Abordagens empiristas para o treinamento de triathlon
O triathlon é um esporte novo. O Ironman, mais ainda! Portanto, tudo que os envolve é recente e pouco experimentado. Por outro lado, na natação, no ciclismo e na corrida estudiosos testam há muito tempo meios de melhorar a performance de seus atletas. Esses testes, invariavelmente, influenciam nosso esporte. No entanto, bem ou mal, o triathlon ainda mescla muito do que, por tentativa e erro, foi-se determinando como o melhor e mais adequado modo de treinar. Graças à fabulosa capacidade de adaptação que temos de ter ao enfrentarmos novos desafios e, nesse caso, criarmos um novo esporte, foi assim que historicamente aconteceu. Muito do que fazemos hoje em dia, por consequência, é baseado no que os caras que “fundaram o esporte” fizeram anteriormente, experimentando na prática o que traria os melhores resultados, o que ganhava competições. Atletas como Mark Allen, Dave Scott, Scott Tinley, Greg Welch, Paul Huddle e Ken Glah foram os precursores, além dos brasileiros Ribeiro, Dolabela, Ripper, Borgese Moraes. A lista vai longe, com mulheres, um número sem fim de amadores e outros inúmeros campeões (muitos deles no meio até hoje, para nossa sorte e alento). Todos eles viveram e vivem essas experimentações na pele.
Se para eles era difícil, imagine para quem os orientou? Vários atletas sequer tiveram alguma orientação!
(Ex)-técnicos de natação, ciclismo e corrida, agora na pele de “magos” (que em grego significa homem sábio e indica quem possui habilidades e conhecimentos superiores) misturando misteriosamente os ingredientes para transformar atletas em triatletas. Tarefa das mais complexas!
Por isso algumas referências surgem claramente quando colocamos o empirismo à luz dos grandes resultados e das grandes conquistas. Esses mestres provam que, até hoje, ainda há muito feeling e arte na orientação de nosso apaixonante esporte, o que não invalida todo seu arsenal formal e científico de conhecimentos. Mas, para todos os efeitos, como ninguém explica força de vontade, “sangue nos olhos”, aquela vitoriosa teimosia, a controversa convicção, a paixão pela observação crítica e o trabalho duro, dia a dia ao lado dos atletas, continuemos, resumidamente, os colocando como “empiristas”.
Por isso não falaremos de escolas, modelos ou abordagens, mas de pessoas que tomaram a bandeira e o compromisso de desbravar esse “misterioso” esporte fazendo tudo à sua maneira, muitas vezes revolucionária e surpreendente.
Brett Sutton

Brett Sutton com Cali
O controverso técnico australiano talvez tenha o mais invejado cartel de atletas do mundo. O pouco que sabemos do que realmente acontece sob seu comando só fortalece a “lenda” dos difíceis treinos, do homem bruto de inglês vacilante, com coração grande, de rotina espartana e olhos preparados para descobrir e transformar atletas em campeões. Afinal, mais do que formá-los (como aconteceu com a provável melhor triatleta de todos os tempos, ao menos nas longas distâncias, Chrissie Wellington), Brett transforma o que antes era fracasso em sucesso. As más performances são convertidas em grandes dias durante uma competição. A lista dos atletas em declínio que o procuraram é maior e provavelmente mais “renomada” que os que este enigmático técnico criou.
Sua disciplina, sua presença, o indispensável olho no olho com os atletas e uma aura de “salvador” (que catequiza atletas dispostos a procurar e estender seus limites) o colocam como um dos principais técnicos de triathlon de todo o mundo em todos os tempos. Seus indiscutíveis resultados e os diversos atletas que, sob seu comando, acharam limites nunca antes testados não deixam dúvidas sobre sua capacidade. É inquestionável seu estilo de trabalho quando tem um atleta em mãos disposto a trabalhar e de ouvidos atentos aos mais diferentes tipos de influência que sua orientação pode causar. Não é à toa que hoje dispõe de patrocínio, financiamento e um time profissional formador de campeões ao redor do mundo. Polêmico, é um dos que brada que atualmente o triathlon olímpico é de “segunda classe” e, por isso, prepara seus atletas de provas curtas mais ou menos como os de provas longas. Sua intenção é trabalhar com atletas completos, capazes e ecléticos.

