Elocubrações esportivas: atleta profissional?

09/09/2009 por Enviar por e-mail Imprimir
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Tritar Rio de Janeiro




Do começo, do dicionário, desses virtuais mesmo:

Profissional é aquele é remunerado regularmente pelo trabalho que executa ou atividade que exerce (em oposição ao amador).

Profissional pode ser definido como aquele que tem conhecimentos da sua profissão, especialista.

Que se relaciona com uma dada profissão.

Pessoa que faz uma coisa por ofício.

Amador é o nome dado às pessoas que desempenham uma atividade profissional sem conhecimento avançado do assunto e utilizando equipamentos e técnicas não-profissionais.

Que ou o que ama.

O que, por gosto e não por profissão, exerce qualquer ofício ou arte.

Apreciador.

A discussão está na moda. Por conta de viver sobre a tênue linha a respeito do tema com minhas humildes convicções, questionamentos e ansiedades, segue um breve ensaio do que por essa mente se passa!

Partamos de um ponto de vista humanista, puro e ideologicamente ligado aos clássicos e atemporais conceitos de heroísmo, justiça e ética. Minhas idéias estão completamente expostas tendo como base esse cenário, portanto, julgue-as nesse sentido e me prove o contrário. Mudar faz parte apesar de rezar para que minhas convicções tragam mais certezas do que dúvidas no decorrer da vida. E mais que isso, me tornem mais sadio e sábio ao me relacionar com algo.

Umas das primeiras perguntas, realmente importa ter uma categoria profissional em uma prova de triathlon? A quem e por que existe o interesse em ter uma categoria profissional em um triathlon? Claro que precisamos de um mínimo de organização, concordo. Não está aqui o anarquista sem causa, longe disso, a disciplina, a organização e a ordem tem sido um mantra para este bagunçado atleta. E tenho tido cada vez mais facilidade no caminho e melhores resultados fruto desse “contemporâneo” comportamento.

Continuando, uma rápida reflexão sobre o tema, na minha opinião, logo desmistifica o uso profissional do esporte como uma atividade que tem por fim uma recompensa financeira. Afinal, quem investiria nisso? Não é por razões financeiras que alguém é ou não é profissional do esporte. Se o objetivo fosse grana, raríssimos seriam os investidores ou poupadores nesse árduo e mal remunerado ofício, principalmente no triathlon. E não só no Brasil, no mundo. Concordem ou não! Sim, essa é a visão capitalista poluída por selvagens idéias de meritocracia, competição, fins econômicos e políticos para toda atividade dentre muitas outras possíveis críticas a minha pura e fantasiosa realidade. Mas quanto realmente importa ser ou não ser profissional na hora de alinharmo-nos igualmente na linha de largada?

Uns quebra-cucas e mais do mesmo para ampliarmos os horizontes e esclarecermos minimamente algumas das questões que ainda para mim suscitam dúvidas.

Será que o profissional deixa de ser amador?

O amador não pode se tornar profissional?

O que faz nos tornarmos ou deixarmos de ser amadores e profissionais?

Se não houvesse premiação em dinheiro como nos encaixaríamos na classificação final de uma competição?

Quem é mais profissional, aquele que ganha para exercer a atividade ou aquele que a exerce de maneira mais competente?

Vale mais a grana atribuída àquela categoria ou a competitividade entre atletas?

O que faz você, amador ou profissional, sair para treinar?



Aqui, ao menos para o blogueiro de plantão, não tem lugar pra isso ou aquilo. Somos uma coisa só, todos atletas. Dá para negar isso? Diga-me como! Antes de tudo todos são atletas, nem venham! E antes mesmo disso tudo somos humanos e o esporte só nos coloca ainda mais próximos de nossos ancestrais que por comida, ferramentas e parceiros pra reprodução procuravam incansavelmente até se exaurir. Igualzinho ao mítico herói que na Grécia despertou o interesse humano pela maratona. Colocar a grana no meio é um erro crasso e infantil para quem tem no esporte uma das mais grandiosas e dignas formas de viver e expressar sua humanidade. E daí? Continuemos, não necessariamente na ordem correta e mais clara de apresentação dos argumentos.

