova, faço a transição tranqüila, durou 5 min e 26 seg e parto para o pedal.
Começo a pedalar num ritmo bom sem me preocupar com quem me passava ou não, estava fazendo a prova por mim e não poderia querer seguir o ritmo dos outros sob o risco de quebrar mais a frente, por volta do km 60 meu camarada Leonardo Miranda me passa, agente conversa rapidamente e falo pra ele partir que ele tem o pedal melhor que o meu e segue a prova. No término da primeira volta a emoção bateu forte ao ver aquele tanto de gente nos esperando, nos incentivando é fantástico e difícil de controlar os sentimentos. Passo e recebo palavras de incentivo da Carla e do Rodrigo e vamos embora. Fiz boa parte do pedal com uma dor de cabeça acho que era o capacete me apertando, junto com a tensão de que acontecesse um problema mecânico ou um furo de pneu, mas graças a Deus nada de grave aconteceu no pedal, somente uma queda da corrente no início de uma subida mas que rapidamente resolvi, além dessa dor de cabeça minhas pernas doíam um pouco o que comecei a achar que poderia me prejudicar um pouco na corrida, termino o pedal em 5 horas e 24 também abaixo do esperado. Faço a transição em 4 min e 26 seg e parto para a maratona.
Logo nos primeiros passos a dor de cabeça e nas pernas somem e sinto um conforto enorme e vem a certeza que iria fazer uma grande maratona, passo pela Carla e pelo Rodrigo e falo: “Agora é a parte que eu gosto” e sigo para a volta de 21 km, na primeira subida tento faze – la correndo, mas na metade vejo que não vale a pena e dou uma caminhada, na segunda subida gigante faço ela toda caminhando porque não vale a pena gastar essa energia sem ter nenhum resultado no tempo, lá pelo quilometro 15 chego no meu camarada Leonardo Miranda e vamos correndo juntos por um tempo, quando passo pela galera e vejo o rostinho da Carla todo emocionado me incentivando me dá mais força ainda pra fazer aquelas 2 voltas que faltavam. Até o km 25 mais ou menos estava num ritmo abaixo de 5 min/km, mas depois ele foi caindo naturalmente, completo a primeira volta de 10 e além da certeza que tive que agora a prova estava terminada veio à certeza de que faria um excelente tempo.
Ao iniciar a última volta a emoção é gigante e a certeza de que todo o treinamento foi excelente e que agora faltava pouco para realizar esse sonho. Quando chego no km 40, fica difícil segurar a emoção, as pessoas aplaudem, tudo que você passou de dificuldades nos treinos vem a cabeça e vejo como valeu a pena ter ido em busca desse sonho, me aproximo do portal e a sensação de dever cumprido é imenso, quando vejo o tempo 10 horas, 15 minutos e 18 segundos vejo que tudo valeu a pena e não seguro mais a emoção, choro que nem menino por ter conseguido terminar e bem o meu primeiro Iron Man, meu pai me grita, tão emocionado quanto eu e a Carla e o Rodrigo também emocionadíssimos vem comemorar juntos essa grande vitória. Não importa o tempo mas todos que se dispõem a fazer uma prova dessa são verdadeiros vitoriosos.
E que venha 2011…..
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Ironman, a segunda vez é ainda melhor
Por Rafael Pina Pereira
Vontade. É preciso muita pra abdicar de tanta coisa em troca de preparação para uma única corrida, mas quem nadou 3800 mts naquele mar maravilhoso, pedalou 180 Km em boa parte da ilha e correu uma maratona ao final do dia sabe o que quer e do que é feito, e sabe que vale cada gota de suor empenhado nos treinos infinitos, cansativos, por vezes solitários, mas recompensadores. Porque tão importante quanto a chegada é o caminho até lá. Como numa escalada, atravessar aquele pórtico num Ironman é apenas a coroação de um esforço pessoal e do seu círculo mais próximo que é único para cada um. Ninguém completa uma prova como essa sem treinar e muito, nem sem apoio dos seus. De acordo com o seu nível, e é o que importa. Amadores ou profissionais, todos querem fazer o seu melhor, aprender mais sobre si mesmos, e seja em 8 ou 17 horas, vão sofrer, ter dúvidas, dores, alegrias e experimentar o êxtase da chegada. O resultado é um número, mas a vitória real é interna, pessoal, intransferível, única, especial e eterna. E esta vitória que todos conquistam é o que torna o Ironman tão fenomenal. Falando nisso, já esgotaram as vagas para 2011. Eu garanti a minha ;-).
