O futuro do triathlon olímpico brasileiro, parte 5: Juraci Moreira

21/05/2010 por Enviar por e-mail Imprimir
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Na quinta entrevista da série “O futuro do triathlon olímpico brasileiro”, tivemos um bate papo com o grande Juraci Moreira, maior atleta olímpico do triathlon brasileiro. Jura, como é chamado, participou dos Jogos de Sydney (2000), Athenas (2004) e Pequim (2008), onde foi o melhor colocado entre todos os laino-americanos na 26ª colocação. O atleta busca agora sua quarta participação em Londres, 2012. Muitos experiente, Juraci viveu boa parte da realidade do triathlon brasileiro nos últimos anos, e sabe, como poucos, o que acontece nos bastidores. Vamos fazer uma breve interrupção na série devido à cobertura especial do ironman Brasil 2010, mas retornamos daqui duas semanas.

Juraci saída do mar by 600x400 O futuro do triathlon olímpico brasileiro, parte 5: Juraci Moreira

Foto: Alexandre Carniere

MundoTRI: O Brasil não teve o desempenho esperado nas últimas Olimpíadas e o mesmo aconteceu nos últimos mundiais de triathlon. Na verdade, temos levado cada vez menos atletas nesses eventos. Você atribui esses resultados a algum fator especial?

Juraci Moreira: Acho um pouco injusto falar que não tivemos resultados esperados. Nas últimas três edições dos Jogos conseguimos levar representantes do Brasil, o que já é respeitável. Na minha visão, na estréia do triathlon como modalidade olímpica em Sidney 2000, o Brasil teve um resultado excelente, com a 11ª posição de Sandra Soldan, o 14º lugar de Leandro Macedo e a minha 22ª posição, prova que tinham os 50 melhores triatletas do mundo. Já em Atenas 2004 realmente as expectativas eram melhores do que os resultados alcançados, tivemos uma prova dura e ruim para todos os brasileiros que correram, mas mesmo assim com um 31º lugar de Leandro Macedo e um 34º lugar de Paulo Miashiro, que em olimpíadas não são resultados ruins. Em Pequim 2008 tivemos uma grande dificuldade de classificação se comparada com Sidney e Atenas, e na prova não tivemos o resultado esperado de Mariana Ohata e Reinando Colucci. Eu consegui finalizar na 24ª posição ente 55 atletas que largaram, resultado que considerei muito bom, devido a todo problema que tive em classificar e chegar em boa forma no dia da prova. Mas entendo que todos esperam melhores resultados em provas importantes como essas e eu como representante desses três últimos grandes eventos sei da minha responsabilidade e da minha função como um motivador para o crescimento efetivo do esporte no país caso conquistemos uma medalha olímpica. Posso garantir que me esforcei ao máximo nas três olimpíadas que participei para trazer o melhor resultado para o Brasil, mas também sei como poucos no Brasil a dificuldade que é disputar uma prova olímpica onde todos os melhores atletas do mundo se encontram no melhor de suas formas físicas e todos atrás de um mesmo objetivo e sonho, a conquista da medalha.

MundoTRI: Como você vê o cenário do triathlon olímpico brasileiro atualmente? Alguma aposta para 2012?

Juraci Moreira: Estou contente com a quantidade de atletas disputando provas da ITU e tentando marcar seus pontos para o ranking mundial, porém sei que para Londres 2012 teremos a mesma dificuldade de classificação que encontramos para Pequim 2008, hoje o nível do triathlon mundial está muito forte e cada vez mais talentos surgindo e elevando o nível das provas, ano passado alguns atletas passaram a correr os 10km da prova abaixo dos 30’, na casa de 29’ e quem já correu para 30’, 31’sabe o quanto é duro fazer uma corrida nesse ritmo, o que vai deixar a zona de pontuação em provas válidas para o ranking olímpico muito apertada, já que temos a % de classificação, onde você só pontua se acabar a prova até 5% do tempo do primeiro colocado. Temos que cuidar com a empolgação em cima de bons resultados alcançados em provas da Continental Cup , Sul-americanas e Pan-americanas, são boas provas para se iniciar na ITU, ganhar ritmo de prova e experiência internacional, mas a realidade é muito diferente de uma prova válida pelo ranking olímpico , onde só se pontua nas provas de Copa Do Mundo e WSC a partir do segundo semestre do ano, com os resultados dos brasileiros nessas provas que poderemos analisar melhor as chances do Brasil para Londres 2012.

