O futuro do triathlon olÃmpico brasileiro, parte1: Lauter Nogueira
O triathlon olÃmpico brasileiro passa por um momento de renovação e desafio. Nossa participação em mundiais, olimpÃadas está decrescendo em número de atletas e colocação dos mesmos. Nesse mesmo perÃodo, assistimos ao caso de doping de Mariana Ohata, uma das maiores triatletas brasileiras de todos os tempos. Enquanto as provas não oficiais crescem em número e qualidade, as provas oficiais de triathlon olÃmpico da Confederação Brasileira de Triathlon (CBTri) estão cada vez mais vazias. A 1ª Etapa do Campeonato Brasileiro de Triathlon, realizado em Vitória há 2 semanas, contou com pouco mais de 100 atletas, incluindo elite e amadores. Isso tudo leva a diversos questionamentos sobre o futuro do triathlon olÃmpico brasileiro.
Em uma série especial de entrevistas, conversaremos com técnicos, dirigentes, ex-atletas e especialistas sobre quais os problemas atuais e quais rumos devemos tomar para levar o triathlon olÃmpico brasileiro aos degraus mais altos mundo afora.
A série estréia com um bate papo rápido, mas franco, que tivemos com Lauter Nogueira, um dos maiores especialistas em esportes de resistência do paÃs. Além de ser consultor de esportes e comentarista da Rede Globo de Televisão e do canal Sportv, lauter foi coordenador da Seleção OlÃmpica Permanente de Triathlon, diretor técnico e chefe da equipe de Triathlon nos Jogos OlÃmpicos de Sydney e delegado e coordenador técnico da ITU (International Triathlon Union). Em seu currÃculo consta ainda a coordenação e organização do Triathlon nos Jogos Pan Americanos de 2007 e a Diretoria Técnica da Confederação Brasileira de Triathlon. Desde 1984 ele atua como técnico e preparador fÃsico de atletas de diversas modalidades esportivas, principalmente atletismo, triathlon e esportes radicais e de ultra distâncias.
MundoTRI: O Brasil tem contado cada vez com menos triatletas em OlimpÃadas, mundiais e na elite da ITU. A que você atribui essa trajetória descendente do triathlon nacional?
Lauter Nogueira: Essa tendência já tinha sido identificada desde 2003, quando ficou claro que o trabalho de longo prazo do triathlon nacional estaria comprometido. Costumo dizer uma frase famosa sobre os dirigentes esportivos: eles são como fraldas de bebê. devem ser trocados regularmente e, normalmente, pelo mesmo motivo. A partir do momento que um dirigente perdura no cargo, as coisas começam a ser rifadas. No caso da CBTri, a primeira a ser rifada foi coordenação técnica. Assim, todo o trabalho de identificar e desenvolver atletas fica comprometido.
MundoTRI: Falando dos atletas, quais nomes você acredita que tem potencial para estar em Londres em 2012?
Lauter Nogueira: Eu havia dito que a elite feminina brasileira cabia em um fusca. Na verdade, ela cabe em uma moto. Hoje só temos a Carla Moreno com condições de disputar competições internacionais de alto nÃvel inter. No fast triathlon houve até uma brincadeira divertida sobre a dança do fusca, mas a verdade é que a Carla Moreno é a única profissional no Brasil.
MundoTRI: A Flávia Fernandes tem apresentado uma evolução muito boa…
Lauter Nogueira: Sim, ela tem evoluÃdo, mas enquanto estiver treinando Pólo Aquático vai continuar sendo amadora no triathlon. Quando eu disse que havia uma amadora no fast triathlon, que gerou toda aquela repercussão, estava me referindo a isso. A única atleta que se dedica profissionalmente ao triathlon hoje no Brasil é a Carla Moreno. A única que tem condições próximas é a Vanessa Gianinni, mas ainda não conseguiu atingir o nÃvel da Carla.
MundoTRI: E no masculino?