Últimos detalhes e largada
Pois bem, chegou a hora, 4:30 da madrugada de domingo. Depois do café da madrugada saímos da casa do Ricardo a pé por Jurerê até o clube 12 . Pintaram os números em mim e segui para a bike, ajeitei o que faltava, chequei a pressão dos pneus e fui pra tenda arrumar as sacolas de transição e vestir o traje de festa. Foi difícil entrar com roupa de ciclismo completa dentro do neoprene, normalmente sempre vou de sunga. Depois disso não resta muito a fazer, então fui embora pra praia pra chegar com calma e aquecer direito na largada. Aqueci, entrei no mar e fui me posicionar no mesmo local pra encontrar a turma. A Daiane e a Laís logo vieram e depois meus pais com o Arthur, aí a Cínthia e mais uma galera que eu infelizmente não consegui ver antes de largar… Uma pequena confusão se armou antes da largada, o povo andou pra fora da área de largada mas foram suavemente conduzidos de volta ao local certo sob ameaças da organização. E aí larguei para o iron 2010, nervoso como no primeiro mas mais metido a besta, já fiquei lá na frente, pronto pra ser esmagado pela multidão.
Natação
A galera se espalhou e entrei no mar bem em frente à bóia. Nadei forte no início, depois mais tranqüilo e fiquei assustado quando vi 34 min na saída pra areia, tomei um gel e segui pra segunda perna. Fiquei fazendo contas e achei que fecharia com 1h04 no máximo, muito abaixo do planejado. Quando saí da água senti uma puxada nas duas coxas, muito estranho pois nunca tenho câimbras na água. Errei a orientação no finalzinho e passei à direita da pedra, junto com um monte de gente. Fora isso, a natação foi perfeita.
T1
Entrei na tenda e os staff não estavam com a minha sacola, fui até onde ela estava e me mandei pra tenda de troca. Fiz uma confusão com o conteúdo da sacola, que não estava separado direito e demorei demais na T1, também troquei o relógio pelo garmin que não sabe nadar, botei o monitor cardíaco e passei um pouco de protetor solar no rosto e braços. Saí só com a roupa que nadei, mas precavido pelas dicas do Luiz Otávio, usei de um material altamente avançado e de eficiência comprovada contra as intempéries: meti uma sacola de supermercado debaixo da roupa no peito. Contrastando com os materiais hightech dos corta-vento ultramodernos, segurou legal o friozinho do início de prova, hehehe.
A troca do relógio causou um problema, pois como não vi o tempo do cronometro até então eu não tinha noção da duração da transição e nem do tempo total de prova depois que iniciei o outro cronometro. Às vezes durante a prova eu tentava perguntar as horas, ou fazia contas botando uma margem de 10 min pra ter idéia do tempo total. Se eu tivesse levado 1 minuto ou 15 nesta transição, não saberia de forma nenhuma dizer a diferença.
Ciclismo
Saí tão tranqüilo quanto possível e controlando o ritmo, mas ia bem rápido. Peguei a SC e tudo começou a fluir muito bem. Foi o melhor pedal que eu já fiz. Alimentei-me bem e corretamente (pelo menos acho que sim), dosei o ritmo sem preocupar muito com a velocidade, e sim com o esforço e ao final da primeira volta estava com uma média que nem em treino de contra-relógio eu fazia. Deixei uma sacola com uma garrafa de carboidrato e uma lata de coca-cola no special needs, mas tive que parar completamente para esperar a staff achar a bendita. Quase deixei pra trás, mas eu queria aquela lata vermelha.
