Entrevista: Giselle Bertucci fala de sua volta ao triathlon
Giselle Bertucci foi uma das três brasileiras que já venceu o Triathlon Internacional de Santos, no seu caso, em 2004. Além dela, somente Carla Moreno e Sandra Soldan realizaram esse feito. Seu currículo inclui ainda duas vitórias no Mundialito de Fast Triatlo por Equipes (2003 e 2005), Campeã Panamericana de Triathlon (2003), Campeã Panamericana de Aquathlon (2003), Campeã do XIII Troféu Brasil de Triathlon (2003), além de vários outros títulos em provas comerciais, na CBTri e na ITU. Giselle foi ainda a reserva da equipe olímpica brasileira nos Jogos de Athenas (2004) e atleta da seleção permanente entre 2003 e 2004. Longe da mídia e de competições importantes, a sempre receptiva Giselle conversou com Rômulo Nogueira sobre as mudanças em sua vida e a volta às competições, inclusive sobre a possibilidade de competir em um Ironman.
MundoTRI: Gisele , você dispensa apresentações no mundo do Triathlon, conte como foi o começo de tudo.
Giselle Bertucci: Comecei a treinar meio sem perceber. Eu era nadadora, ia para o treino de bike e corria no inverno quando a água estava muito gelada. Houve um short triathlon em minha cidade, São José do Rio Preto/SP, organizado pelo Corpo de Bombeiros e pela academia que eu nadava em 1993. Foi quando tive vontade de fazer logo no primeiro momento que soube da prova, mas minha mãe não permitiu porque eu era muito pequena e franzina, mesmo já com 13 anos de idade. Fui assistir a prova e chorei de emoção. No ano seguinte, foi a mesma história: minha mãe não permitiu novamente porque achava que eu me desgastava demais nos treinos e ia me “matar” na prova. Eu concordei, disse que iria apenas assistir novamente, mas fiz a prova escondida! Cheguei em casa com uma bike de prêmio, esperando levar aquela bronca, mas não foi nada disso, todos ficaram felizes e assim tudo começou.
MundoTRI: Você já venceu o tão cobiçado “Internacional de Santos” como foi a prova e o que sentiu por essa experiência ? (somente Carla Moreno , Sandra Soldan e Gisele Bertucci venceram essa prova para o Brasil)
Giselle Bertucci: Nossa, me emociono até hoje quando lembro dessa prova! Sabe aquele dia que tudo dá certo, que tudo sai redondinho? Foi assim! Eu estava super treinada e confiante, mas não esperava ganhar. Fiz uma prova super concentrada e forte o tempo todo, nadei, pedalei e corri com o coração até a linha de chegada e desabei de chorar embaixo daquela bandeira do Brasil que me deram na chegada. Foi o máximo!
MundoTRI: De alguns anos para cá você nitidamente diminuiu o número de competições. Muitos perguntam por você. O que aconteceu ? E o que tem feito ?
Giselle Bertucci: Eu treinei e competi muito por muitos anos e me cansei um pouco. Descobri que gosto de outras coisas também além de triathlon, como surfar, andar de skate, viajar sem bike, namorar, ficar mais tempo com a família e acabei diminuindo bastante o ritmo de treinos e competições. Sem contar da dificuldade financeira de ser atleta no Brasil, tive que diminuir o tempo disponível de treinos para terminar a faculdade e trabalhar.
Hoje, moro em Floripa, divido meu tempo entre trabalho, treinos e diversão. Sou técnica da Tribo do Esporte Asssessoria Esportiva e tenho uma Pousada na Ilha também.
MundoTRI: Após diminuir os treinos, o que mudou no seu treinamento, quem foram seus técnicos até hoje ?
Giselle Bertucci: Depois que fiquei um pouco mais de um ano longe dos treinos e competições, recarreguei as baterias. Passei a ver o triathlon e as pessoas envolvidas com outros olhos, amadureci muito e hoje eu treino bem menos por me conhecer melhor.
Comecei a treinar com amigos em Rio Preto, o Pietro “Paçoca” Ramazzini me ensinou muita coisa. Depois com o Arilson Gomes, de SP, seguido do Célio Balieiro, o cara que me descobriu e acreditou em mim. Depois com o Homero Cachel em Curitiba, mestre e super experiente. Depois com o Neném em Niterói, Cristiano Solak em Curitiba e Maurício Letzow que, além de grande treinador, é um amigão.