Lauter Nogueira: No masculino temos uma safra um pouco melhor. Seja por acaso, seja por persistência dos atletas, temos alguns talentos em condições de estar na elite do triathlon mundial. O Reinaldo Colucci, apesar do ironman Brasil este ano, tem feito provas muito boas; o Diogo Sclebin, que está desenvolvendo um ótimo trabalho, pois é um dos poucos atletas que se dedica somente ao triathlon olÃmpico. O trabalho que estamos desenvolvendo com o Diogo não é somente para ir a Londres em 2012, mas para ser top 10 em 2012. Nas provas olÃmpicas hoje, a diferença entre o primeiro colocado e o décimo é uma mera questão de detalhes, como vimos nas OlimpÃadas de 2008, onde uma atleta que não era favorito levou a medalha de ouro para casa. Temos também uma boa geração de garotos de 20 a 24 anos que está correndo muito bem. Há ainda os grandes atletas consagrados que mesmo na descendente em suas carreiras, ainda podem brigar por uma vaga olÃmpica.
MundoTRI: E quem você apostaria que ocuparão essas vagas em Londres 2012?
Lauter Nogueira: A Carla Moreno vai conseguir pontuar para ir a mais uma OlimpÃadas. Não sei se teremos mais atletas no feminino. No masculino, com o talento que tem, o Reinaldo Colucci vai ficar com uma vaga. A segunda deve ficar com o Diogo Sclebin. Resta aà mais uma vaga para um grupo grande de atletas, vários com chance de largar em Londres. Acredito que, no masculino, vamos ocupar as três vagas.
MundoTRI: Com relação aos triatletas, é muito comum vermos a migração das provas no formato ITU para o circuito de provas longas, como o Ironman, e as provas em vácuo com maior exposição na mÃdia e mais possibilidades de angariar patrocÃnio, como o Troféu Brasil de Triathlon. Um dos problemas disso é que, em todo o mundo, atletas que migram para o circuito de longa distância não conseguem voltar à s provas da ITU tão velozes quanto foram. Como você vê o impacto disso no desenvolvimento do triathlon olÃmpico brasileiro?
Lauter Nogueira: Isso acontece por uma questão de credibilidade. A maioria dos atletas não vai postar sua carreira em algo que pode durar muito pouco e , atualmente, está sujeito à s vontades de algumas pessoas. Um exemplo disso é que no Campeonato Brasileiro de Triathlon tivemos 105 atletas inscritos. Não 105 da elite, mas 105 no total, incluindo os amadores! Enquanto isso, no Ironman de Florianópolis, ha milhares de pessoas se esfaqueando para conseguir uma vaga entre as 1.200 disponÃveis. O Reinaldo Colucci está certo em olhar para sua carreira, mas ele tem talento para ser medalhista olÃmpico e em campeonatos mundiais se dedicasse exclusivamente à s provas olÃmpicas. Faltam os incentivos para isso.
MundoTRI: Com relação aos incentivos, a CBTri anunciou recentemente a criação da seleção para 2016. O anúncio, contudo, destacou que os membros podem ser mudados ao longo do tempo. Você acredita que isso possa comprometer o trabalho a longo prazo?
Lauter Nogueira: A verdade é que não há planejamento de longo prazo. A CBTri criou o CNTT (Centro nacional de Treinamento em Triathlon), mas todos os atletas que forma para lá ou voltaram quebrados, ou lesionados ou tivera, que gastar dinheiro demais para se sustentar e manter as despesas com médicos, fisioterapeutas, psicólogos etc. A CBTri não possui um processo de prospecção de talentos. Hoje já existem diversos testes validados cientificamente que podem ser aplicados em jovens atletas, em torno de 15 anos, que permitem saber se eles possuem perfil adequado para um determinado esporte de alto rendimento. Se não identificamos talentos precoces acabamos gastando dinheiro e recursos com atletas que não trarão resultados significativos para o paÃs. Seria necessário criar centros regionais para prospecção desses talentos. Os melhores em cada centro regional poderiam integrar um ou dois centros nacionais, para então tirar daà atletas capazes de competir em nÃvel internacional. Hoje temos atletas que não tem condição alguma disputando provas internacionais. São recursos preciosos desperdiçados por falta de uma visão de longo prazo
MundoTRI: E como você vê as perspectivas para 2016?