Na realidade, no mundo de hoje, o quanto custa alguma coisa ou o quanto você recebe por fazer alguma coisa, pouco tem a ver com justiça ou o encantamento que provoca. Somos pagos (e, pagamos) com uma parcela do que contribuímos para nosso empregador (ou para os que nos dão oportunidades), no caso do esporte, o patrocinador, o time (o organizador de uma competição), enfim. Ser um profissional do esporte talvez não signifique nada se, de fato, precisemos apenas sermos remunerados por isso! Mas também tem o outro lado, claro. Imaginem quanta gente não sairia por aí proclamando-se campeão de Ironman, de maratonas aquáticas, de Ultraman, caso não houvesse uma mínima divisão e organização dentre os escolhidos para essa “profissional” disputa. Mas e quem ganha uma categoria de uma prova dessas? Não é também um campeão?

Aliás, qual profissional sobrevive de sua classificação nas provas? Quer outra? Por que é injusto um profissional competir como amador? Mais? Quanto mais se paga ou mais dinheiro se coloca em jogo, mais aumenta-se o risco de trapaças, doping e mesmo de ter parte dessa maior grana, pois a demanda pela grana é maior, afinal terão mais profissionais disputando essas premiações.

Talvez seja realmente justo alguém com outras fontes de renda realmente não se profissionalizar no esporte e tirar a chance dos poucos que escolheram essa atividade de forma profissional, é verdade. Mas porque nos preocupamos tanto com isso? Enquanto escrevo essas linhas esse pensamento surgiu em minha cabeça inúmeras vezes. Desisti e retomei o texto mais um tanto de vezes. E daí? Tenho ainda mais dúvidas quanto mais percorro as minhas fontes de pesquisa, e acredite, são inúmeras.

Daí que não existe, ao menos para mim, uma diferença clara e importante entre amadores, qualificados por um subjetivo quesito outorgado por desconhecidos como andar em uma prova, terminar a prova em tantas ou mais horas, treinar isso ou aquilo e todas as demais besteiras que, se bem pensadas, talvez ficassem onde deveriam ficar, dentro de nossas egoístas mentes, e profissionais que por estarem hoje numa condição mais avantajada de realização de determinada tarefa sujeitem-se à competição por prêmios. Pelo menos nos esportes isso é assim.

Ou a chegada de Julie Moss no Ironman do Hawaii de 1982 deve ser rechaçada? E os Hoytt e seus adaptados equipamentos? O sprint de um pai como aquele após incansáveis horas não vale realmente nada? Pior que andar, muito pior que andar não seria a heróica façanha entre Sian Welch e Wendy Ingraham em Kona 1997? Elas engatinharam! Quanto pior é a performance do famoso Adir Buschmann que compete mesmo após seus “desprezíveis” setenta e tantos anos? E a Madona freira que após oitenta anos competia?

A discussão é longa, mesmo para mim, está distante de terminar e quero passar longe dos que objetivamente definem como cada esporte deve ser abordado, afinal, os desafios de cada um devem dizer respeito apenas a eles mesmos e entrar por essa seara é complicado e claramente injusto. Importante é o caminho, não tenho dúvidas. E daí?

Daí que o verdadeiro atleta não é, definitivamente, aquele que procura facilidades ou meios escusos para uma performance de sucesso. Fosse assim, à beira da estrada de um Ironman, uma maratona, uma corrida de aventura, como platéia teríamos esses mesmos atletas que na primeira dificuldade abandonariam sua jornada. Pense nisso na próxima vez que largar uma prova em que você, infalível atleta, tenha problemas e não possa ter as glórias de um tempo assim ou assado, ter um pódio, ter uma fama por isso ou aquilo, ter uma premiação digna ou não e, finalmente, descubra que ser atleta é mais que isso. Muito mais que isso. Ou não foi assim que todos nós começamos, bons ou ruins no que fazíamos? E torça para que não lhe abandonem em seus mais profundos esforços para vencer uma dificuldade, seja ela engatinhando ou “voando” a 3’30’’/km rumo ao estrelato!

Que isso também valha como homenagem aos que corajosamente admitiram a carreira esportiva profissionalmente, do profissional amador, MAA.

Por: Marcos Apene do Maral – http://marcosapenedoamaral.blogspot.com

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