O futuro do triathlon olÃmpico brasileiro, parte2: Marco La Porta
Continuando a série de entrevistas sobre o futuro do triathlon olÃmpico, conversamos com o Diretor Técnico da CBTri, Marco Antônio La Porta. La Porta tem uma dos trabalhos mais difÃceis e desafiadores do triathlon nacional. Em qualquer esporte, há crÃticas e pontos de vista contrários, vide nossa seleção de futebol (você provavelmente não convocaria os mesmos jogadores que o técnico). Marco, além de lidar com essas crÃticas, ainda precisa cuidar do dia-a-dia da direção técnica da CBTri e planejar o futuro do triathlon olÃmpico brasileiro. Sempre solÃcito, La Porta nos deu a oportunidade de enxergar o ponto de vista da CBTri, com muitos desafios que a maioria desconhece.
MundoTRI: Qual seu histórico no esporte/triathlon?
La Porta: Bem, meu primeiro contato foi em 1994, em Salvador, quando um amigo me pediu que o ajudasse pois ele estava iniciando no triathlon. Eu era recém formado e não tinha muita noção de como fazer. A literatura era escassa e não havia internet naquela época. Para minha sorte havia feito uma pós em treinamento no ano anterior e assim fui colocando em prática os conhecimentos adquiridos. A entrada definitiva mesmo no triathlon foi em 2000, quando o Ministério da Defesa criou o Campeonato Brasileiro de Triathlon nas Forças Armadas e o Exército precisava de um técnico. Na época eu era instrutor de planejamento do treinamento e treinamento fÃsico desportivo na Escola de Educação FÃsica o Exército. Fui convidado e aceitei.A partir daÃ, o triathlon tomou conta do meu dia a dia. Estou á frente da equipe militar há dez anos e desde 2005, a convite do Presidente Carlos Fróes, passei a colaborar com a CBTri. Inicialmente na coordenação decursos e desde o ano passado, com a entrada do Prof. Antônio Carlos Gomes na coordenação técnica, eu passei à s funções de Diretor Técnico.
MundoTRI: O Brasil não teve o desempenho esperado nas últimas OlimpÃadas e o mesmo aconteceu nos últimos mundiais de triathlon. Na verdade, temos levado cada vez menos atletas nesses eventos. Você atribui esses resultados a algum fator especial?
La Porta: O triathlon é o esporte que mais evolui no mundo. Por ser novo, ter apenas dez anos como esporte olÃmpico, as pesquisas cientÃficas demoraram a acontecer. Antes eram muito voltadas para o Ironman. Nós dormimos no ponto e não evoluÃmos junto. O próprio critério de classificação para as OlimpÃadas mudou radicalmente depois de 2004 e os brasileiros não acordaram para este detalhe. Hoje, para se classificar para os JO, precisa estar competindo na Europa, nas grandes provas. As Copas Continentais, que antes contavam pontos para o ranking olÃmpico, não contam mais. Elas são apenas um trampolim para as grandes provas. Os atletas não podem se iludir com resultados continentais e achar que está tudo bem. Para ser forte, precisa estar ao lado dos fortes, competir e treinar com eles. Falta isso, acostumar desde cedo o atleta a competir e treinar forte. De 2000 a 2004, esquecemos da base, trabalhamos mal. Por isso nos falta, hoje, a renovação. TÃnhamos uma geração maravilhosa com Carla, Sandra, Leandro, Mariana, Juraci, Shiro, Virgilio, etc, que estavam sempre entre os primeiros na ITU. Cuidamos deles e esquecemos da base. Estamos pagando o preço por isso.
MundoTRI: Como você vê o cenário do triathlon olÃmpico brasileiro atualmente? Arriscaria algum nome (masculino e feminino) para Londres?

La Porta: A preparação para 2016 já está atrasada. Deveria ter começado há dois anos atrás.
