Diário até o Ultraman: uma corridinha de 60km…

07/10/2009 por Enviar por e-mail Imprimir
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Tritar Rio de Janeiro
Mario e Almir subindo a Serra da Graciosa 300x225 Diário até o Ultraman: uma corridinha de 60km...

Mario e Almir subindo a Serra da Graciosa

Nesse domingo, fiz meu treino mais duro até aqui: 60 km de corrida.

Comecei o dia às 04h50min. Tomei café da manhã, revisei a organização de alimentação e hidratação para o dia e em vão olhei a previsão do tempo: 15 a 21 graus, nublado com 20% de probabilidade de chuva.

Dividi o treino em três partes de 20 km cada. O percurso deste super treino começaria com os 20 km da Corrida da Serra da Graciosa. Muito tradicional, esta desafiante corrida começa ao nível do mar e termina a cerca de 900m de altitude. O trajeto é praticamente inteiro de subidas, sendo uma delas com 14 km de extensão. Todos os atletas seguem de Curitiba em ônibus fretados pela organização da prova até São João da Graciosa, ao pé da Serra.

Larguei às 9 horas, em ritmo tranqüilo, acompanhado de meu técnico Almir Brandalize e de mais alguns colegas de equipe. Durante a subida, cuidei apenas para manter minha freqüência cardíaca sempre abaixo de 140 bpm. O bate-papo durante a corrida estava animado e o tempo passou rápido. Completamos em cerca de 2 horas e 26 minutos.

Terminados os primeiros 20 km do treino, encerrei a fase que chamei de CORPO.

Longo caminho de volta para casa 225x300 Diário até o Ultraman: uma corridinha de 60km...

Longo caminho de volta para casa

Na chegada, encontrei minha família e namorada que me aguardavam prontos para a próxima pernada do dia: os restantes 40 km até minha casa, em Curitiba.

Comi uma batata cozida, tomei um isotônico e segui com minha namorada de bicicleta, pela longa estrada. A alimentação seria a cada 50 minutos. Nessa hora, é melhor nem pensar que o planejado era chegar a casa quase ao final da tarde.

Para “elogiar nosso esforço” em correr mais 40 km, o sol saiu de trás das nuvens e nos cozinhou na estrada. Um calor infernal. Ou melhor, o calor não poderia ser melhor, pois era um calor quase havaiano. A previsão do tempo nunca acerta mesmo.

Não demorou muito e tive que começar o procedimento de encharcar o corpo com 1 litro de água a cada 40 minutos. Água jogada no corpo refresca e é “suor que evito suar” (uma medida extra para evitar a desidratação).

Os quilômetros 20 a 30 passaram rápido. A meu pedido, o tempo foi preenchido pela minha namorada, relatando a tragédia grega “Édipo Rei”.

Logo ao final de “Édipo Rei”, meu grande amigo Sérgio Amed Silva chegou para correr ao meu lado entre os quilômetros 34 e 55. Muito animado e paciente, o Sérgio chegou com muita conversa divertida para preencher o tempo.

Correndo e ouvindo histórias Diário até o Ultraman: uma corridinha de 60km...

Correndo e ouvindo histórias

Durante o trajeto, recebi também o apoio de outros amigos. Alguns passaram buzinando, outros seguiram alguns quilômetros de bicicleta ao meu lado, outros vieram de Curitiba após um almoço em família para me dar algumas palavras de incentivo.

No quilômetro 42, completei a segunda etapa de 20 km que denominei: MENTE.

pitstop aos 42km 300x174 Diário até o Ultraman: uma corridinha de 60km...

pitstop aos 42km

Lá parada na beira da estrada sob uma árvore estava o carro da minha querida mãe. Tudo pronto para um rápido pitstop. Batata chips para amenizar quaisquer dores no corpo (não sei o porquê, mas é um estranho truque já consagrado internacionalmente e que sempre funciona). Banana (pelo potássio), mais hidratação e renovei o filtro solar. Troquei de tênis e percebi bolhas enormes nos dois pés, na lateral dos calcanhares. Há anos não tenho calos, nem quando corro com o tênis sem meia nos triathlons mais curtos. Então tenho que culpar os tênis que estou usando há 30 dias. São os pares “Ultra3” e “Ultra4” desse ano de treinamentos (até o dia da prova estarei usando os pares “Ultra5” e “Ultra6”. O “Ultra1” e “Ultra2” já desfrutam de sua aposentadoria, figurando apenas como “tênis de passear no shopping”). Os últimos pares que comprei, estranhamente parecem mais estreitos no calcanhar. Bom seria se no Brasil vendessem os tênis em três diferentes larguras, como fazem nos EUA.

Não havia muito a fazer nessa hora. Achei que seria um pouco de exagero usar a técnica do Ultramaratonista Dean Karnazes de cortar as bolhas e enchê-las com cola SuperBonder. Além de ser apenas um treino, acho que minha mãe iria ficar “revoltada” com a cena.

Então, apenas passei mais uma grossa camada de vaselina nos pés e no tênis. Levantei e segui em diante procurando pensar em outra coisa. Começava aqui a última pernada do meu treino que eu chamei de: ALMA.

Cada quilômetro acima dos 42 seria uma nova emoção. Nunca havia corrido mais que 42 ou 43 km, então esse percurso final seria um grande aprendizado.

