Diário até o ultraman: Experimentando o lado místico do triathlon

Mario, candidato a Ultraman
No último domingo, fiz mais um extenuante treino de ciclismo que durou das nove da manhã até as oito da noite.
Acordei cedo, fiz todo meu ritual e carreguei o carro. Estacionei em um parque próximo da Rodovia do Café (que liga Curitiba ao interior do estado) e comecei a carregar a bicicleta e os bolsos.
Duas garrafas de água, muitas barras de cereal, alguns gels de carboidrato, dinheiro para o almoço e lanche, celular para emergências, papel com instruções de como proceder em caso de acidente, meia-dúzia de câmaras de pneu, bomba de ar e mp3 player.
Já na saída, estava me sentindo como um burro de carga, tamanha a quantidade de “bagagem”. Nem sempre você sai de casa animado para treinar. Esse era um desses dias. Mas os treinos feitos nesses dias, contam mais. É nos dias de chuva, frio ou preguiça que você ganha o direito de perseverar nas suas batalhas.
O trajeto seria de muitas subidas e duraria o dia todo. Sendo otimista, pode-se dizer que o tempo colaborou um pouco, pois pelo menos parou de chover durante a maior parte do dia.
O mp3 era o meu salva-vidas. Só seria ligado após pelo menos 80 km. Até porque descobri que a bateria do meu tocador de mp3 não é mais páreo para a duração dos meus treinos de ciclismo.
O Ultraman é descrito como “uma odisséia esportiva”. Já os treinos para o Ultraman possuem seus altos e baixos. Em alguns dias, defino os treinos para o Ultraman como:
“Acordar cansado e treinar para ficar ainda mais cansado”.
Em minha experiência de triatleta amador, já passei por várias provações para forjar algumas conquistas.
Para sentir-me preparado para meu primeiro Ironman, eu decidi que precisaria conseguir completar uma maratona sob toda e qualquer circunstância. Por isso, durante a preparação, corri a maratona de Florianópolis apenas uma semana após completar um meio-ironman .
Comecei a prova ainda cansado e sem a tão importante preparação psicológica. Fora a alimentação, comecei a maratona como se fosse correr uma prova de 10 km. Sofrer e perseverar sob quaisquer circunstâncias eram os objetivos do dia. Completei a maratona e me enchi de confiança para o IronMan no ano seguinte.
O Triathlon é um esporte mais mental do que físico. O benefício principal é a fortaleza emocional. A saúde física e o condicionamento adquiridos são meros subprodutos.
O Ultraman está se revelando uma série de provações similares. Até o final da preparação, estarei correndo quase três maratonas por semana. Para mim, isso é quase inimaginável.
Já os treinos de ciclismo precisam mesmo ser muito longos. O ideal é ir sozinho, sem música e de preferência com muita chuva e frio. Só pagando o preço, posso sonhar em merecer a linha de chegada do Ultraman.
Mas essas provações trazem também experiências muito valiosas e emocionantes.
Nesse domingo, após três horas de ciclismo, atravessei um temporal muito forte. Os pingos eram tão graúdos que chegavam a arder na pele com o impacto.
Em momentos assim, é importante conseguir dominar a sua interpretação do que ocorre à sua volta. Cheguei a pensar: “Era só o que me faltava”. Mas para combater os pensamentos negativos, lembrei de uma técnica que li uma vez. Passei então a tentar imaginar que as gotas de chuva eram gotas de energia que me deixavam mais forte na medida em que iam me ensopando!
Sei que essa idéia parece absurda, mas quando o seu treino dura literalmente o dia inteiro (desde a manhã até o anoitecer), é preciso usar a criatividade.
Percorridos mais 60 km, bateu um pouco de desânimo novamente. Mas quando cheguei ao topo da colina que eu escalava, fui surpreendido por uma plantação com flores amarelas que se estendia até o horizonte. Era uma paisagem linda e digna de um cartão postal da região de Provence, no sul da França. Foi um desses momentos místicos que quem já correu uma maratona ou participou de um triathlon já sentiu. Quando você está desanimado, cansado, precisando daquele empurrãozinho… Acontece algo que te renova, como se Deus tivesse dito assim: “Esse campo florido é só para você, Mario!”.
O dia foi passando e já ao final da tarde, o treino seguia com muito vento contra. Enquanto enfrentava mais uma longa e forte subida, começou a tocar a música “Redemption Song”, do Bob Marley. (vale explicar que, por segurança, quando estou pedalando, só uso o fone em um dos ouvidos).
Além de muito bonita, trata-se de uma música que me traz uma forte sensação de nostalgia. Imaginei então a minha vida em retrospecto. Vi tudo em câmera lenta, e me senti como se já fosse idoso e estivesse relembrando os passos dessa jornada sofrida, mas maravilhosa de minha juventude.
Imaginei o olhar de minha namorada ao compartilhar com ela as lindas paisagens do Hawaii; imaginei o olhar emocionado do meu técnico Almir ao ver os famosos campos de lava vulcânica consagrados na história do triathlon; imaginei meu amigo e “team captain” Jesse Arriola falando “KONA vai tremer!” como ele diz a cada prova de que participamos (só substituindo o nome da cidade na frase); e finalmente imaginei a felicidade de minha mãe ao ver a minha alegria em realizar um sonho tão almejado (como mãe é mãe, a felicidade dela é altruísta e sempre está em ver os filhos felizes). Pensei também na vibração dos amigos, familiares e até de tantos até então desconhecidos que não estarão no Hawaii, mas que me ajudaram tanto nessa jornada com sua torcida e emocionantes palavras de incentivo.
Tudo isso me fez lembrar que até esses momentos mais sofridos, deixarão saudade. Ao decorrer de minha vida sempre tive a sorte de perceber e de sentir que estou sempre vivendo “a melhor época da minha vida”.
OBS: O dia seguinte? Segunda-feira foi dia de treinar forte a natação pela manhã e uma “corridinha regenerativa” de 24 km de noitinha. Já estou quase acostumando…
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Capítulo anteiores:
4. 80 dias para o Ultraman: Felicidade real é compartilhada
3. Diário até o Ultraman: testes fisiológicos
2. Diário até o Ultraman: Desafrio 2009
1. A saga ao ultraman de Mario Maddalozzo: estréia
Equipe de Mario: Jesse Geraldo Arriola Junior – Capitão da Equipe, Almir João Brandalize – Treinador, Tiara Corradi – organização, Elizabeth Schultz Maddalozzo – Organização, Thaís Sampaio da Silva – Pacer, Luciana Brandalize – Registro fotográfico e de vídeo. Website: www.trilosofia.com
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