La Porta: Eu vejo um cenário promissor. Sou sempre otimista. Vejo uma geração masculina, agora reforçada com a chegada do Fábio Carvalho, muito boa e vejo o feminino querendo ser reerguer. A volta da Carla é muito importante, pois ela é um exemplo de garra e determinação para as meninas mais novas. Não vou citar nomes, mas eu lhe garanto que em Londres teremos quatro atletas, dois homens e duas mulheres, no mÃnimo, representando o Brasil, sendo que pelo menos um com chances de um bom resultado.
MundoTRI: E no cenário de longa distância e de competições curtas sem vácuo?
La Porta: CBTri hoje é voltada para o triathlon olÃmpico de alto rendimento, as outras distâncias, incluindo as de longa distâncias e o sprint, também são prioritárias, mas focamos apenas no Mundial da ITU destas distâncias. Há uma batalha sendo travada pela ITU tentando incluir mais uma modalidade do triathlon nos JO. A tentativa é no sprint agora. Tivemos excelentes resultados no ano passado com a Flávia Fernandes e o Mansur no Mundial de Sprint e isso nos anima bastante e traz boas perspectivas para o Brasil. No cenário de longa distância o maior atrativo é obviamente o Iron Man e o circuito 70.3. Temos vários atletas com bom desempenho nestas distâncias como o Igor Amorelli, Vanessa Gianininni, Ana LÃdia e, é claro, o Reinaldo.
MundoTRI: Alguns atletas brasileiros acabam caminhando para o circuito Ironman e o Troféu Brasil devido à maior exposição na mÃdia e a possibilidade de angariar mais patrocÃnio. Como você vê o impacto disso no desenvolvimento dos triatletas olÃmpicos brasileiros? (vale lembrar que grandes triatletas internacionais, após começar no Ironman não conseguiram mais se manter no mesmo nÃvel na distância olÃmpica.)
La Porta: O triathlon hoje, como disse na primeira pergunta, caminha cada vez mais para a especialização. Cada vez mais o atleta é levado a optar por uma distância especÃfica. Hoje, para se ter sucesso em nÃvel mundial, um atleta precisa nadar muito bem e correr muito. Para se ganhar uma Dextro, por exemplo, é necessário correr perto dos 30min. Em 2016, esta marca vai baixar pra casa dos 29’30’’. Então, se não começarmos a trabalhar os nossos atletas desde cedo, esta marca dificilmente será alcançada e vamos assistir a festa dos outros em Copacabana. A nossa realidade é dura hoje. Dependemos dos recursos públicos, o orçamento da CBTri é pequeno, e isso acaba levando os nossos atletas a buscarem distâncias que lhes ofereçam a vantagem financeira que a Confederação e a ITU não conseguem oferecer. Eles estão certos. O garoto que está começando percebe isso e acaba indo pelo mesmo caminho. Estamos dentro deste ciclo vicioso e trabalhando para sair dele. Por isso a nossa briga com o COB e na busca de patrocÃnios para a Confederação é grande. O nosso objetivo é remunerar os atletas da seleção para que eles possam dedicar-se ao triathlon olÃmpico. Vamos conseguir isso. O atleta brasileiro não deve nada a nenhum outro atleta de qualquer paÃs. Apenas nos falta é estrutura. É isso que estamos buscando. A hora que tivermos estrutura, nosso triathlon vai crescer muito.
MundoTRI: Tivemos alguns episódios recentes de doping no atletismo, no triathlon e em outros esportes. Para você, esses casos revelam um aumento do controle ou um aumento do uso de substâncias ilegais?
La Porta: DifÃcil falar sobre isso. É um pouco dos dois. Como Diretor Técnico, recebo inúmeras denúncias anônimas sobre casos de doping. Estamos implementando uma polÃtica antidoping na CBTri, incluindo o controle nos Campeonatos Brasileiros e fora de competições em atletas da seleção. O objetivo não é apurar denúncias anônimas, apenas dar credibilidade ao processo.
MundoTRI: A CBTri anunciou recentemente a criação da seleção para 2016. O anunciou, contudo, destacou que os membros podem ser mudados ao longo do tempo. Você acredita que isso possa comprometer o trabalho a longo prazo?