Finalmente, no km 49 entramos na cidade de Curitiba. Dentro do perímetro urbano, o tempo passa mais rápido, porque a mudança de paisagem e as distrações são bem mais freqüentes.

 Diário até o Ultraman: uma corridinha de 60km...

54km e inteiros

Quando corria os últimos metros antes de completar 50 km, fui tomado por forte emoção. Quis soluçar e chorar, mas só deixei emoção vir por uns dez segundos. Dei um grito e comemorei a marca brincando: “Cinquentinha! Cinquentinha! Cinquentinha KMzinhos!”.

Sei que há um mundo inteiro de ultramaratonistas, que correm mais de 100 km de uma só vez. Mas correr 50 km ainda é uma marca que impressiona a mim mesmo. Ou talvez impressione o cara sedentário que já fui um dia. Fiquei feliz porque o cansaço e o desgaste não eram muito maiores naquele momento do que ao completar 45 km. Embora não estivesse lépido nem nada, não estava sofrendo tanto quanto imaginei que estaria a esse ponto. Vai ver que esse negócio de treinar funciona….Obrigado ao meu técnico Almirzão!!!! Vai ver que 45, 50 ou 60 km, tanto faz… (sei que não é assim, mas como otimista, vou escolher essa frase para memorizar e internalizar).

54km 300x241 Diário até o Ultraman: uma corridinha de 60km...

54km

Logo estava nas ruas por onde eu costumo treinar. A familiaridade com os trajetos trazem ainda mais força.

Mais um amigo veio para ver “como fica alguém que está correndo mais de 50 km” (e me incentivar, é claro). Ele me disse surpreso:

- “Você está até rindo!”.

Eu então respondi: – “Rindo estou, só não estou é lá muito correndo…. Rsrsrsrsrs!” (correndo eu estava, mas a velocidade nessa hora já rivalizava com a de uma caminhada!).

Ele se disse impressionado porque achou que eu estaria “no bico do corvo” naquela altura. Eu respondi com uma frase cujo autor desconheço, mas que gosto muito e diz:

“O que há à nossa frente, e o que ficou para trás, são pequenas coisas perto do que temos dentro de nós”.

No marco de 55 km, me despedi de meus amigos e segui novamente apenas acompanhado de minha namorada.

60.123 m 300x225 Diário até o Ultraman: uma corridinha de 60km...

60.123 m

Percorri emocionado a rua por onde sempre passava, na época em que comecei essa minha aventura e deixei o sedentarismo. Anos atrás, passava por aquela rua quando caminhava uma hora e corria apenas os últimos 10 minutos. O tempo de corrida foi aumentando, e com o passar do tempo, logo eu não caminhava mais, apenas corria. Chorei ao pensar em quanto cresci desde o tempo dos “10 minutos de corrida” até estar ali naquele final de tarde, após 57 quilômetros percorridos.

Nos últimos três quilômetros, passei a correr sem tocar os calcanhares no chão, pois as bolhas doíam muito.

Há uma quadra de casa, fiz um pequeno exercício de perseverança e dei mais uma longa volta em direção oposta. É que se seguisse pelo caminho mais curto, ficariam faltando cerca de 200m para completar os 60 km. Correr 59,6 km não é a mesma coisa que 60 km! Faltar 400 m é a mesma coisa que faltar 10 km. Inadmissível. A sensação de dever cumprido só vem quando o dever está cumprido. Por isso, fiz um generoso desvio para não chegar a casa antes da quilometragem correta!

Quando finalmente pude fazer o último contorno, dei um pique de 4 min e 15 segundos por KM até a minha casa. Foram 400 m apenas entrecortados por um grito que veio da minha alma, um grito daqueles que não dá para ensaiar e não vem em qualquer hora. Um grito daqueles que você solta poucas vezes na vida e, infelizmente, tanta gente passa a vida toda sem soltar. Um grito mais antigo que eu mesmo. O grito que já foi dado por nossos ancestrais. O grito que te faz sentir o que é ser parte da aventura humana.

Após 60.123m percorridos, completei meu dia de treino. Cheguei em casa com algumas bolhas no pé, mas sem lesões e seis minutos antes do tempo alvo que havia estipulado.

Deitado na grama em frente à minha casa, vivi um momento de felicidade plena.

Não perca a palestra de Maddalozzo e aprenda tudo sobre sua trajetória rumo ao Ultraman:

Cartaz Palestra Odisséia ao Ultraman 20.10 Diário até o Ultraman: uma corridinha de 60km...

Capítulo anteiores:

7. Diário até o ultraman: pequenas mudanças, grandes benefícios pt2

6. Diário até o ultraman: pequenas mudanças, grandes benefícios pt1

5. Diário até o ultraman: Experimentando o lado místico do triathlon

4. 80 dias para o Ultraman: Felicidade real é compartilhada

3. Diário até o Ultraman: testes fisiológicos

2. Diário até o Ultraman: Desafrio 2009

1. A saga ao ultraman de Mario Maddalozzo: estréia

Equipe de Mario: Jesse Geraldo Arriola Junior – Capitão da Equipe, Almir João Brandalize – Treinador, Tiara Corradi – organização, Elizabeth Schultz Maddalozzo – Organização, Thaís Sampaio da Silva – Pacer, Luciana Brandalize – Registro fotográfico e de vídeo. Website: www.trilosofia.com

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Bons treinos

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