Na segunda volta o ritmo caiu um pouquinho depois que eu senti outras puxadas de câimbra na perna. Não entendi aquilo, nunca tenho câimbras, oras. Fui indo no limite, sem forçar demais mas sem aliviar, só que fiquei preocupado em me aniquilar no começo da maratona e ter que andar 42 km com as pernas travadas. Logo espantei aqueles pensamentos idiotas ao focar no ritmo, alimentação e líquidos. Pedala, pedala. Bebe, come. Pedala, pedala. E aí repete tudo indefinidamente. Quando eu já esperava vento contra pra voltar, continuei indo fácil a 34km/h. Ao contrário do esperado, andava bem e rápido, depois é que vi que o vento virou para um sul fraquinho, mas que muito ajudava as pernas pesadas. Segui até o último retorno no trevo para os ingleses e na volta vim girando solto bem leve, preparando as pernas pra corrida. Também comi o que precisava e bebi bastante.
Esse pedal não poderia ter sido melhor. Bike totalmente perfeita, clima agradável, pouco vento, asfalto muito bom. Vi duas quedas, uma boba no km 60 e outra onde parece que o pneu escapou da roda lá pelo km 130. Vi um monte de gente parada pra apoio mecânico. Teve muita quebra nessa parte, e depois quando começou a chover (eu peguei só uns 10 min já entrando em jurerê) a coisa apertou um pouco. Espero que todos tenham saído ilesos.
Quando entrei na Búzios estava realmente com vontade de correr. No pedal fiquei quase o tempo todo no clipe, a posição não é lá muito agradável, e na segunda volta eu ansiava pelos morros pra poder mudar um pouco de lugar. Então, correr parecia bom. Descalcei as sapatilhas pedalando e quando cheguei para entregar a bike não consegui nem dar um passo direito, fui forçando e em vinte metros já conseguia trotar. Correr não parecia mais tão bom.
T2
Saí tropeçando e encontrei o Rodrigo que estava trabalhando na transição com palavras de incentivo que muito valem nesta hora. Logo cheguei na tenda, enfiei as meias e os tênis nos pés, peguei o saquinho com tudo que precisava e me mandei. Segui trotando e catando as coisas da sacolinha, boné na cabeça, gels nos bolsos, bcaa e vitaminas, sal e redbull. Andei pra beber e depois me mandei controlando o ritmo pois sempre saio forte demais na T2. Tudo levou 3 minutos exatos.
Corrida
Comecei a correr e até o km 8 consegui manter um ritmo de 4:50, aí vieram os morros. Já tinha dores na parte da frente das coxas, a mesma da natação e do pedal. Saí comendo saquinhos de sal e parece que ajudou (placebo ou não, a dor diminuiu). A tentação de subir correndo era grande, mas andei morro acima e soltei o freio morro abaixo, o km chegou a virar 4:30. Encontrei o Marcos, seguimos juntos, fizemos o retorno e ele me passou de novo. Passamos um monte de gente, aí me desgarrei um pouco. Entrando na búzios o público é sensacional e tudo vai mais fácil. Os 21 Km da primeira volta foram completados com 1h49min bem no limiar entre o dolorido e o forte. Indo para a segunda volta a dor tinha sumido, então apertei o ritmo (o que àquela altura já não significava muito) e logo comecei a ter uns nós no estômago. Claramente era do esforço, pois não tinha nada lá dentro pra incomodar, a alimentação até ali tinha sido só gel e água. Segui mais leve e alternando forte e moderado até que a perna voltou a incomodar, comi mais sal e fui administrando. Segui tranqüilo pra fechar os 31,5 km e tocar para a última volta, coisa boa é botar aquela segunda fita nos braços e saber que só falta uma volta. Mesmo sendo 10,5 km ao final de 10 horas, é só mais uma volta ;-). O Aracajú que já estava por lá desde o pedal resolveu me acompanhar em parte da corrida.