Lauter Nogueira: Como disse, há uma molecada boa no masculino entre 20-24 anos, mas é preciso dar apoio para que eles consigam competir. Posso falar do trabalho que estamos desenvolvendo com o Adriano Sacchetto, que está evoluindo muito. Acredito que ele já esteja no caminho para 2016, agora é dar continuidade ao trabalho.
MundoTRI: Tivemos alguns episódios recentes de doping no atletismo, no triathlon e em outros esportes. Para você, esses casos revelam um aumento do controle ou um aumento do uso de substâncias ilegais?
Lauter Nogueira: Acredito que foi um pouco por aumento do controle e muito pelo aumento do uso de substâncias. No atletismo, o problema foi endêmico. No triathlon tivemos a reincidência da Mariana Ohata, que pelas regras do COI e da WADA poderia ter sido banida do esporte. A punição foi branda. Nos campeonatos organizados pela CBTri não há controle anti-doping, os próprios atletas fazem piada disso, pois há recursos financeiros para compra dos kits e para realizar as análises, mas não há vontade e seriedade. Mais importante que os testes em competição são os testes fora de competição, nos quais os atletas são pegos de surpresa , no meio do treinamento. São nesses testes que pegamos quem usa essas substâncias.
MundoTRI: Algum comentário adicional sobre a CBTri?
Lauter Nogueira: Sim, preciso falar que tenho me divertido muito com as trapalhadas da CBTri. Nos Jogos Sul-Americanos foi informado antes da prova que os mesmos valiam como uma Continental Cup. Depois da prova, não sei se pelo desempenho de alguns atletas, a pontuação foi eliminada e a CBTri ainda não conseguiu se explicar. O interessante é que, no mesmo evento, a prova do Sprint triathlon contou pontos para o ranking brasileiro. na semana passada tivemos aquela lambança no Campeonato Brasileiro de Triathlon, na casa da CBTri, Vitória. Em qualquer competição do mundo é proibido que os atletas sejam impedidos de entrar na transição. Se eles derem voltas a menos serão desclassificados. Foi um absurdo o que fizeram, uma falta de respeito com os atletas. Onde estava a coordenação técnica? Embora os atletas não o tenham feito, poderia ter apresentado recurso junto ao Tribunal de Justiça Desportiva, o que traria sérios problemas para a CBTri. Felizmente, poucos atletas foram afetados no ranking com aquele resultado. Quando vejo situações como essas me divirto muito com as trapalhadas da CBTri.
MundoTRI: Por fim, qual sua opinião a respeito da convocação de atletas da elite para representar o Brasil nos jogos militares?
Lauter Nogueira: É uma proposta interessante, mas ela tem fim: 2011. Por enquanto, os atletas estão felizes, amando a pátria, beijando a bandeira e tudo mais. Depois dos Jogos Mundiais Militares, eles estarão órfãos e muitos vão acabar sem condições de continuar como profissionais. Mais numa vez a visão é de curto prazo. Foi o que aconteceu no Rio em 1999, com o Vasco de Eurico Miranda, visando os Jogos de Sydney. Ele roubou atletas de várias modalidades dos clubes cariocas, que faziam um trabalho de desenvolvimento, tanto na natação, judô, atletismo, triathlon etc. Com isso, inviabilizou o esporte de alto rendimento no Rio por uma década. Pois contratava caro o atleta, com dinheiro que não era dele e matava os clubes. Afinal, o dinheiro não era dele e ele investia pesado na carreira polÃtica. Este nefasto personagem do esporte carioca.





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