Mas vamos aos nomes que acredito:

Feminino teremos a experiência da Carla Moreno, a juventude de Pâmela Oliveira e a força da Vanessa Gianinni e uma aposta que até pouco tempo era chamada de triatleta amadora Flávia Fernandes, minha companheira do Clube Pinheiros e pelo que já vi treinando acredito muito nesse nome para o futuro do triathlon feminino. Acho que as vagas ficarão entre esses nomes e no masculino temos Reinaldo Colucci como grande nome em qualquer seleção e vindo para brigar Diogo Sclebin, Bruno Matheus, e meu nome, já que esse é meu objetivo, chegar à quarta olimpíada.

MundoTRI: E no cenário de longa distância e de competições curtas sem vácuo?

juraci 2010 14 O futuro do triathlon olímpico brasileiro, parte 5: Juraci Moreira

Foto: Alexandre Carniere

Juraci Moreira: Esse cenário acho o Brasil muito forte e uma potência mundial. Em provas sem vácuo curtas temos Paulo Miashiro e Fábio Carvalho que brigam pelas vitórias em qualquer prova do mundo e aqui no Brasil dominam, e Carla Moreno e Vanessa Gianinni. Já em provas longas de 70.3 até Ironman temos o talento de Reinaldo Colucci que acredito muito que ainda vá vencer o Ironman Brasil e ser top 10 no Havaí, e nesse tipo de prova de novo temos Fábio Carvalho e Santiago Ascenço que deve surpreender esse ano no Ironman daFlórida. No feminino Vanessa Gianinni, que ainda não estreou em Ironmans, mais já mostrou que é muito resistente e forte em 70.3 e creio que vá surpreender a todos quando for para o Ironman. E sem esquecer dos nossos ídolos Fernanda Keller e Alexandre Ribeiro, maiores representantes em provas longas de todos os tempos.

MundoTRI: Qual a principal diferença que você vê das Olimpíadas passadas para a próxima para os atletas brasileiros do triathlon?

Juraci Moreira: Vejo, por estar acompanhando de perto, que o nível encontrado nas provas é cada vez maior, o profissionalismo dos países muito maior e a maneira de se treinar cada vez mais intensa. Percebo um maior investimento por parte da CBTri para a formação das seleções e para financiamento das viagens e acredito que na média todos os atletas estão contando com uma melhor estrutura oferecida por clubes, patrocinadores, federações, governos, a até as Forças Armadas que formou um super time e está ajudando muito a nós atletas. Então vejo uma melhor condição geral para todos os atletas brasileiros.

MundoTRI: Alguns atletas brasileiros acabam caminhando para o circuito Ironman e o Troféu Brasil devido à maior exposição na mídia e a possibilidade de angariar mais patrocínio. Como você vê o impacto disso no desenvolvimento dos triatletas olímpicos brasileiros? (vale lembrar que grandes triatletas internacionais, após começar no Ironman não conseguiram mais se manter no mesmo nível na distância olímpica.)

Juraci Moreira: A busca de patrocínios e maiores premiações para que o atleta possa viver do esporte é um detalhe que realmente pode comandar a carreira de um atleta e fazer com que um talento que poderia ser um grande representante numa olimpíada nem chegue a tentar a vaga por motivos financeiros, mas pegando meu caso como exemplo, posso afirmar que após você ir a uma olimpíada, ser um atleta olímpico muitas portas se abrem e ter um bom patrocínio se torna mais fácil, muitas empresas e clubes voltam seus investimentos em marketing no esporte olímpico em anos de olimpíada e é aí que temos a oportunidade de fechar bons contratos. Então entendo que possa momentaneamente ser mais vantajoso correr provas no Brasil, fazer provas do circuito ironman e 70.3 para buscar um retorno financeiro melhor, mas posso afirmar que ser um atleta olímpico e trabalhar bem esses momentos abre muitas oportunidades de bons e duradouros contratos de patrocínio, fora o uso eterno da sua experiência olímpica.

MundoTRI: Tivemos alguns episódios recentes de doping no atletismo, no triathlon e em outros esportes. A CBTri tem realizado poucos exames nos atletas. Como você vê essa situação?