Já em Floripa, o Christian Carvalho do Clube Curitibano, me deu uma força nos treinos de natação na minha preparação para competir uma temporada na França em 2009. Hoje sou minha própria técnica e quem vai me dar outra força na natação nessa temporada será o Ricardo Dantas, na piscina da UFSC, que dispensa comentários, pois o treinamento está no sangue dessa família!
MundoTRI: Você morou em Niterói treinando com a equipe do Neném (Carlos Eugênio). Tendo como companheiros de treinos Ezequiel Morales, Soledad, Marcus Hallack,Sanda Soldan, Roberto Tadau, enfim, uma equipe e tanto. Como foi essa experiência de morar no Rio?
Giselle Bertucci: Eu adorei e aprendi muito com essa galera, a equipe era de ouro. Treinei muito e foi a época que tive meus melhores resultados!
MundoTRI: Como é sua alimentação ?
Giselle Bertucci: Eu não sigo nenhuma dieta específica, apenas me alimento bem, aprendi o que me faz bem nesses anos todos de treinamento.
MundoTRI: Tem pretensões de realizar provas longas ? Como vê o crescimento desse tipo de provas ?
Giselle Bertucci: Eu gosto muito de assistir, me emociono, me imagino fazendo essas provas, mas ainda não tive aquele estalo que me fez decidir e começar a treinar para um Ironman. Ano passado, em 2009, eu quase fui, mas passei raspando e fiquei fazendo provas curtas por mais uma temporada.
Eu acredito muito nas provas de Longa Distância como Meio Iron, Iron e etc. porque o triathlon olímpico com o advento do “vácuo” liberado não me agrada muito e acho que isso mudou a postura e a visão de muita gente dentro do esporte.
MundoTRI: Temos acompanhado algumas divergências entre alguns atletas em relação à CBTri, em relação a critérios de convocação, repasse de verbas etc. Qual sua opinião sobre o direcionamento que a confederação tem tomado?
Giselle Bertucci: Nossa, eu estou por fora desse assunto, não estou correndo as provas oficiais, não estou tentando entrar na seleção novamente, por isso não posso opinar. No passado apanhamos muito, todos eram muito inexperientes e aprendemos muita coisa errando. Espero que após 3 ciclos de Jogos Olímpicos a Confederação tenha melhorado e espero que dêem oportunidade para todos os atletas tentarem, não somente os que já estão no topo.
MundoTRI: Quem você apontaria como novas forças do esporte? E para o Pan do ano que vem?
Giselle Bertucci: Eu não sou a melhor pessoa para falar sobre isso porque levo muito em consideração o lado pessoal, acho que é importante também ser uma boa pessoa para ir longe e não “apenas” um atleta com grandes resultados, mas meus votos são para Diogo Sclebin e Carolina Furriela na distância olímpica.
MundoTRI: Como está a vida de treinadora e qual nome de sua equipe ?
Giselle Bertucci: Eu amo o triathlon e hoje trabalho como treinadora por amor, por isso meus atletas treinam felizes e têm obtido grandes resultados. A equipe se chama Tribo do Esporte.
MundoTRI: Como você via o triathlon na época que começou e como vê agora ?
Giselle Bertucci: Mudou muito, antes parecia que tudo era feito com mais amor, com mais intensidade, desafio e aventura, agora eu vejo uma coisa muito comercial, muito voltada para o dinheiro, mas isso é a evolução natural de tudo que está em crescimento e, infelizmente, acaba gerando trapaças, sacanagens etc. Mas quem é triatleta, nem que seja lá no fundinho, tem que amar o que faz, senão não consegue atingir seus objetivos
MundoTRI: Hoje há muita polêmica sobre o fato de muitos novos atletas e treinadores se preocuparem mais com equipamentos de última geração e treinos difíceis até de se interpretar em detrimento do que é simples e da consistência do treinamento. O que você acha dessa temática? Você acha que isso realmente tem acontecido?
Giselle Bertucci: Acho que sim, mas isso não é regra, ainda existem as exceções que treinam e aplicam o treino com amor, feeling e respeito ao atleta. Com a modernização tecnológica, com a busca de novos recordes, o verdadeiro sentimento acaba sendo esquecido, mas acho que essa nova temática não durará muito, as pessoas vão se cansar uma hora e vão parar para pensar: “por que eu realmente pratico esse esporte?”
MundoTRI: Para terminar , quando veremos Gisele Bertucci de volta às competições?
Giselle Bertucci: Espero estar de volta no segundo semestre. Até lá vou me divertir mais um pouquinho treinando de leve e fazendo outras coisas! Beijo para todos e ótimos treinos!















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