80 dias para o Ultraman: felicidade real é compartilhada
Olhando no meu calendário em que transcrevo meus treinos e os principais marcos dessa jornada, dou de cara com o escrito em destaque: 80 dias para o Ultraman!
O frio na barriga é inevitável. Nesse caso, “Frio na barriga” é pleonasmo. A sensação talvez seja mais bem descrita como a de alguém quando sobe no avião antes de pular de pára-quedas pela primeira vez.
Não tenho vaidade em admitir que o Ultraman causa-me esse “respeito” saudável. É esse sentimento que caracteriza um verdadeiro desafio.
Aliás, tudo no Ultraman para mim é superlativo.
No último domingo, por exemplo, fiz um treino de ciclismo no rolo (aparelho em que você fixa sua bicicleta para poder pedalar estacionariamente). A chuva excessiva não me permitiu fazer o treino mais longo na estrada que estava agendado na minha planilha. Então fiz um treino “paliativo” na sala de minha casa.
Comecei assistindo à transmissão da Meia Maratona de Rio de Janeiro. Depois uns 40 minutos de conversa com a namorada, o restante do programa “Esporte Espetacular”, os vídeos das transmissões do IronMan Hawaii 2008 e 2007. Parei para almoçar.
Depois do almoço, voltei para a bicicleta e pedalei mais 1hora e 50 minutos.
Já que não dava para fazer os 240 km na estrada por causa do tempo, pedalei apenas esse treino “tapa buraco de planilha”. Total do treino: 6 horas!
Eu não sei quando é que essas coisas viraram normais.
Os dias dos treinos de corrida parecem um piquenique, já que ainda estão durando menos de três horas (o tempo passa voando). A única coisa que me chateia um pouco são os treinos de ciclismo, por sua muito longa duração.
Mas esses treinos gigantes, embora ajudem, não tiram de mim o tão necessário “medo do desconhecido”.
Sei que ainda sou o mesmo cara que achava “impensável” correr 42 km. Depois era impensável fazer um IronMan… Agora é impensável, principalmente “correr 84,5 km” de uma só vez. A sensação aumenta, mas em essência é a mesma.
Embora os três dias do Ultraman sejam dificílimos, para mim o grande dragão a ser vencido será a dupla maratona do terceiro dia.
Mas a preparação para o Ultraman é muito mais complexa do que apenas treinos longos (e bota longos nisso). Mais difícil é depois de treinar tanto, cumprir sua rotina normal de trabalho. Além das tarefas de organização que são também muitas e não ficam atrás.
Aliás, é na esfera das tarefas de organização que recebi uma enorme injeção de ânimo hoje! Logo no dia do “marco histórico 80 dias para o Ultraman”, recebi essa enorme alegria. Uma das tarefas importantes de organização era viajar até São Paulo para conseguir os vistos para os E.U.A. de três importantes membros de minha equipe. Um dia após o treino de 6 horas de ciclismo no rolo, recebi o “merecido repouso” de dirigir os 400 km entre Curitiba e São Paulo para as entrevistas no Consulado Americano. Era melhor ir de carro, pois o avião poderia atrasar e assim perderíamos a entrevista agendada. No quarto do hotel, conferimos toda a documentação, cópia do Projeto Trilosofia, passagens aéreas, Carta de Aceitação do Ultraman e tudo mais… Já na porta do consulado, soube que para mim estava reservada a maior parte da expectativa: acompanhantes não são permitidos. Do lado de dentro da lado da grade, ficaram minha namorada, meu treinador e sua esposa… A mim só restava voltar para o hotel e torcer. Mil coisas me passaram pela cabeça. Já fiquei imaginando que medidas eu iria tomar se, num rompante de amargura de algum funcionário infeliz com sua vida, algum dos três não recebesse o visto americano.
Será que se eu mandasse a minha foto na festa da vitória do presidente Obama em 2008 ajudaria? E se o funcionário do consulado fosse do Partido Republicano? Teria também que escolher bem a foto a enviar para ter certeza de que iria ajudar. Veja abaixo exemplos de uma boa foto (à esquerda) e de uma foto não tão boa (apesar de ser apenas uma pose encenada nos cavaletes empilhados na calçada ao final da festa). 

Lembrei-me do jovem americano Christopher McCandless, que ficou famoso ao largar toda sua vida para tentar viver o ideal de isolamento e desapego das coisas materiais na natureza selvagem no Alaska. Lá morreu possivelmente de fome, em um ônibus abandonado em uma remota região. No livro de Jon Krakauer que depois virou filme, “Into the Wild”, ele relata as palavras de Christopher que incrustou em madeira no local em que foi encontrado seu corpo: “Felicidade somente real quando compartilhada.” Eu já viajei muito e sei bem o valor dessa mensagem. Enquanto pensava tudo isso, escutei uma batida na porta do quarto do hotel.
Todos sérios, pareciam tentar me consolar. Disse o meu técnico, Almir, em voz sóbria: “Eu consegui o visto, a Luciana (sua esposa) também…….mas a Tiara (minha namorada) não.”
Arregalei os olhos, descrente que estava. Perguntei se era verdade. Passei os olhos pelo Almir, pela Luciana… Mas quando cruzei os olhos com minha namorada percebi a brincadeira e foi festa geral no corredor do hotel! Quanto suspense! Todos com olhos marejados, só felicidade e a certeza de que vamos todos ao Hawaii!
Agora só restam pela frente os treinos para garantir a conquista em si. O como conquistar já está garantido.
Todos com visto!
Todos prontos para o Ultraman!
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Capítulo anteiores:
3. Diário até o Ultraman: testes fisiológicos
2. Diário até o Ultraman: Desafrio 2009
1. A saga ao ultraman de Mario Maddalozzo: estréia
Equipe de Mario: Jesse Geraldo Arriola Junior – Capitão da Equipe, Almir João Brandalize – Treinador, Tiara Corradi – organização, Elizabeth Schultz Maddalozzo – Organização, Thaís Sampaio da Silva – Pacer, Luciana Brandalize – Registro fotográfico e de vídeo. Website: www.trilosofia.com
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