Brett revelou a grande Chrissie Wellington
Conhecido pela lavagem cerebral que faz em seus seguidores, logo posiciona e direciona o trabalho e a energia dos atletas e, em pouco tempo, colhe grandes e surpreendentes resultados (ao menos pra mídia e para quem vê de longe e de fora).
Sob o olhar e interesse de outro importante nome, Antonio Carlos Moreira do Amaral, o Cali, Brett auxilia trabalhos no Brasil e está sempre atendo às novidades que aqui surgem. Entre eles, está o grande Reinaldo Colucci.
Antonio Carlos Moreira do Amaral (Cali)

Cali
Cali, no Brasil, significa trabalho duro e campeões. Seus métodos de aflorar potenciais campeões também são lendários, com relatos e impressões dos dias difíceis nos treinos e fáceis nas provas. Do interessado ouvinte e incorrigível proponente de sessões de treino extenuantes, dentre outras muitas formas de descobrir talentos, Cali abraçou sua profissão como treinador de triathlon, se desgarrando da natação. Um atento observador e trabalhador comprometido, Cali abusa do direito de fortalecer seus atletas tanto física quanto mentalmente. Uma tarefa que requer, perdoem-me os incomodados, o tal “algo mais”.
Por isso, não é difícil mencionarmos os desafiadores relatos dos que passam pelo centro de treinamento que ele idealizou e até hoje cuida em São Carlos. Aliás este é mais um motivo para Cali ser um expoente quando se trata de formas vanguardistas e contemporâneas de preparar triatletas.
Mais provas de sua capacidade? Leiam o que seu “mentor” Brett Sutton relata do primeiro encontro entre ambos. É o Cali quem fala após cinco dias observando seu mestre à beira da piscina na véspera de um campeonato mundial de triathlon no Canadá: “Brett, eu estive lá em cima (rolava um congresso da ITU), muitos doutores, muitos dos “grandes”, muita conversa mas se eu somar todos os resultados, não são iguais aos resultados que estão aqui em baixo na piscina contigo. Brett, eu sou um desportista! Posso não ser um grande treinador ainda mas se eu quiser ser um, essa é a minha sala de aula de fato, os resultados estão aqui andando para cima e para baixo com seus atletas, e não na sala de aula de direito.” Como diz o comercial, as perguntas nos movem pra frente e fazê-las, humildemente, faz parte da evolução.
Gordon Byrn
Coach Gordo, como é conhecido, descontente com os quilos a mais e a saúde de menos tempos atrás, começou a esquiar. Enquanto largava uma carreira empresarial ao redor dos 30 anos, interessou-se por montanhismo (por isso começou a pedalar e correr). Aprendeu a nadar em 98 e completou seu primeiro Ironman em 99 em 11h. Em 2002 faturou o Ultraman. Em 2003 escreveu, junto de Joe Friel, Going Long: Training for Ironman-Distance triathlons (em português, numa tradução livre, Indo Longe: treinando para provas de Ironman). Em 2004 foi o segundo no IM do Canadá “perdendo” a prova pra outro “maluco” e, antes de atleta dentista (e antes disso tudo canoísta que partiu pro triathlon para enfrentar desafios em que não corresse risco de vida), Tom Evans, à frente de Olaf Sabatschus, com uma “corridinha” de 2h46, para completar a prova em 8h29’ apenas 2’ após o vencedor.
Mesmo ano, cinco meses antes foi o 4° no IM Nova Zelândia “perdendo” a prova para Cameron Brown e dois de seus atuais seguidores, Clas Bjorling e Bjorn Andersson. Esse resumido currículo dá idéia de suas diferentes experiências na vida e, claro, sua capacidade e sede competitiva. Daí Gordon se tornou um influente técnico, que valha seus mentores tenham sido ninguém menos que Scott Molina, Dave Scott, John Hellemans e Joe Friel.