Juraci Moreira: Sempre um assunto delicado e polêmico, o Triathlon comandado pela ITU acho que é limpo, sem grandes casos de doping e isso devido ao controle severo e continuo, participo do Circuito Mundial de Triathlon da ITU desde 1998 e nesses 12 anos nunca deixei de ser testado ao menos 01 vez ao ano em provas ou testes surpresa. Nos anos olímpicos fui testado ao menos 03 vezes durante o ano e já tive ano que fiz 05 exames em diferentes ocasiões e durante os Jogos muitos atletas que estão na Vila Olímpica são pegos para fazer o teste e caso suba ao pódio ira fazer teste novamente. Então acredito que o triathlon é bem controlado mundialmente, já no Brasil, internamente, poderíamos ter mais testes em provas nacionais, e testes surpresa, que pega o atleta em época de treinamento, mas conheço o alto custo dos exames e entraves burocráticos que fazer os testes envolvem para organizadores de provas e entidades, isso dificulta o trabalho de controle interno aqui no Brasil, mas fico tranquilo que pelo menos nas provas da ITU esses atletas com certeza serão testados ao longo de sua carreira. Desejo que o mesmo controle realizado pela ITU passe a ser feito nas provas do circuito Ironman, onde sei que ainda é muito pouco controlado e performances incríveis em provas tão duras como essa sempre são suspeitas sem o controle adequado.

MundoTRI: Em sua opinião, como deve ser a preparação de triatletas brasileiros para 2016?

Juraci Moreira: A CBTri está no caminho certo, nunca fui a favor dos centros de treinamento que a CBTri mantinha em Vila Velha-ES e felizmente isso foi extinto e novos centros estão em estudo, acho fundamental identificar os talentos espalhados pelo Brasil e dar condições desses talentos serem trabalhados pelos sues descobridores, técnicos e treinadores que conhecem o atleta desde o seu início, e ter uma comissão técnica da CBTri avaliando e trabalhando em conjunto com esses treinadores para analisar a evolução e poderem traçar metas de longo prazo, dar condições à esses atletas de competir em provas internacionais desde cedo e contar com um incentivo financeiro, já que um dos motivos que mais vejo atletas de talento abandonando o esporte é a falta de algum tipo de remuneração. Realizar intercâmbio seja de atletas e treinadores, training camp, isso tudo motiva e gera a vontade do jovem atleta se tornar um atleta olímpico.

Juraci comemora by Alexandre Carniere  600x400 O futuro do triathlon olímpico brasileiro, parte 5: Juraci Moreira

Foto: Alexandre Carniere

MundoTRI: Arriscaria algum nome (masculino e feminino) para o Rio 2016?

Juraci Moreira: Dos novos talentos que o Brasil possui não conheço os atletas para poder indicar, mas não achem que teremos só novos nomes, falavam isso em Sidney 2000 sobre Pequim 2008, e acabou que tivemos só o Reinaldo Colucci de novidade, então posso afirmar que ainda teremos em 2016 alguns mesmos atletas da lista para Londres 2012 brigando pela vaga na Olimpíada do Brasil. Até eu gostaria muito de encerrar a carreira numa olimpíada no meu país, os jovens talentos que se cuidem, que eu, Reinaldo, Bruno, Diogo, Pâmela, Flávia, Vanessa não vamos dar moleza não!

MundoTRI: Tivemos um problema enorme na 1ª Etapa do campeonato Brasileiro de Triathlon, como relatamos aqui no site. Qual sua opinião sobre o ocorrido e a melhor forma de resolver a questão?

Juraci Moreira: Lamentável os problemas em provas que deveriam ser as melhores do País, o Campeonato Brasileiro de Triathlon da CBTri é muito pouco valorizado e esses erros de organização e conduta só pioram a situação. Acho que deve ser prioridade da CBTri mudar esse quadro, pensar e trabalhar para valorizar o Campeonato Brasileiro e tornar a prova mais popular do esporte no país. Que tenha recorde de atletas inscritos, recorde de premiação e lógico recorde de boa organização e tratamento exemplar para os consumidores do esporte, os atletas amadores. É simples, só pegar os exemplos positivos das grande provas realizadas no Brasil por organizadores independentes, como Troféu Brasil, Ironman Brasil, Circuito Nacional Sesc. Se tirarmos lições de sucesso desses eventos podemos realizar a melhor prova do Brasil e todos ganham com isso.

Outras entrevistas da série:

- O futuro do triathlon olímpico brasileiro, parte 1: Lauter Nogueira
- O futuro do triathlon olímpico brasileiro, parte 2: Marco La Porta
– O futuro do triathlon olímpico brasileiro, parte 3: Rosana Merino
– O futuro do triathlon olímpico brasileiro, parte 4: Sandra Soldan

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