No km 32 tentei tomar um gel e não consegui. Taquei mais sal, agora com a intenção de desenjoar mas não resolveu, então descobri as laranjas, comi dois pedaços e parece que ajudou um pouco. Dali em diante foi só coca-cola e água, de vez em quando gatorade. Só administrando. O público incentivava e depois de passar o desvio pra chegada o Aracajú se foi pra avisar a turma. Logo passei pelo meu pai, trotei com ele por um tempinho, até que viu a minha irmã e parou, aí toquei mais uns metros e cheguei no funil. Entramos todos juntos, arrastando o Arthur correndo, depois revezando-o em braços, até o pórtico. Coisa sensacional e indescritível foi chegar com a família toda. O fechamento de um dia feliz e perfeito não poderia ser melhor.
Tive a minha família e os meus amigos comigo a prova toda. Vocês sabem quem são e o quanto foram importantes. Encontrar um rosto conhecido e ouvir um incentivo quando se está mais pra lá do que pra cá, acabado e cansado, ajuda muito. À toda a turma da AndarIlha que ficou torcendo e principalmente ao William que estava com a Rita nos lugares mais inesperados, ao Hélio, Fabi, Taty, e demais que não consegui ver, obrigado. Cínthia e Diogo, obrigado pela participação especial, também ao Charles, Rodrigo e Cansian, à toda a turma da Ironmind que estava lá o dia todo torcendo e fazendo barulho, valeu !
Aos companheiros de treino um grande obrigado pela parceria, em especial ao Rodrigo Lins, ao Marcos, Kilder, Luiz, Ricardo e Alexandre. Valeram todas as madrugadas de domingo na estrada. Ao Roberto Lemos, muito obrigado mesmo. Por usar toda sua experiência e conhecimento para tentar me partir ao meio nos treinos e saber que dali eu sairia mais resistente ;-).
À minha família, Daiane, Laís e Arthur, só com o apoio e compreensão de vocês eu sou viável ;-). Muito obrigado de coração, meus amores. Aos meus pais e meus irmãos, sempre apoiando e lá o dia todo, obrigado por tudo.
Parabéns também a todos que completaram este desafio, aos amigos estreantes que mostraram bravura e fecharam excepcionalmente bem, Cláudia, Ricardo e Kilder e ao Nilson, que completou seu segundo iron com três pneus furados e um mês a menos de treinos devido a um acidente.
Detalhes técnicos
São tantas possibilidades numa corrida tão longa… 226 km, muita coisa pode acontecer, e acontece. A última semana foi cheia de picuinhas. Boto ou não a fita anti-furo ? Pego a roda emprestada com o Éder ? Levar CO2 ? Bomba ? Quantas câmeras reserva ? O que comer, que roupa usar, carregar ou não pneu reserva e ferramentas ? É incrível, mas são detalhes importantes. Se é que serve pra alguma coisa, aí vai o acontecido de fato:
Alimentação: consumi 15 GU gel, 2 garrafas de glicodry dose dupla, 2 gatorade, 2 bananas, 4 bisnaguinhas, 4 mariolas, 1 redbull, 1 coca-cola, muita água e dois pedaços de laranja. Não parece que faltou combustível, e acho que não desceria mais nada pela tubulação.
Bike e etc: rodas normais, sem fita anti-furo. Pneus e câmeras novos. 2 câmeras reserva, 2 cilindros de CO2, 1 pit stop. Sem pneu reserva, sem ferramentas, sem bomba. Bermuda normal de ciclismo, camiseta de prova. GPS e monitor cardíaco, tênis com meia seca.
Percurso: estava difícil manter a distância de vácuo no ciclismo. Aparentemente só tinha fiscalização na baía sul, formaram-se vários pelotões. Uns perdidos ultrapassavam só pra ficar na frente, forçando-nos a ultrapassá-los de novo. A corrida foi normal, e a natação ou foi mais curta (improvável) ou muito ajudada pela correnteza.