La Porta: O projeto da seleção de 2016 é o primeiro passo. Entregamos vários projetos no COB para aprovação incluindo a construção de um centro de treinamento, treinamento de atletas no exterior, contratação de técnico estrangeiro, etc. Os membros podem ser mudados porque não queremos a acomodação. O atleta precisa estar sempre motivado e melhorar e para isso precisa ter metas a atingir. Se ele não atinge alguma dessas metas, vamos investigar e verificar o que está havendo. Dependendo do problema, dá a vez para outro. Hoje a CBTri apóia 21 atletas com passagem e hospedagem para as competições. O planejamento é termos uma seleção brasileira principal, a seleção do Projeto Rio 2016 e atletas, que podemos chamar de time B, que a qualquer momento podem ser colocados na seleção ou no projeto. Temos todos mapeados e estamos atentos à performance de cada um deles. Foi assim que levamos para Medellin a Flávia Fernandes e o Henrique Siqueira que acabaram obtendo bons resultados.
MundoTRI: Em sua opinião, como deve ser a preparação de triatletas brasileiros para 2016?

La Porta: Para se ganhar uma Dextro, por exemplo, é necessário correr perto dos 30min. Em 2016, esta marca vai baixar pra casa dos 29’30’’.
La Porta: Já está atrasada. Deveria ter começado há dois anos atrás. A idade média de um campeão olÃmpico é de 29 anos. Assim, entendemos que o medalhista de ouro em 2016, deve ter hoje entre 18 e 26 anos, considerando-se um desvio padrão de 4 anos. É claro que fenômenos como Alistar, Javier, Vanessa, fogem um pouco desta regra, mas não se pode trabalhar com exceção. Temos todo um planejamento já feito pelo Prof. Antônio Carlos e esperamos a aprovação dos nossos projetos para realmente dar condições aos atletas para se desenvolver. Mas posso adiantar o seguinte, a idéia central é mandar os melhores para morar e treinar na Europa onde as condições são as melhores possÃveis.
MundoTRI: Tivemos um problema enorme na 1ª Etapa do campeonato Brasileiro de Triathlon, como relatamos aqui no site. Qual sua opinião sobre o ocorrido e a melhor forma de resolver a questão?
La Porta: A CBTri já divulgou duas notas oficiais. A prova teve vários problemas, mas o principal mesmo foi a falha da arbitragem e quanto a isso nada podemos fazer. Foi um erro de fato, como ocorrer em vários esportes. A única coisa que incomoda são acusações levianas de que cancelamos a natação para beneficiar atletas A ou B ou que fizemos os atletas darem mais uma volta pelo mesmo motivo. Cancelar a prova ou se fazer mais uma etapa seria uma injustiça com os vencedores. Manter o resultado é uma injustiça com os prejudicados. Qualquer decisão que se tome, alguém será prejudicado, portanto a Presidência tomou a decisão correta.
MundoTRI:Por que não houve anti-doiping na 1ª etapa do Campeonato Brasileiro, principal competição nacional? Qual a verba da CBtri para o anti-doping?
La Porta: Sobre as suas perguntas, este assunto foi devidamente esclarecido no Congresso Técnico do Brasileiro em Vitória, e vou reproduzir pra vocês. Em dezembro de 2009 eu tive uma reunião no Rio de Janeiro com o Dr. De Rose e com os responsáveis pelo controle antidoping no COB. Esta reunião teve como objetivo dirimir algumas dúvidas que eu tinha na elaboração da PolÃtica Antidoping da CBTri que já está em vigor e, por motivos óbvios, é sigilosa. Motivos óbvios é porque ela contempla exames inopinados, que já estão marcados para diversos atletas. Um dos pontos é o controle nos campeonatos brasileiros. Fizemos o pedido em tempo hábil, mas a proximidade dos Jogos Sulamericanos com a prova de Vitória impossibilitou a presença dos responsáveis pelo controle antidoping. Na segunda etapa, teremos com certeza. O custo não é baixo e há a previsão em nosso orçamento de cerca de 60mil reais para a execução da nossa polÃtica.
Outras entrevistas da série:
- O futuro do triathlon olÃmpico brasileiro, parte1: Lauter Nogueira





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