Fora toda sua paciente, ponderada e presente ação nos meios de comunicação, Gordo, que se tornou uma marca quando se fala em longas distâncias, criou uma forma de manter-se em forma através de épicos acampamentos de treinos (agora, numa tradução literal para o inglês, Epic Camp). Esses camps contam com atletas profissionais de calibre e lendas do esporte em que, todo o dia, acontece uma longa e extenuante “competição”, apenas algumas semanas antes de sua competição principal.
Seu trabalho, por ele mesmo, é de ser um motivador, pois não sugere que esperem por acompanhamento 24h/dia em todas as sessões de treinos. E sua vida comum, como a sua e a minha, distante dos atletas profissionais campeões mundiais (ele próprio, ironicamente, um desses), favorece seu entendimento e compreensão do que são filhos, família, agenda profissional, eventos, programação social, dentre outras atribuições da vida cotidiana.
Por isso, resumida e inteligentemente foca seus esforços no prazo longo, com uma preparação consistente, simples e árdua, seja treinado a si mesmo como para todos os seus atletas. Um dos seus mantras: “Não estamos nos preparando pra irmos a marte”.
Paulo Sousa
Pasmem mas o português é um formal, dogmático e aplicadíssimo cientista. PHD em Engenharia Mecânica pela Universidade de Lisboa e hoje locado no Tenessee como pesquisador sobre dinâmica de fluídos biológicos na Universidade Vanderbilt.
“Consultor” de Simon Whitfield bastaria para credenciá-lo em nosso papo sobre triathlon. Parceiro de Peter Reid por “training camps” ao redor do mundo é mais uma. Técnico do atleta com a melhor corrida no IM Havaí em 2006, o também português Sergio Marques, que completou a prova na 19ª colocação com 2h43’55’’ na maratona pode ser outra, dentre inúmeras mais.
Mas o que chama a atenção é sua ironia ao desprezar muito dos estudos esportivos e concentrar-se, muito e exaustivamente, em entender seus atletas. Apenas assim, coach Paulo, como é conhecido, embarca em um plano que ele seja hábil e suficientemente capaz de alavancar performances e descobrir atletas.
Estudou tanto sobre esportes que parafraseando um dos que admira, Jack Daniels, resume uma de suas crenças: “Se um treinador não pode explicar ao seu atleta porque ele/ela precisa fazer uma sessão especial de treinos, o atleta não deve se sentir obrigado a cumprir tal sessão”. Entendam quando ele responder, muito objetivamente à moda portuguesa, que é para acumular quilometragem apenas. Ou recomendar seguir um destino desconhecido no treino apenas com relógio e sem marcações parciais conhecidas para que você aprenda sobre você mesmo.
Ultimamente foi ganhando notoriedade pela paciência, ironia e assertividade ao participar de debates virtuais sobre triathlon e ao publicar ironicamente, um livro de triathlon virtual através de um blog. Nele publica o que acredita ser a única forma de ganhar provas, razão final para qualquer atleta comprometido e de seu trabalho como técnico vencedor.
Assim, como todos os outros citados acima, concentra-se em acumular trabalho objetivando o crescimento do atleta não importando as circunstâncias. E, talvez por isso, desperte interesse dos que precisam, como todos os vencedores, do “algo mais”.
Enfim, como bem disse Cláudio de Moura Castro, ao comentar sobre educação num paralelo válido para os esportes em geral: “Serve para toda competição: qualidade valorizada, seleção dos melhores, prática obsessiva e persistência. Quem aplicar essa receita terá os mesmos resultados.” Mais importante ainda para quem dirige e comanda esquadrões de atletas sedentos por conquistas e com adversários tão inspirados e capazes no dia da competição. Criatividade, astúcia, originalidade e pitadas únicas de ousadia fazem destes “ilustres empiristas” vencedores contumazes e formadores de costumes que, aos poucos, os colocam muitas vezes à frente, ou pelo menos, de forma diferente de seu tempo.
Empiricamente, MAA





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