Motivação
Não consigo não pensar no que é que motiva não só a mim, mas a um bando desse tamanho a mover mundos e fundos, revirar as agendas, gastar os tubos, treinar feito loucos, tudo pra estar naquela linha de largada. É preciso estar lá pra ver e pra sentir. Se você não sabe do que estou falando, anote aí na agenda: 29/05/2011. Vá lá ver a largada, fique por lá nas transições, veja o campeão chegar e os últimos completarem a prova. Garanto que você não sairá indiferente. E se já for pra lá consciente do perigo, por estar a caminho da perdição, empolgado com aquilo tudo, prepare a carteira e fique atento no dia seguinte, porque este ano as inscrições acabaram em dois dias.
Sobre este tema, os melhores textos que vi hoje vieram do Blog do Ferreira e do TrilhasBR, não deixem de conferir. Ambos, mesmo que ainda conhecidos virtuais, acabaram me achando por lá. O Ferreira me filmou na chegada – não sei como é que conseguiu estar tão no lugar certo e na hora certa. O Peixoto acabou publicando uma foto de chegada que diz muita coisa. Novos amigos, valeu.
Resultados
SWIM BIKE RUN OVERALL RANK DIV.POS.
1:03:37 5:37:20 3:49:49 10:40:04 324 87
T1: SWIM-TO-BIKE 6:18
T2: BIKE-TO-RUN 3:00
A natação saiu muito rápida, na hora não entendi mas depois vi que todo mundo fez tempo mais baixo que o esperado. Acho que o percurso paralelo com corrente a favor ajudou. A bike foi a melhor de todos os tempos, bem focada, muito rápida pros meus padrões. A corrida saiu justa na previsão e depois vi que foi a minha melhor maratona, mesmo com morros e 180 km nas pernas. Esse negócio de treinar funciona mesmo.
Previsões
Só existem realmente pra provar que são previsões. A semana toda a previsão previa catástrofe climática, o pior era a Epagri, com previsão de ciclone com ventos de 80 km/h, temporais e raios. Troquei sms, email e telefonemas com a Cláudia até na quinta, depois desistimos. Aprendemos que São Pedro é Triatleta. Ou gosta muito deles, pois se a previsão se confirmasse, teríamos problemas, mas foi tudo tranquilo a menos da chuvinha leve.
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Eu vivi e vivo o sonho
Por anônimo
De início, para a maioria, eu aceitar a vaga pareceu um ato de empolgação, ou talvez apenas de curtição, mas para mim foi o marco de uma nova fase na minha vida.
Desde 2005 quando me formei e comecei a trabalhar em tempo integral o triathlon se tornou uma ansiedade em meus dias. Sempre gostei muito de treinar, mas infelizmente na prática os treinos se tornaram uma atividade de fim de semana. Eu trabalhava a semana inteira, lendo, acompanhando e assistindo triathlon e me programando para nadar, pedalar e correr aos sábados e domingos.
Durante estes longos 5 anos participei de muitas provas, na maioria delas por teimosia, tentando mostrar a mim mesmo que era possível me manter ativo e competindo apenas treinando nos finais de semana. Na prática é lógico que eu estava errado e enganado, e em pouco tempo completar um simples short triathlon se tornou algo dolorido e muito desgastante, até que ao final de tudo me vi fora das provas, morrendo de vontade e inconformado de não mais fazer parte do time dos “atletas em atividade”.
Quando fui sorteado pela Fetrisc fiquei muito surpreso e apreensivo, pois me contava fora do sorteio e fora da “disputa” pela tão querida inscrição.
Num único segundo de respirar fundo, sonhar e acreditar, aceitei a vaga e tomei o desafio de voltar a ativa de forma muito ousada, encarando meu primeiro ironman.
Foi um final de semana de furor e alegria, pois faziam 5 dias que eu tinha vendido minha bicicleta e decidido a entregar aos pontos oficialmente ao sedentarismo, e de repente eu iria ao Ironman. Depois de 3 dias eu estava com bicicleta nova, havia retomado o compromisso de “atleta” com meu ex-treinador, amigo e incentivador, pois me sentia pronto a entrar nessa jornada com destino ao meu primeiro Ironman.
Tive que fazer uma nova adequação profissional e pessoal de forma que eu pudesse treinar ao menos uma modalidade por dia e em fevereiro iniciei minha readaptação ao treinamento.
Foram 4 meses muito difíceis, tentando manter a continuidade dos treinos, o que na prática não andavam muito bem, mas a cabeça estava boa e determinada mais do que nunca, eu completaria a prova.
Admito que de inicio meu corpo não respondeu bem a esse novo velho estímulo, quando eu treinava meu corpo relutava em aceitar essa nova rotina. Em abril competi um meio ironman para testar os ponteiros, e a experiência não foi a ideal, mas foi produtiva. Percebi que nem tudo eram flores, sorrisos e festa do ironman teria um alto preço, mas a jornada continuava.
O tempo passou voando e de repente me vi em Jurerê dia 28/05, com todas as minhas bugigangas no carro com a pretensão de ser um futuro Ironman.
Diferente de muitos discursos e comentários que sempre ouvi na cidade ironman, meu coração não era só ansiedade, minha cabeça não era um filme e eu não era um homem emoção.
Estava estranhamente apático, desconfiado e muito, mas muito preocupado, pois estava frente a frente ao ironman, o dia em que dizem que a linha entre o céu e o inferno são quase paralelas.
Ao contrário de tudo o que passava, domingo acordei cedo, despreocupado e empolgado com o clima de “vou curtir meu ironman”, sentia que um grande passo estava a ser tomado e conquistado, e que eu estava pronto a fazer aquilo a qualquer preço.
Até largada fiquei muito apreensivo, sem saber como seria aquilo tudo do lado de dentro, e após o tiro de largada me senti entrando em um playground aos 5 anos de idade.
Eu queria andar de todos os brinquedos o quanto antes possível, participar de tudo e falar aos meus amigos o quanto aquilo tudo é maravilhoso.
Durante a natação foi tudo alegria, larguei no meio da “pipoca” e me diverti muito com o clima de festa e motivação, fiz o retorno na praia no maior clima de caravana, tirei foto na segunda bóia e sai da água como um sorriso na alma.
Peguei a bike e sai rumo ao melhor percurso de city tour da minha vida, 180km de incríveis momentos ao lado de amigos e muitos estranhos que pareciam amigos de infância curtindo um gol da seleção a cada km.
Coisas boas e coisas ruim aconteceram, vivencia que nem tudo é um mar de rosas, e meu primeiro ironman não foi diferente. Encontrei o bichinho da fome, o terror do vento contra, o cansaço nas costas e as todas aquelas coisas que fazem a gente refletir o preço da conquista. Mas, como disse o lendário Lance Armstrong: “desistir nunca foi uma opção” e para mim também não seria. Não ali, não naquele momento.
Devolvi minha bike na T2, revi muitos amigos, ouvi vários gritos de motivação e mais uma vez senti as pernas tremerem, tremerem de alegria e emoção.
A corrida sempre foi meu ponto fraco, minha dificuldade e meu grande medo no ironman, mas quando sai da T2 correndo firme, me sentindo flutuando e vendo todo o furor dos que ali assistiam e gritavam por mim a realidade surgiu. Fui tomado por uma emoção enlouquecedora, o “famoso filme ironman” passou em minha cabeça e cai na realidade do desafio. Ali chorei, chorei de alma, de coração, de emoção.
Naqueles primeiros 21km tenho certeza de que não foram os melhores, mas foram os mais felizes quilômetros de corrida de toda minha vida.
Me sentia forte, feliz, completo e realizado. No seguir dos quilômetros vi minha energia acabar aos poucos, próximo ao km25 eu estava esgotado, sem energia, de tanque vazio, e ao mesmo tempo feliz, realizado e apaixonado, aquilo ali não fazia mais diferença, eu só queria cruzar a linha de chegada, as dificuldades eram apenas detalhes e passos do caminho.
O ultimo quilômetro foi o mais fácil, pois não precisei correr, sentia meu corpo flutuando aos gritos dos amigos, tomado por uma energia superior que vinha de dentro da alma, algo que eu não podia controlar apenas curtir. O tapete vermelho foi o presente do dia, e o aperto de mão do staff na linha de chegada a melhor recompensa pelas 11h43 de desafios que percorri desde a largada. O som saindo das caixas soando: “sorria, You are an ironman” não tem preço mesmo.
Eu vivi o sonho, a realidade e a felicidade ! Eu sou um Ironman !
E espero em 2011 estar de volta lá, as 7h da manhã, ao lado dos amigos para enfrentar de novo este desafio pessoal e espiritual…
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Homem de ferro e coração derretido
Por José Eduardo Osias Coimbra
No dia 26 de Maio de 2010, a Angela, o Lucca e a Laura partiram para o sul do País rumo ao sonho do Papai, eu, Zé Eduardo, um atleta amador de 42 anos que iniciou no esporte aos 3 anos de idade. Durante todo o trajeto pensava na prova, no desafio, no sonho da linha de chegada. Em alguns momentos partia do banco traseiro do carro um gritinho: “Papai, você está me ouvindo? Estou falando com você!” Graaaande mancada, mais uma bronca.
Chegando em Floripa a ansiedade aumentou, a cidade respirava esporte com 36 países representados, havia mais bikes nas ruas do que carros… Fiquei morrendo de vontade de colocar minha roupa e sair para treinar, sabia que se fizesse um “quebra gelo”, um trotezinho meia boca, eu já me acalmaria. Mas não! Lembrei do meu técnico que me disse várias vezes: “Edu, o descanso é total nos três dias que antecedem a prova, você tem que acumular energia, não se impressione com o treinamento dos outros competidores etc, etc, etc”. Foi difícil, mas consegui ficar parado todos esses dias comendo basicamente macarrão, atum, queijo fresco, e geléia.
Chegou o grande dia. Consegui dormir até às 3 horas da matina, levantei e fui logo fazer a barba… queria sair bonito nas fotos, preparei minha alimentação pré-prova e mais alguns detalhes finais, e às 5 horas em ponto fui ao encontro do meu técnico e colegas. A cidade já estava muito movimentada, faróis de carros nos dois sentidos, agitação total.
Quando o local da largada foi se aproximando, meu coração ficou mais agitado. Iniciamos todo o ritual de troca de roupa e conferência dos últimos detalhes. Os alto-falantes anunciavam a contagem regressiva para a largada… fomos para a praia. Ainda estava escuro. Hino nacional e o anúncio da diretora da prova: “Senhores atletas, dentro de instantes será dada a largada do IRONMAN BRASIL 2010 e, conforme nosso contrato com a natureza, o Sol acaba de nascer no horizonte bem à nossa frente” Não me contive e fui às lágrimas, não acreditando que aquilo estava acontecendo. Pensei comigo: “Já vi esse filme por repetidas vezes, só que dessa eu estou fazendo parte” Nos abraçamos, amigos e treinador, e choramos. Rezei! Pedi proteção, força, sabedoria e inteligência na condução da minha prova.
Largada dada!!!!! Muita trombada, coices, tapas, etc. A impressão que dava era a de que não havia mar para tanta gente, os primeiros 20 minutos foram de paciência em buscar uma posição mais adequada e ritmo. Meu objetivo era terminar os 3800 metros de natação em 1h:20min. Tive bastante calma, economizei energia e quando sai da água e olhei para o relógio… 1h:09min. Pensei comigo: “Maravilha!!!!! Vamos para a bike! Transição feita, agora são 180km de pedal”.
Em cima da magrela passei 6 horas, pensei em tudo e todos. Ritmo encaixado, frequência cardíaca baixa, começo a cantar, isso mesmo, a cantar literalmente revendo todos os episódios que antecederam a prova. Logo na primeira grande subida comecei a chorar lembrando das pessoas, dos treinos, das grandes subidas pelas quais passei na fase de treinamento, e continuei cantando, chorando e subindo, subindo, subindo sem me cansar… Minhas pernas estavam muito fortes. No final da primeira volta de 90km mais emoção, logo na entrada da cidade estavam lá a Angela, o Lucca e a Laura acenando e gritando: “vai Papai, força!!!! ” Que emoção!!! Meus Pais, Tios, Primos, Irmão, Cunhada, sobrinho e amigos também.
Iniciei a segunda volta de 90km, sem dores e com o espírito renovado pois havia encontrado todos os meus familiares. Hora da concentração e de executar o planejamento que inicialmente previa uma bike um pouco mais forte na segunda metade, já que a primeira tinha como objetivo me dar mais confiança e conhecimento do percurso com seus perigos. Entretanto, nesse momento, mudei minha estratégia, resolvi manter a mesma cadência da primeira volta e terminar o pedal em 6 horas, ou 30km/h de média. Eu precisava economizar energia, nunca havia feito uma maratona após 180km de bike e 3,8km de natação, e fiquei com a convicção de que minha decisão me traria boas surpresas.
Outra transição, troca de roupas e vamos para a maratona, 42km! Lembrei do meu treinador: “Edu, comece devagar, ensinando seu corpo a se acostumar com a troca de modalidade”. E assim foi, 1km, 2km… 6km e eu já estava totalmente adaptado a corrida, não sentia dores, cansaço e meu ritmo estava encaixado de forma surpreendente. Minha confiança aumentava a cada metro e a amplitude das minhas passadas também. Minha velocidade aumentou, comecei a ultrapassar outros competidores, alguns já estavam sofrendo, andando e flexionando o tronco na direção dos joelhos já evidenciando algum cansaço. E eu seguia firme, naquela batidinha, me sentindo cada vez mais forte, tão forte, tão forte, que quando terminei a primeira volta de 21km aconteceu um dos momentos mais emocionantes da prova para mim, depois de beijar a minha Mãe, eu parei, abracei meu Pai demoradamente e chorando disse-lhe, entre outras coisas, ao pé do ouvido: ” PAI… ACABOU, EU SOU UM IRONMAN! “. Mesmo faltando mais duas voltas de 10,5km eu já tinha a certeza que o desafio estava vencido, tamanha era minha confiança, força, fé em Deus e principalmente alegria. Quando deixei a bike eu estava na colocação 959 ( havia exatos 1626 participantes), fiz a corrida e terminei a prova na posição 717. Ultrapassei 242 atletas só na maratona! Muito bacana!
Na última volta de 10,5km a emoção foi plena, chorei quase ela todinha, cumprimentei e agradeci ao público, a gentileza dos voluntários que trabalharam na organização do evento e segui rumo ao pórtico derradeiro.
Já era noite, clarão adiante, faltam 500m: “Cadê a Angela, o Lucca e a Laura, minhas vistas estavam embaçadas, o sacrifício maior foi deles, cadê, cadê, cadê?” Foi então que apareceu na minha frente meu filho Lucca gritando: “Papai, Papai, Papai!!!!” Noooooossssa! Entramos todos juntos na arena e nos abraçamos de joelhos após a linha final. Indescritível a emoção!

Zé Eduardo e sua família
O Ironman me fez uma grande revelação, que na verdade acho que já estava no meu coração. Essa prova não foi feita para que os competidores busquem inconsequentemente seus tempos e metas como único fim, ela deve ser contemplada e degustada na mesma proporção em que é bela e mágica, não merecendo ser agredida com a dor e o sofrimento dos atletas.
Fundamentalmente estive lá com este propósito, celebrando a minha saúde e a oportunidade divina de tê-la, a minha paixão pelo esporte e o meu amor pela minha família e amigos. Esse Ironman, de forma muito intensa me possibilitou tudo isso e muito mais. NÓS VENCEMOS! E foi com esse espírito que terminei a prova. As pessoas olhavam para mim com a impressão de que eu ainda não havia passado sequer pela linha de largada.
Fechei meu primeiro Ironman em 11h42min, mas isso pouco me importa, aprendi que o mais importante é o atleta nutrir-se da energia que ele carrega, realizando e concluindo a prova de forma FELIZ.














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